Economia-Argentina: A vez da exportação de trigo

Buenos Aires, 19/05/2006 – Em seu afã para controlar a inflação, o governo da Argentina adota medidas em relação a produtos emblemáticos de sua economia que causam impacto no comércio mundial. Primeiro suspendeu a exportação de carne bovina e, agora, estuda fazer o mesmo com o trigo. "O governo entende que é tão bom exportar trigo quanto prover o mercado interno a um preço conveniente", disse na quinta-feira o chefe de gabinete, Alberto Fernández, em uma afirmação que coloca em dúvida suas próprias palavras prévias quando negou que estivesse analisando deter as exportações desse grão, que tem no Brasil seu principal cliente.

Uma fonte próxima ao setor, que prefere o anonimato, assegurou à IPS conhecer os textos dos documentos oficiais que estabelecem a suspensão por 30 dias das vendas externas de trigo. O governo centro-esquerdista de Néstor Kirchner tentaria, assim, forçar um acordo com os produtores para evitar o desabastecimento do mercado nacional. A versão sobre a possível proibição temporária da exportação da Argentina teve impacto no mercado internacional do trigo, que se somou às más condições climáticas nos Estados Unidos para aumentar os preços. Além disso, o assunto provocou fortes críticas entre especialistas independentes.

A Argentina, um dos principais exportadores mundiais de trigo, conseguiu um rendimento na última colheita de 12,3 milhões de toneladas, 3,7 milhões a menos do que a anterior. Essa redução da oferta, somada a um aumento da demanda externa, provocou a alta do preço internacional que incentivou os produtores argentinos a vender para fora das fronteiras. Em poucas semanas os exportadores registraram colocações num total que se aproxima do saldo exportável, fenômeno que ameaça desabastecer o mercado interno de farinha e derivados, basicamente pão, biscoito e macarrão, provocando a alta dos preços de alimentos-chave da dieta dos argentinos.

Só o Brasil compra da Argentina cinco milhões de toneladas de trigo por ano – volume equivalente hoje a 40% da produção da Argentina – com o benefício que lhe dá ser membro pleno do Mercosul. A preferência alfandegária no comércio interno do bloco (também formado por Paraguai e Uruguai) é de 12% sobre o preço internacional. Caso se concretize a suspensão das exportações pelo governo argentino, será a segunda desse tipo em dois meses. A primeira foi anunciada no dia 8 de março pela ministra da Economia, Felisa Miceli, e afeta por 180 dias, a partir daquela data, as vendas externas de carne bovina.

A medida, tomada para frear a tendência de alta dos preços internos, causou impacto na Rússia, um dos principais compradores de carne argentina. ?Primeiro a carne para os argentinos; pois não nos interessa exportar às custas da fome do povo argentino?, justificou na oportunidade o presidente Kirchner. Em conversa com a IPS, o engenheiro agrônomo Jorge Elustondo criticou o que considera ?falta de estratégia e de política agroalimentar? do governo e afirmou que esse tipo de medida voltada ao curto prazo ?tem um efeito demolidor a médio e longo prazos?, tanto nas decisões de produção interna quanto nos mercados externos.

Elustondo foi vice-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA) e é coordenador do Fórum Permanente do Conselho Agroindustrial Alimentar que reúne produtores de semente, agricultores, empresários e técnicos do setor agropecuário. O fórum é uma idéia do Grupo Fênix, de acadêmicos e críticos do neoliberalismo. ?Se o governo busca conter os preços, tem outros instrumentos?, recordou o engenheiro. ?Poderia aumentar temporariamente as retenções (impostos sobre exportações) e essa arrecadação extraordinária poderia se transformar em créditos com juros subsidiados para aumentar a produção de trigo?, acrescentou.

Por outro lado, uma proibição pura e simples das exportações tem apenas prejuízos e não garante uma queda nos preços internos, alertou Elustondo. O especialista disse que a medida não vai solucionar o problema de fundo ? que é a oferta reduzida por falta de uma política no setor ? mas agravará a próxima colheita. Entre maio e julho, os produtores decidem a plantação para a safra seguinte e estas medidas os levam a plantar soja. ?Só o que se consegue proibindo a exportação de carne bovina e trigo é aprofundar o modelo do monocultivo de soja que apresenta prejuízos ambientais provados tecnicamente pelo INTA?, advertiu Elustondo.

A soja é o principal cultivo da Argentina e o primeiro produto de exportação, mas ativistas e alguns técnicos agropecuários criticam o impacto ambiental deste modelo de produção que, explicam, arrasa com a diversidade agropecuária, favorece o corte de florestas e causa erosão na qualidade dos solos. Elustondo disse, ainda, que a medida causará um ?terrível impacto? na sustentabilidade do Mercosul, ?já bastante complicado? por diversas crises entre os sócios.

Para o especialista, é provável que Kirchner perceba que a maior vulnerabilidade de sua gestão está no impacto negativo que poderia ter um sensível aumento da inflação. Mas insistiu que as respostas escolhidas servem apenas para o curto prazo e podem ser ?irreversíveis? a longo prazo. Além disso, uma medida semelhante foi adotada pelo presidente argentino quando em 2004 restringiu a exportação de gás natural para o Chile. A medida, tomada, segundo se anunciou, para garantir o consumo por empresas locais, provocou atritos na relação o país vizinho, muito dependente do gás argentino.

Finalmente, Elustondo explicou que as restrições às vendas externas de carne não redundaram em uma baixa notável nos preços internos nem em uma expansão do consumo entre os mais pobres. As conseqüências dessa medida foram o desemprego para milhares de empregados de frigoríficos, que agora recebem subsídios do Estado. ?O governo tem hoje ferramentas para conhecer a evolução da demanda e as condições da oferta e poderia ter previsto estes problemas de abastecimento com medidas como o incentivo à determinados cultivos e, sobretudo, poderia ter previsto a melhoria da demanda interna de alimentos através de um maior poder aquisitivo da população?, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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