Veneza, 14/07/2006 – A palavra “glasnot” (do russo “público” e “voz”) que ficou famosa nos anos 80 para simbolizar a abertura e transparência, hoje em dia define muito bem o desafio dos meios de comunicação em um mundo globalizado. Mikhail Gorbachov, ex-presidente da dissolvida União Soviética e prêmio Nobel da Paz de 1990, sabe muito bem como sua administração baseada na glasnot provocou tanto esperança quanto temor, e como continua sendo uma fórmula válida para os meios de comunicação, o poder e a sociedade civil. Esse assunto foi discutido em um seminário internacional, organizado pelo World Political Forum – uma organização de intelectuais criada por Gorbachov para revisar os processos-chave da globalização – na cidade de Veneza.
Especialistas de todo o mundo, jornalistas e profissionais da comunicação discutiram esse papel fundamental dos meios de comunicação, que estão entre “os cidadãos e o poder”. Essa posição intermediária da imprensa é um vínculo ou um obstáculo para a sociedade civil e o âmbito político? “No momento mais crítico da Perestroika (a reestrutura da economia soviética estatal e centralizada), os sentimentos negativos e os duros ataques da imprensa estavam na agenda de todas as reuniões de gabinete. Estão nos pressionando, estão nos perseguindo! Todos estavam muito preocupados com isso”, disse Gorbachov à IPS.
“Os jornalistas nos pediam com veemência que revelássemos de uma vez o pior do regime. Mas de acordo com a visão da Perestroika, a pessoa não pode repudiar sua história em um só instante, mesmo porque seus pais e avós lutaram para favorecer as maiorias”, acrescentou. A glasnot, a palavra-chave da Perestroika, buscava criar nas pessoas um sentimento de responsabilidade política e social, afirmou Gorbachov. “Era preciso levar a sociedade civil pela mão para que compreendesse gradualmente a fase de transição. Mas a imprensa se apressou e o fez à sua maneira, cometendo um grande erro”, afirmou o ex-presidente da União Soviética, dissolvida em 1991.
Essa foi uma clara demonstração de como a inter-relação entre os meios de comunicação, a sociedade civil e o poder podem mudar o curso da história. Em anos mais recentes, a pressão exercida pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, para invadir o Iraque em 2003 é outro caso muito revelador. Agora, o debate é sobre a aquiescência da imprensa norte-americana e de como esta não questionou as justificativas para ir à guerra, com a existência de armas de destruição em massa, que nunca foram encontradas no país invadido. O curso da história se modifica tanto pelo que a imprensa diz quanto pelo que não diz.
“Alguma coisa não anda bem hoje em dia na relação entre cidadãos e imprensa e entre estes e o poder. Agora, os cidadãos são muito céticos no que diz respeito à imprensa e o poder e não acreditam plenamente no que dizem”, afirmou o editor-chefe do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet. A perda de confiança das pessoas nos meios de comunicação se deve à pouca confiança na informação, o que é um paradoxo em uma sociedade caracterizada pela saturação de meios de comunicação, e uma contradição interna das democracias maduras, segundo os participantes do seminário, que aconteceu nos dias 23 de 24 deste mês.
Como se pode redesenhar a dinâmica entre imprensa, cidadãos e o poder? “É uma pergunta complicada. A liberdade de imprensa e de informação são uma espécie de dogma, mas as pessoas acreditam que a liberdade é uma desculpa válida para a organização democrática, e desde seu ponto de vista esta não é respeitada nem pela imprensa nem pelo poder”, concluiu Ramonet. Os maiores e mais poderosos meios de comunicação atuais se ergueram após um processo de fusão, e agora estão sendo questionados por favorecerem a rentabilidade e as expectativas de seus sócios antes de atender à responsabilidade social. Eles também fazem parte da globalização econômica e são considerados a favor do statu quo.
Por outro lado, os analistas de meios de comunicação começaram a considerar os 64 milhões de usuários de blog, com seu crescimento exponencial, como rivais dos gigantes da comunicação e como base da “guerrilha informativa”. Os blogs são sites da internet periodicamente atualizados que freqüentemente funcionam como um diário pessoal de consulta pública e costumam ser administrado por seu próprio autor. Estima-se que 17% dos jovens dos Estados Unidos têm o seu. A cada segundo nasce um novo “jornalista” com um blog, isto é uma mudança de modelo. Entretanto, este novo fluxo de informação tem suas próprias implicações, que colocam em destaque as virtudes dos meios de comunicação tradicionais.
“A força do conjunto dos que têm blog está em sua quantidade”, disse à IPS Bernard Guetta, editorialista do L’Express, da França. “Por sua quantidade esmagadora, podem ter um forte impacto na opinião pública, como ocorreu no ano passado na França, quando os cidadãos foram chamados às urnas para ratificar a Constituição da União Européia”, afirmou. Nesse caso, a carta magna européia foi rejeitada, e para isso influiu o maciço clamor expresso através dos blogs. “Mas há casos de informação completamente falsa circulando pela Internet. Isso se deve à falta de filtros. Me refiro a filtros dos próprios jornalistas e dos editores. Embora na imprensa tradicional muitas vezes esses filtros não funcionem, pelo menos existem”, acrescentou.
Existem opções que poderiam ajudar a relançar os meios de comunicação tradicionais, afirmou o editorialista do jornal britânico Financial Times, John Lloyd. “Por exemplo, considerar a cobertura jornalística como um rascunho do registro histórico. E se abster do mero desdém com os políticos, a favor de informar os cidadãos sobre as limitações específicas que os políticos devem enfrentar em seus, às vezes, sinceros esforços para servir a sociedade civil”.

