Iraque: Morte de Zarqawi não acabará com a violência

Bagdá, 09/06/2006 – Os iraquianos se mostravam divididos nesta quinta-feira, ao se tomar conhecimento da morte de Abu Musab al-Zarqawi, o líder da rede terrorista Al Qaeda neste país e natural da Jordânia. Funcionários norte-americanos e iraquianos afirmaram que Zarqawi morreu junto com sete colaboradores em um ataque aéreo sobre Baqouba, 50 quilômetros a noroeste de Bagdá. Os Estados Unidos haviam oferecido uma recompensa de US$ 25 milhões por sua cabeça, a mesma quantia que oferece pelo líder da organização, Osama bin Laden.

O primeiro-ministro iraquiano Nouri Al-Maliki disse nesta quinta-feira que Zarqawi havia sido eliminado. "Aqueles que perturbam o curso da vida, como Zarqawi, terão um trágico fim", afirmou. Os comentários de Maliki conincidiram com as do porta-voz do clérigo xiita Muqtada Al-Sadr, Fadil el-Sharra. Sadr conduziu duas rebeliões armadas contar a ocupação liderada pelos Estados Unidos, e com freqüência exige sua retirada. "Depois disto, o terrorismo será dominado", disse Sharra à IPS. "Agora, os terroristas sabem que seu futuro é ser assassinado, como Zarqawi", acrescentou.

Sharra considerou que é hora de todos os iraquianos apoiarem o governo para restabelecer a soberania nacional. "O terrorismo acabará e teremos um Iraque sem ditadura, sem problemas e com estabilidade", previu. Mas, nem todos pintam esse cenário de rosa. O porta-voz da Associação de Acadêmicos Muçulmanos de linha dura sunita, Mathona al-Dari, disse à IPS que "a questão não é a captura de Zarqawi. Isto não tem a ver com uma pessoa. O problema é que a ocupação quer destruir qualquer um que resista, sejam grupos armados ou políticos. Este assassinato tem o objetivo de ocultar o fato de que a ocupação não está interessada em ajudar o povo iraquiano", segundo Dari.

Zarqawi praticava a vertente sunita do Islã, como 35% da população do Iraque. Seus seguidores costumam se suicidar detonando explosivos em meio a multidões xiitas, que constituem 62% dos 26 milhões de habitantes do país. O pai de Dari, Harthi al-Dari, é imã de uma mesquita perto da prisão de Abu Graib e conhecido por sua pregação antinorte-americana. Em certa ocasião, o imã emitiu uma fatwa (ordem religiosa) que proibia qualquer iraquiano de ajudar militares norte-americanos ou britânico, e se referia à resistência armada como dever religioso.

A Associação de Acadêmicos Muçulmanos temperou sua retórica, participou das eleições iraquianas e uniu-se ao governo de unidade nacional, mas Mothana al-Dari disse esperar que os combates continuem, apesar da mudança de posição de sua organização. Dari considerou que as políticas que originam o ressentimento e a ira entre os iraquianos se mantêm, e entre elas mencionou a prisão de 15 mil pessoas sem julgamento em prisões norte-americanas. O governo do Iraque acertou esta semana com Washington a libertação de 2.500 prisioneiros, mas Dari advertiu que isso não é suficiente para alcançar a paz. "Seu projeto é destruir as vozes contrárias à ocupação, armada ou desarmada", afirmou.

Dari atribui a iminente libertação de prisioneiros iraquianos à intenção dos norte-americanos de prender mais gente, pois ficaram sem espaço nas prisões. Há tantos presos em Abu Ghraib que muitos são colocados em tendas de campanha instaladas nos pátios. De fato, as forças norte-americanas se preparam para um ataque maciço contra Ramadi, segundo diversas versões. Cerca de 1.500 soldados foram levados para essa região, que já é cercada por postos de checagem e franco-atiradores.

"Passamos dias difíceis no Iraque que colocarão á prova a paciência do povo norte-americano", disse o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ao advertir, nesta quinta-feira, que a morte de Zarqawi não levará a mudança na política de Washington. "Gostaria de ser otimista – disse Dari – mas as coisas que vejo mostram que o Iraque não tem futuro com a ocupação. E o atual processo político, a voz da nação está ausente", afirmou. (IPS/Envolverde)

Aaron Glantz

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