Lisboa, 24/03/2006 – Seu nome aparece cada vez com maior freqüência nas previsões sobre o sucessor de Kofi Annan, atual secretário-geral da Organização das Nações Unidas. Mas José Ramos-Horta, ministro das relações exteriores de Timor Leste, nega enfaticamente. "Continuo dizendo que não sou candidato a secretário-geral da ONU, pelo menos por agora", afirmou durante uma viagem à Lisboa o chefe da diplomacia do mais jovem país do mundo, nascido em 22 de maio de 2002 após quase cinco séculos de colonização japonesa e 22 anos de ocupação pela Indonésia, que resultou no genocídio de um terço dos 660 mil habitantes que tinha em 1975. A incansável ação internacional deste resistente contra a ocupação da Indonésia, que nasceu em Dili em 1949, lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz 1996, compartilhado com o bispo de Timor, dom José Ximenes Belo. O homem que poderia se converter no segundo secretário-geral asiático da ONU é licenciado em ciências políticas e doutor em relações internacionais e estudos de paz, diplomas que conseguiu nos Estados Unidos, na Holanda e França. Mas ele não admite abertamente, porque "nosso governo apoiou a candidatura do vice-primeiro-ministro da Tailândia, Surakiart Sathirathai, um diplomata de grande experiência, uma pessoa encantadora e meu amigo pessoal".
P- Isto é, descarta totalmente sua candidatura a favor de Sathirathai? R- É óbvio que assumo esse compromisso em nome de meu governo e a título pessoal. Com toda honestidade, mantemos essa postura em respeito a sua candidatura, mas isto não quer dizer que alguém como eu, devido à minha origem e experiência tanto humana quanto cultural, diplomática e política, não esteja interessado no cargo de secretário-geral, porque desde essa posição se pode contribuir para a solidariedade internacional, a paz e a harmonia no mundo.
P- Em outras palavras, mantém aberta a opção. R- Devo voltar a enfatizar que ainda não sou candidato, mas poderei considerar a possibilidade se as coisas evoluírem e eu chegar à conclusão de que devo disputar o cargo.
P- Devido às características muito específicas que unem os países que em quatro continentes falam português, seguramente poderá contar com o apoio do Brasil, que tem uma enorme influência na América Latina, dos cinco luso-africanos e de Portugal, cujo chanceler, Diogo Freitas do Amaral, já se manifestou oficialmente a favor. R- Confesso que fiquei perplexo ao verificar que meu nome tem sido muito citado no mundo, não só na imprensa internacional mas também na ONU e em vários países. Estou muito agradecido a todos que consideram que eu seria um bom secretário-geral. Entretanto, insisto em esclarecer: ainda não sou candidato.
P- Qual é o principal problema da ONU? R- Compartilho a preocupação dos Estados Unidos e de outros países: uma das primeiras prioridades do próximo secretário-geral deve ser a reforma da máquina interna da ONU, da burocracia, que é imensa e paralisante. Kofi Annan já elaborou propostas radicais que esperam possam ser concretizadas. É preciso reduzir a burocracia, diminuir o gasto e torná-la mais operacional. Sem isso, muito dificilmente se avançará para outras reformas, especialmente a expansão do Conselho de Segurança. É da maior urgência resolver a questão nuclear com Irã e Coréia do Norte, bem como assumir a liderança na luta contra o terrorismo internacional. Este é um papel indispensável da ONU, que reúne toda a comunidade internacional: países pequenos, superpotências, pobres e ricos.
P- Muitos analistas afirmam que poderíamos estar à beira de uma guerra no Irã. R- Não creio, porque ao contrário da guerra do Iraque, o Conselho de Segurança está mais unido em sua determinação de evitar a "nuclearização" militar do Irã. Nenhum país da região está interessado em ver Teerã com armas nucleares. Em última análise, o Irã sentirá o peso da comunidade internacional, incluindo o de seus vizinhos.
P- As críticas sobre como os países pobres utilizam a ajuda internacional para o desenvolvimento são cada vez mais freqüentes. Como as avalia? R- Quando a ONU ou alguns países doadores dizem que gastarão centenas de milhões de dólares em Timor é melhor não dizer isso ao nosso povo. Melhor seria perguntar aos doadores e à ONU o que fizeram com esse dinheiro que dizem ter investido. Desde que assumimos o governo, em maio de 2002, não existe um único dólar que não contabilizado. A ONU, o Banco Mundial e alguns países doadores teriam de explicar onde gastaram essas quantias, se com o povo de Timor ou em remunerações de seus técnicos e consultores, "nos intermináveis estudos que fazem, nas missões de avaliação e nos famosos "programas de capacitação" que se sucedem, um após outro.
P- Durante décadas se destacou por seu combate em favor de Timor, mas também por denunciar a situação na Birmânia, agora Myanmar. R- Vejo com preocupação e tristeza a situação na Birmânia, um país paralisado no tempo. Rangun é uma cidade dilapidada. Este é o resultado de 45 anos de incompetência e irresponsabilidade dos governantes militares, que afundaram o país no medo por meio de uma feroz repressão. O que mais me chocou foi não ter visto um único rosto sorridente. Se vê que o birmanês guarda na alma o medo e a tristeza. Creio que a comunidade internacional deve esperar que os vizinhos da Birmânia, especialmente Índia e China, façam ainda mais para conseguir a abertura democrática diante de uma situação extremamente instável que também os afeta. Diante da sistemática negativa dos militares em libertar a prêmio Nobel da Paz 1991, Aung San Suu Kyi, e iniciar um processo sério de diálogo para a democratização, a ONU pode tomar medidas mais ativas. Kofi Annan o fez ao longo destes anos, mas as potências regionais têm a responsabilidade de fazer mais.
P- Ao contrário de seu caso, em que o Prêmio Nobel foi fundamental para que o mundo visse com olhos críticos a repressão em Timor, o prêmio de Suu Kyi não foi tão eficaz. R- Não foi, mas poderá ser,porque pode ocorrer na Birmânia o que aconteceu na Indonésia, onde o povo e os estudantes, cansados da ditadura, da miséria, do sofrimento, da corrupção e do mau governo saíram às ruas. Essas situações não são previsíveis, mas se repetiram em vários países do mundo. Filipinas, Tailândia, Ucrânia, Equador ou Peru são alguns dos casos mais ilustrativos do fim da paciência de um povo oprimido, enganado ou roubado. (IPS/Envolverde)

