EUA-Cuba: Acadêmicos superam confrontação

Havana, 14/07/2006 – Enquanto os governos dos Estados Unidos e de Cuba trocam acusações no último capítulo do enfrentamento bilateral, um grupo da comunidade científica e estudantil norte-americana promove intercâmbios entre os dois países. O professor Charles Verharen, da Universidade Howard, com sede em Washington, disse à IPS que isso é “indispensável porque sem comunicação entre os acadêmicos não há fundamento histórico para a aproximação das duas nações”. O especialista está envolvido em uma pesquisa sobre a extensão das instituição de altos estudos para os bairros neste país, que possibilitam a grandes massas o aprendizado de carreiras universitárias fora dos tradicionais campus.

Segundo o entrevistado, sem este vínculo “não haverá possibilidades de aproximação ou de reconciliação política econômica, social e, o mais importante, filosófica entre os dois países”. Os laços entre Havana e Washington continuaram se deteriorando no começo deste mês, quando o Escritório de Interesses dos Estados Unidos em Havana informou sobre cortes de água e energia, o que qualificou de hostilidade por parte das autoridades cubanas. Através de um comunicado divulgado na imprensa local, o governo da ilha respondeu alegando que os representantes de Washington buscavam pretextos para por fim aos precários laços diplomáticos ainda existentes.

Verharen reconheceu que “são crescentes as dificuldades” para os norte-americanos que desejam visitar Cuba, e que a “única razão” pela qual se encontra neste país é a sua condição de pesquisador. Entretanto, não escondeu certo grau de preocupação porque “é provável que o governo conservador do presidente George W. Bush comece, inclusive, a proibir este tipo de intercâmbio acadêmico”. Em maio, de acordo com a imprensa dos Estados Unidos, Bush adiou o anúncio de novas medidas para “restringir ainda mais as viagens, os contatos acadêmicos e as delegações religiosas à ilha”.

Em março de 2003, Washington suspendeu as permissões concedidas para intercâmbios educacionais, e em maio de 2004 acrescentou requisitos mais rígidos de viagens para todas as categorias de pessoas. Allison Hayes-Conroy, graduada em geografia cultural e política, realiza em Havana “contatos para realizar uma pesquisa” no âmbito da alimentação e agricultura. Ela afirmou à IPS que, embora seja seu direito viajar desde a Filadélfia até Cuba para acertar os detalhes preliminares de seu estudo, “está preocupada em saber se poderá fazê-lo no futuro, e isso é completamente injusto”.

A pesquisadora considera “terríveis” as restrições de viagens para Cuba porque “é muito importante, tanto para professores quanto estudantes, interagir e trocar conhecimentos” com a comunidade acadêmica cubana. Em sua pesquisa “considera interessante a relação entre agricultura e alimentação e a situação em Cuba nos últimos 10 anos”, e essa experiência “poderia ser útil para os norte-americanos”. Por sua vez, a doutora em sociologia Jualynne Dodson, professora da Universidade Estatal de Michigan, realiza atualmente um trabalho de campo em Cuba. Ela defende “o livre fluxo de idéias e informação” incentivado pelas instituições acadêmicas de seu país.

Em entrevista à IPS, comparou a política norte-americana sobre intercâmbios religiosos entre os dois países, que, em sua opinião, favorece alguns grupos em detrimento de outros. “O governo determina quem recebe a licença” para viajar a Cuba por assuntos religiosos, afirmou Dodson, acrescentando que “organizações religiosas norte-americanas como o Conselho Nacional de Igrejas tiveram negadas” as licenças no ano passado. Em 2005, o Conselho Nacional de Igrejas e o Serviço Mundial de Igrejas, junto com outras quatro organizações protestantes, foram notificados pelo Escritório de Controle de Ativos do Departamento do Tesouro que as autorizações para viagens por motivos religiosos à Cuba não seriam renovadas.

Dodson contou que na província cubana de Pinar del Río conheceu “um grupo de jovens missionários da Flórida” que, em sua opinião, “mais do que evangelizar, o que fazem é repartir dinheiro e coisas materiais com os pobres do campo”. Embora “apareçam como missionários”, esses jovens procuram “dividir o povo cubano, e muitos desses grupos receberam licenças para este tipo de trabalho religioso”, afirmou. O religioso cubano Raúl Suárez, consultado pela IPS, confirmou a existência de “aproximadamente 70 grupos desse tipo procedentes dos Estados Unidos, que entram com vistos de turistas e se espalham por todo o país, embora a zona oriental lhes interesse muito”.

A socióloga norte-americana acrescentou que as atuais regulamentações sobre intercâmbios com Cuba são “muito fortes”, mas uma lei sobre o assunto aprovada pelo Estado da Flórida “terá muitas conseqüências negativas”. No dia 3 de maio, a Assembléia Legislativa local aprovou a Lei de Viagens a Estados Terroristas, promulgada pelo governador Jeb Bush no final desse mês, que proíbe as universidades do Estado de financiar viagens para Cuba e outros quatro países. Dodson considera equivocada essa lei, porque “as universidades não deveriam estar na linha da política, a política não deveria começar a ditar o que as universidades devem fazer”.

Sobre o cenário que surge com a nova regulamentação, o professor e advogado Mark Kruger, da Universidade de Saint Louis, manifestou o “temor de que o governo federal possa fazer o mesmo”. O acadêmico realiza um estudo comparativo entre as sociedades civis e organizações de massas nos dois países, e assegurou à IPS que um grupo “do qual faz parte” começou uma batalha legal contra a lei da Flórida. Este grupo de acadêmicos argumentará diante do governo norte-americano que “existe o direito de viajar” com fins educacionais e acadêmicos em Cuba, disse Kruger.

Além disso, no último dia 13, a União Americana de Liberdades Civis apresentou em um tribunal federal de Miami uma demanda de inconstitucionalidade contra a lei, pois contraria faculdades federais em matéria de política externa. “Nos Estados Unidos, haverá uma batalha em torno disto, não vamos renunciar a estes intercâmbios e isto implica uma luta”, concluiu.

Orlando Matos

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