Cuba, futuro imperfeito

Cuba1 Cuba, futuro imperfeito

Havana, Cuba, setembro/2013 – Diante de uma loja em Havana, onde são vendidos produtos em divisas, vários vendedores informais oferecem aos possíveis clientes produtos deficitários: pámpers (sic), quadros, baterias de automóveis, o que quer que já tenha sido e já não é.

Em uma área bastante exclusiva da praia de Varadero, o principal polo turístico cubano, uma horda de vendedores de caracóis percorre sua extensão oferecendo sua mercadoria aos visitantes.

Diante da minha casa, a cada manhã, passa um homem anunciando vender tanques de água.

Em um ponto de ônibus alguém pratica um negócio que está se generalizando na cidade: trocar um peso por oitenta centavos em frações, pois desta forma o que vende o peso pode pagar a passagem de dois ônibus e o que compra ganha 20 centavos, ou seja, negócio bom para ambos, embora para desgosto dos motoristas e cobradores que ficavam com os 60 centavos que deveriam devolver.

Como esses, muitos são os “ofícios” alternativos ou informais que foram aparecendo por esta ilha nos últimos anos. A maioria dos que os exercem são jovens que encontraram nos cantos mal iluminados da sociedade, formas mais lucrativas de ganhar a vida do que as oferecidas pelos salários do Estado, maior empregador do país.

Com estes ofícios ou negócios (que chegam aos extremos éticos do exercício da prostituição) uma pessoa pode obter o dinheiro necessário para sobreviver de um modo muito mais satisfatório do que com um simples trabalho formal.

Os ofícios informais existem em todo o mundo. Mas proliferam, sobretudo, onde há problemas de pobreza e desemprego. Em Cuba quase desapareceram por décadas, em parte por razões econômicas e em parte por compulsão social.

O ressurgimento e auge desta maneira de ganhar a vida tem como causa econômica a desproporção entre salários e custo de vida, e como principais protagonistas os jovens. São pessoas em muitos casos ainda em idade escolar (pré ou universitária) que optaram, ou foram obrigadas a optar, pela rua em lugar da sala de aula.

Em qualquer dos dois casos (a opção obrigatória ou voluntária) sobre eles influiu a perda de prestígio social e de capacidade econômica que significa ser um trabalhador ou mesmo um profissional.

Eles sabem que entre os universitários há os que conseguem trabalhar perto de uma fonte de divisas da qual podem se beneficiar, transitam o caminho para ter uma vida tranquila. Mas, por uma ou outra das opções, decidiram não jogar essa roleta russa, mas sim resolver o presente pelo caminho do menor esforço.

Há alguns meses perguntava em uma crônica o que poderia pensar da vida o jovem de 17, 18 anos que a cada manhã se planta na calçada do quarteirão onde moro para vender alho e abacate. Gostaria de saber, dizia, quais expectativas de futuro tinha. Ou, melhor ainda, se tinha ideia do que era possuir expectativas de futuro. O fato de ganhar em um dia cem pesos sem roubar ninguém parecia satisfazer esse jovem que ganhava cinco vezes mais do que um médico com consultas e responsabilidades profissionais.

Por tal motivo o número de “informais” cresce, e diria que diariamente.

Felizmente, seus ofícios dependem da habilidade, da ineficiência de certos mecanismos estatais, da corrupção, da escassez. E digo felizmente porque ainda hoje muitos deles não transgridem certas fronteiras, após as quais existe um enorme perigo para eles e para o resto da sociedade.

Observando a passagem dos vendedores de caracóis de Varadero, não pude deixar de me perguntar o que farão em certo momento alguns desses jovens sem classe social se sua atividade deixar de ser possível ou rentável.

Essa esquadra que hoje percorre a praia, em que pode derivar no futuro? O melhor seria encontrarem uma forma decente de ganhar a vida, o que significaria uma revolução profunda no quadro econômico no qual nasceram e viveram por mais de duas décadas.

E se não a encontram? Então se converterão em caldo de cultivo para as atividades que estão por trás dessas fronteiras perigosas. Para evitar essa queda, naturalmente, não seria suficiente a repressão legal e policial, pois seria apenas uma solução momentânea.

Impõem-se criar alternativas viáveis, porque não imagino muitos desses jovens convertidos, digamos, em agricultores ou pedreiros filiados a uma cooperativa na qual o ganho dependerá do trabalho puro e duro, muitas horas sob o Sol, a pressão dos colegas e a obrigação de entregar ao fisco algo como um terço de seus ganhos.

Talvez para muitos desses informais o tempo da superação já tenha passado e, para sempre, estão destinados a se moverem nos fossos da sociedade, fazendo os trabalhos mais sujos ou pior pagos, ou saltando diretamente para a criminalidade em qualquer de suas muitas formas existentes.

E tais possibilidades me dão pena por esses jovens e terror pelo resto dos cidadãos que nesse futuro possível conviveriam com eles. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, O Homem Que Amava os Cães, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader.

Leonardo Padura

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