Educação: A grande oportunidade para a América Latina

Santiago, 28/04/2006 – Os países da América Latina e do Caribe devem aproveitar a cobertura quase universal do ensino primário e a redução da população em idade escolar para orientar melhor os recursos no setor e aumentar a qualidade, segundo especialistas da Organização das Nações Unidas. Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgada por ocasião da Semana de Educação para Todos, que termina nesta sexta-feira, avalia a situação dos professores e a qualidade de ensino na região e no mundo. Também examina "as medidas que podem ser adotadas para reduzir a discrepância entre esses dois fatores, em particular nos países em desenvolvimento". Nesse estudo, são comparadas forças e fraquezas em matéria de contratação de educadores, analisadas as políticas de distribuição geográfica deles e as condições de trabalho em cada país.

"Enquanto outras regiões do mundo devem contratar novos professores para atingir a universalidade da educação primária até 2015, a América Latina e o Caribe, hoje, podem reduzir a força docente devido à constante diminuição da população em idade escolar", diz o informe da Unesco. Conseguir a educação primária universal é a segunda das Metas de Desenvolvimento do Milênio a ser cumprido até 2015, segundo foi aprovado em 2000 pela ONU. Também se propõe, nesse prazo, reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a materna em três quartos.

As Metas do Milênio também incluem reduzir à metade, em relação a 1990, a proporção de pessoas na indigência e com fome, promover a igualdade de gênero, combater a propagação da aids, malária e outras doenças, assegurar a sustentabilidade ambiental e criar uma sociedade global para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul. O contexto educacional da região oferece uma grande oportunidade para melhorar sua qualidade, com o investimento de mais recursos por aluno e professor, afirma o documento, apresentado terça-feira, simultaneamente em Santiago, Nova York, Montreal, Bruxelas e Paris.

Somente Bahamas, Guatemala e Paraguai precisam expandir ligeiramente a força educacional para conseguir a cobertura universal da escola primária na região, afirma o estudo intitulado "Os docentes e a qualidade da educação: acompanhamento das necessidades mundiais para 2015", realizado pelo Instituto de Estatísticas da Unesco. A agência decidiu publicar o estudo durante a Semana de Educação para Todos, que anualmente recorda o Fórum Mundial da Educação realizado em 2000, em Dacar. Este ano, o tema foi "cada criança precisa de um professor".

O Instituto de Estatísticas estima que, na próxima década, será necessário contratar mais de 18 milhões de professores em todo o mundo. Menos de 10% desse total correspondem à região. O estudo, realizado em 102 países, 20 deles latino-americanos e caribenhos, afirma que, em 2004, havia 26 milhões de professores. A Unesco adverte, também, que os países da América Latina e do Caribe devem dar especial atenção na redução da repetência, já que esta diminui as possibilidades do aluno completar o curso e causa considerável pressão sobre os professores.

Entre 2005 e 2015, serão necessários 1,6 milhão a mais de professores primários na região, pois estima-se que 6,5% dos professores em atividade deixam a profissão a cada ano por diversas razões. Todos os países latino-americanos e caribenhos têm, em média, menos de 40 alunos por professor, considerado o máximo para uma educação de qualidade. Cuba tem uma das proporções mais baixas do mundo, com dez alunos por professor. Quanto à preparação acadêmica do docente, o informe diz que os padrões são relativamente bons. "Mais da metade dos países exige o terceiro grau (universitário ou técnico-profissional) e a proporção de professores que atualmente contam com essa qualificação é muito alta", diz o estudo.

A situação da América Latina e do Caribe contrasta com a de outras regiões que devem atender a uma população estudantil cada vez maior, o que exige o aumento do investimento para construir novas escolas e contratar mais professores. Nesse sentido, a África subsaariana ostenta o maior desafio, já que entre 2006 e 2015 está obrigada a aumentar em 68% o número de professores, isto é, 1,6 milhão a mais, para que todas as crianças possam ter o curso primário. Os países que necessitam de mais professores são os que, ao mesmo tempo, apresentam grandes restrições orçamentárias. "Para muitos deles resta somente a opção de recorrer a paradocentes que, em geral, têm uma qualificação profissional inferior à dos professores titulares e recebem salários muito menores", adverte o informe.

O Escritório Regional de Educação da Unesco, com sede em Santiago, sugeriu que "os esforços dos países devem ocorrer no sentido de melhorar as condições do trabalho pedagógico e de estimular a criação de equipes de docentes, que permitam superar o isolamento daqueles profissionais que trabalham em regiões com populações dispersas". Também propôs ampliar os serviços de atenção na primeira infância, desenvolver estratégias de apoio pedagógico às escolas e aos professores que permitam assegurar melhor aprendizado, reduzir a repetência e liberar recursos econômicos adicionais, além de reduzir o tamanho dos grupos de alunos.

"A situação do professorado chileno é agridoce", disse á IPS Juan Eduardo García-Huidobro, diretor da Escola de Educação da Universidade Alberto Hurtado (particular) e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação. "Embora a maioria dos professores em atividade tenha se formado em instituições de educação superior, o que dá certa vantagem, atualmente enfrenta grandes dificuldades", afirmou. Por um lado, os professores têm problemas para compreender as novas gerações, "globalizadas e especialistas em tecnologias", questão que os obriga a permanente reciclagem, acrescentou.

García-Huidobro também lembrou quem durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1993-1990)m a profissão de professor foi desvalorizada com a redução de salários, o enfraquecimento das faculdades de educação e o recrutamento de pessoas com baixo nível acadêmico, algo que também aconteceu em outros países da América Latina sob regimes semelhantes. Ainda restam desconfianças dessa época, apesar de a coalizão de centro-esquerda, que governou o país desde o retorno à democracia e continua no poder com a presidente Michelle Bachelet, faz grandes esforços para reverter a deteriorada imagem social do magistério.

O especialista acredita que, atualmente, dois dos principais obstáculos para os professores conseguirem aprendizagem de qualidade são a insuficiente preparação que possuem para tornar realidade a mudança curricular e o extremamente desigual sistema educacional chileno. Entretanto, o presidente interino do Colégio de Professores do Chile, Darío Vasquez, comentou a preocupação que tem o magistério do país sobre a redução em 10% da matrícula escolar durante a próxima década, já que isso se traduzirá em instabilidade trabalhista, a qual aumentará paulatinamente.

Também criticou as condições de trabalho dos professores, que ensinam em salas de 45 alunos, em média, e que dispõem de pouco tempo para planejamento. Destacou, ainda, que o magistério chileno sofre com uma grande incidência de doenças físicas e mentais, tal como constatou, em 2005, um estudo do Escritório Regional de Educação da Unesco. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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