Ambiente: A via crucis das tartarugas

BARRANQUILLA, 17/04/2006 – A demanda por carne e ovos de quelônios em extinção aumenta durante a Semana Santa. Autoridades ambientais na Colômbia e no México tentam frear seu consumo. Autoridades ambientais liberaram, na primeira semana de abril, 1,2 mil tartarugas de água doce apreendidas pela polícia no Caribe colombiano, em operações contra seu comércio ilegal, que aumenta durante a Semana Santa. A grande procura por carne e ovos destes exemplares das espécies Trachemyscripta callirostris e Podocnemis lewyna está relacionada à crença popular de que se trata de carne branca, como a dos peixes, segundo Joe García, biólogo da Corporação Autônoma Regional do Atlântico (CRA).

Além disso, os ovos têm um alto valor protéico e muitas pessoas no norte do país, e em algumas comunidades do resto do Caribe, atribuem a eles poderes afrodisíacos, o que aumentou sua caça indiscriminada, disse García ao Terramérica. As tartarugas libertadas por funcionários da Corporação Ambiental do Magdalena (Corpamag) e da CRA fazem parte dos programas que realizam para repovoar espécies ameaçadas.

Os quelônios, tanto de água doce quanto salgada, estão ameaçados, como na Colômbia, em vários países da região, como Costa Rica, Chile, Peru e Venezuela. Alguns, como o México, possuem programas de conservação. "Quem consome carne e ovos de tartaruga está totalmente desinformado: nem têm propriedades afrodisíacas, nem se trata de carne branca, e sim vermelha", disse ao Terramérica Alejandro Olivera, coordenador da campanha de oceanos do Greenpeace no México.

Sete das oito espécies existentes de tartarugas marinhas depositam seus ovos em mais de 127 praias do México, que,desde 1990, declarou total proibição à matança e extração de ovos desta espécie e é um dos países que mais severamente castiga sua captura. Entretanto, mais de dois mil animais são sacrificados por ano, segundo cálculos extra-oficiais. Para combater o tráfico ilegal de carne e ovos de tartarugas, no dia 9 de abril, o Greenpeace lançou no México uma campanha com Kikín Fonseca, integrante da seleção mexicana de futebol, que diz: "Não faça gol contra no México. Não coma tartaruga". Em um cartaz no qual aparece o jogador está escrito: "As tartarugas estão em extinção. Seu comércio e consumo são crimes graves".

Até a década de 80, a maioria dos países permitia capturar tartarugas e seus ovos, mas nos anos 90 a evidência de que a espécie estava desaparecendo levou os governos a proibir com leis essa atividade. Manuela Herrera, bióloga da estatal Universidade do Atlântico, disse ao Terramérica que o consumo de carne e ovos de tartaruga no Caribe colombiano existe desde a época hispânica, mas, ao contrário dos dias de hoje, as "comunidades indígenas eram cuidadosas ao preservar os ciclos reprodutivos desta e de outras espécies que utilizavam para sua subsistência". Segundo um estudo da CRA, o sentido de conservação dessas comunidades era tal que para cada dez espécies existentes na região só usavam uma para consumo.

A pesquisa mostra que a situação socioeconômica de muitas comunidades rurais e a deterioração da pesca fizeram com que, nos últimos 20 anos, aumentasse a caça indiscriminada e a comercialização destes animais no Caribe colombiano. O camponê José Núñez lembra que, nos anos 60, no quintal de sua casa, no departamento de Córdoba, sempre havia entre 30 e 40 tartarugas Trachemys scripta callirostris que se reproduziam ali mesmo e eram usadas para consumo familiar, especialmente durante a Quaresma e a Semana Santa. "Agora, conservo três como mascotes, porque acreditamos que dão boa sorte", disse Núñez.

Cerca de dois milhões de tartarugas são caçadas ilegalmente por ano no Caribe colombiano, segundo a CRA. Na região setentrional, essas capturas reduziram entre 80% e 90% a população natural, e na zona meridional, entre 40% e 60%. Para combater o tráfico e o consumo ilegal da carne e dos ovos de tartaruga, catalogadas como em vias de extinção pelo Instituto Alexander Von Humboldt, os organismos ambientais também implementam estratégias de educação nas comunidades além de programas produtivos.

A caça e a comercialização de tartarugas na Colômbia estão proibidas pela lei 84, de 1989, e são punidas com até dois anos de prisão ou multas entre quatro e cinco salários mínimos legais. As tartarugas existem no planeta há mais de cem milhões de anos, e delas se extrai óleo, carne, pele para fabricar sapatos e bolsas, e matéria-prima para artesanato. Estudos científicos indicam que somente de 0,02% a 0,2% de cada dez mil filhotes de tartaruga chegam à idade adulta.

* A autora é colaboradora do Terramérica. Com contribuição de Diego Cevallos (México).

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Yadira Ferrer

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