Washington, 17/04/2006 – Os principais porta-vozes da direita norte-americana exortam o presidente George W. Bush a planejar urgentemente ataques militares – e, talvez, uma guerra – contra o Irã, que na semana passada anunciou ter conseguido enriquecer urânio. Em uma verdadeira onda de editoriais e colunas de opinião divulgadas na quarta-feira e na quinta-feira, publicações direitistas com The Wall Street Journal, The Weekly Standard e The National Review advertiram que o Irã havia passado dos limites. Segundo os editorialistas, é hora de o governo planejar seriamente a destruição das instalações nucleares iranianas e objetivos militares (para impedir represálias), pois consideram que o regime islâmico de Teerã tem intenção de desenvolver armas atômicas.
O diretor do The Weekly Standard, William Kristol, comparou o processo nuclear iraniano com a recuperação militar ordenada pelo ditador alemão Adolf Hitler, em 1936, sobre a Renânia, território desmilitarizado desde o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Portanto, alertou Kristol, o governo Bush deve empreender uma "preparação séria para uma possível ação militar, incluindo o planejamento operacional urgente de bombardeios, e para a conseqüência de tais ataques. Uma grande nação deve ser séria sobre suas responsabilidades, mesmo que a execução de outras responsabilidades tenha sido mais difícil do que o previsto", disse Kristol, um dos ideólogos do ramo neoconservador do governante Partido Republicano, se referindo à invasão do Iraque, em 2003.
The National Review, outro semanário direitista, fez eco à exortação. "Qualquer campanha aérea deve combinar-se com esforços agressivos e persistentes para mudar o regime iraniano a partir de dentro", diz em seu último editorial, intitulado "Agora, o Irã", e seguramente redigido pelo ideólogo neoconservador Michael Ledeen. "Portanto, não deveria golpear somente as instalações nucleares, como também os símbolos da opressão estatal: o ministério de inteligência, os quartéis da Guarda Revolucionária, as torres de guarda da famosa prisão de Evin", afirmou o editorialista.
Esta campanha parece sincronizada não só com o alarme criado em razão dos acontecimentos nucleares iranianos e com os informes divulgados há alguns dias sobre o avançado estado dos planos de guerra dos Estados Unidos, como também para contrapor-se aos chamados a negociações diretas com o Irã, feitas por destacadas figuras da política externa de governos anteriores. Washington deveria fazer "uma oferta diplomática justa e generosa" a Teerã, disse Richard Haas, assessor do secretário de Estado do primeiro mandato de Bush (2001-2005), Colin Powell, em uma coluna publicada na quarta-feira pelo jornal The Financial Times.
Tal oferta deveria permitir ao Irã manter um pequeno programa de enriquecimento de urânio, mesmo que somente para os Estados Unidos obterem apoio da comunidade internacional em suas gestões, segundo Haas, presidente do Conselho de Relações Exteriores, centro acadêmico com sede em Nova York. Com o argumento de que "os custos possíveis de um ataque ultrapassam substancialmente os prováveis benefícios", o especialista observou que a suposição "mais perigosa" dos que apóiam um ataque "é que um conflito seria pequeno ou rápido".
Na quinta-feira, uniu-se a Haas o segundo de Powell no Departamento de Estado, Richard Armitage, que reclamou conversações diretas em uma entrevista que deu ao The Financial Times. "Vale a pena falar com os iranianos sobre todos os aspectos de nossa relação, da energia ao terrorismo", e, especialmente, sobre a situação do Iraque", segundo Armitage, firme candidato a secretário de Defesa no caso de Donald Rumsfeld renunciar. "Podemos ser suficientemente espertos no campo diplomático para fazê-lo sem conceder nada", acrescentou, ao mesmo tempo em que pedia paciência "por um tempo", já que para a comunidade de inteligência norte-americana o Irã demoraria entre cinco e dez anos para construir uma arma nuclear.
Tais declarações são anátema para a ala mais belicista do governo, que advertem que dialogar com o Irã é equivalente às políticas de "pacificação" desenvolvidas por França e Grã-Bretanha em relação à Alemanha nazista às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Para Kristol, por exemplo, a política dos Estados Unidos para o Irã é a do "pau com cenoura", apesar das insistentes versões jornalísticas sobre o estado avançado do planejamento de um ataque militar. Por outro lado, os também neoconservadores editorialistas do The Wall Street Journal consideraram que é difícil de acreditar na "suposta febre bélica" do governo, "pois durante três anos o governo Bush permitiu à Europa buscar uma solução diplomática com o Irã".
O editorial de Kristol, no The Weekly Standard, insiste em que, para apoiar as gestões diplomáticas conjuntas com aliados dos Estados Unidos na Europa, deveria manter-se uma "ameaça de força crível", combinada com "crescentes atividades de inteligência e operações encobertas", bem como o planejamento de ataques militares. Em uma artigo da mesma publicação, intitulado "Objetivo: Irã", o general da Aeronática na reserva Thomas McInerney afirmou que Washington deveria estar preparada para uma "poderosa campanha aérea", com centenas de aviões e 500 mísseis cruzeiro contra 1,5 mil alvos nucleares e militares. Por sua vez, o veterano militar israelense e novelista, Mark Helpin, disse em uma coluna para o jornal The Washington Post, publicada na quinta-feira, que os Estados Unidos deveriam reforçar sua presença militar em Israel, Jordânia e Iraque, para prevenir represálias pelos ataques. (IPS/Envolverde)

