Saúde: América Latina despreparada para a gripe aviária

Havana, 14/07/2006 – O continente americano é o único livre da gripe aviária. Mas a débil vigilância epidemiológica é o calcanhar de Aquiles da América Latina e do Caribe diante da iminência de uma pandemia, alertaram parlamentares da região que propõem medidas de prevenção. Mais de 50% da proteína animal consumida na América Latina e no Caribe provêm de aves, afirma a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), enquanto sua produção de carne de ave é estimada em US$ 18,5 bilhões e a de ovos em US$ 5 bilhões, afirma a Organização Pan-Americana de Saúde.

Estes números refletem os impactos humano, econômico e alimentar que representaria para a região a chegada da gripe do frango, já presente na Ásia, África e Europa. “O mais importante é refletir se as medidas adotadas evitarão que os problemas cheguem e nos encontrem no meio do caminho”, disse o deputado uruguaio José Carlos Cardoso em um painel que analisou os riscos dessa doença, durante uma conferência do Parlamento Latino-Americano (Parlatino) sobre desastres naturais e sanitários, realizada em Havana nesta segunda e terça-feira.

O grau de capacidade regional para enfrentar a chegada da epidemia é “assimétrico”, disse à IPS Cardoso, que é presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária e Pesca do Parlatino. “Nossos países não estão preparados da mesma forma para este tipo de contingência”, embora “há um ano a região esteja submetida ao perigo” do desenvolvimento da doença. O fórum regional procura nesse período “sensibilizar os Estados” para que adotem “programas de ação completos e integrais”, não só no “campo da saúde animal, mas também da humana”.

O vírus da gripe do frango foi diagnosticado há mais de cem anos. São reconhecidas cerca de 15 cepas, das quais a H5N1 é a causadora da atual epidemia animal que afeta 56 países da Ásia, África e Europa. A cepa asiática, assim chamada porque foi isolada em 1996 na Ásia, é altamente patogênica e já contagiou humanos. Desde 2000, mais de 300 milhões de aves morreram ou foram sacrificadas por sua causa. Desde 2003 até o último dia 20, 228 pessoas contraíram a doença e 130 delas morreram, segundo a Organização Mundial da Saúde.

As migrações das aves silvestres poderiam espalhar a gripe aviária pela América Latina, embora ainda se estude se estas são reservatórios crônicos da enfermidade, segundo especialistas como Carlos Correa, vice-presidente da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). A comunidade científica da região adota programas de procedimentos para atuar tanto na área da saúde animal quanto da humana, enquanto os parlamentares propõem aos governos aumentar a prevenção diante da magnitude do perigo. “É preciso sistematizar as tarefas de controle dos países no manejo das aves”, e é imprescindível, também, fortalecer “os sistemas de pesquisa sorológica (análise de anticorpos no sangue), pois sem estes é impossível a prevenção”, disse Correa.

Além disso, é preciso “compartilhar a informação com o interior dos países e entre as nações vizinhas em função de uma mesma base de dados, algo que não temos”, afirmou. “Essa é outra questão não menos importante para os que fazem política, para os quais, às vezes, é muito difícil convencer o Poder Executivo”, acrescentou Correa. “Se o tema estiver na agenda do governo os passos futuros poderão ser adotados”, ressaltou, afirmando que “muitos países vão se deparar com o problema quando ele já estiver instalado”.

Se para a região a preocupação é quando a gripe aviária se instalará, para o mundo o medo maior se refere a quando o vírus H5N1 mutará para ser transmissível entre humanos, desatando, assim, a pandemia da enfermidade. Entre 1918 e 1919, uma epidemia da febre espanhola matou 50 milhões de pessoas. Agora, de acordo com estimativas da OMS, se ocorrer essa mutação, as vítimas humanas podem chegar a 150 milhões. Outro parlamentar uruguaio, o pediatra Javier García, disse á IPS que “pela dinâmica da doença – e que eventualmente poderia se ter a pandemia – de ultrapassar fronteiras, além dos planos de contingência nacionais deve existir uma coordenação destes” na área.

Adicionalmente será necessário “um grau de solidariedade importante com os países com menos possibilidades econômicas”, para ajudá-los a adquirir medicamentos caros. Uma das maiores fraquezas da América Latina e do Caribe está na “vigilância epidemiológica”, afirmou Francisco Arias, representante da FAO em Cuba. Arias disse à IPS que outra dificuldade evidente é que “são poucos os países com capacidade de diagnóstico rápido da doença”, um dos pilares para reagir com eficácia diante do seu surgimento.

Com a intenção de reverter a situação a FAO investe na região US$ 2,5 milhões “para fortalecer a capacidade dos serviços veterinários nacionais” que deveriam ser a primeira barreira contra a gripe aviária. García deu ênfase na conscientização entre os pequenos produtores de aves “para que denunciem de imediato a suspeita” da doença, porque os países “precisam planejar como subsidiar as perdas” desses avicultores e estimulá-los a não esconder a informação.

“Primeiro, deve-se agir em função da vida animal”, destacou Cardoso, “para se ter contenção, análises suficientes, controle da doença e que não haja zonas onde não se possa chegar ou que não se saiba o que ocorre”. O legislador propôs, entre outras medidas, “o fortalecimento dos serviços veterinários e de saúde pública, a devida articulação entre ambos e, também em nível mais avançado, dos laboratórios de diagnóstico e vigilância epidemiológica”.

Orlando Matos

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