Jornalismo: Colaborador da IPS é assassinado no Iraque

São Francisco, EUA, 14/07/2006 – O iraquiano Alaa Hassan, colaborador da IPS, foi assassinado em Bagdá quando se dirigia ao trabalho, no último dia 28. Tinha 35 anos. Deixa sua mãe, cinco irmãos e cinco irmãs e sua mulher grávida do primeiro filho. Alaa não foi morto por ser jornalista. De fato, começou há pouco tempo a colaborar com a IPS na coleta de informação. Quando homens armados o emboscaram e metralharam seu carro, foi simplesmente porque estava no lugar errado, na hora errada, em mais uma manifestação da violência que tragou o Iraque desde que foi invadido pelos Estados Unidos, em março de 2003.

No mesmo dia em que Alaa foi assassinado, a agência de notícias Reuters informava sobre outros 11 incidentes violentes nesse país, incluindo carros-bomba que mataram trabalhadores em Baquba, 50 quilômetros a nordeste de Bagdá, e comerciantes no distrito de Shia Qadamiya. Pelo menos quatro policiais e um soldado norte-americano morreram em diferentes ataques. Em Baquba, o exército dos Estados Unidos admitiu ter matado um “não-combatente” durante invasão de uma residência. A maior parte das pessoas mortas nesse 28 de junho – como as dezenas de milhares de civis iraquianos que morreram nos últimos três anos – passaram a fazer parte das estatísticas. Como conhecíamos Alaa, podemos contar sua história.

Alaa vivia na localidade de al-Tajiyyat, nordeste de Bagdá, perto do Rio Tigre, em uma das casas reservadas para empregados do Ministério da Indústria quando Saddam Hussein era presidente (1979-2003). Administrava o inventário de uma loja de artigos para escritórios na rua Matunabbi, região do famoso mercado de livros da capital iraquiana. Sua casa ficava ao lado do que havia sido uma fábrica de eletrônica, e atravessando a rua estava a antiga sede do Instituto de Estudos Árabes e Nacionais sobre Petróleo. As duas instalações foram saqueadas depois da invasão norte-americana em 2003. Mais tarde, a força ocupante as transformou em bases militares. Portanto, a vizinhança de Alaa era freqüentemente bombardeada pela resistência.

O único caminho entre sua casa e o centro de Bagdá é a ponta al-Muthana sobre o Tigre, local habitual de ataques rebeldes. Por causa de uma curva e um posto de controle policial, cada veículo que cruza a ponte deve reduzir a velocidade. Muitas vezes por semana morre gente ali. Quando Alaa cruzou a ponte, homens armados dispararam suas metralhadoras. Recebeu seis tiros. Outro passageiro ficou gravemente ferido. Nesse mesmo dia Alaa havia se queixado de precisar cruzar a ponte. Pouco antes, seu amigo Abu Laith foi morto no mesmo lugar. “Voltava para casa do trabalho e alguém apareceu e o matou”, contara Alaa.

“Sei que é perigoso sair de casa. Mas o que posso fazer? Tenho de continuar vivendo”, havia dito por telefone ao seu irmão Salam. Alaa estava sempre em perigo. “Os americanos construíram uma base em frente à minha casa, onde havia um instituto governamental, e outra ao lado, na fábrica al-Karrama”, contou ao seu irmão. “Quando saímos, os americanos estão na porta da rua. O muro de sua base está diante da casa. Já não é seguro ir até a rua principal, a meio quilômetro de distância”. Alaa Hassan nasceu perto da antiga cidade da Babilônia, no centro do país, em uma família de 11 irmãos. Sua mãe era dona de casa e seu pai empregado dos tribunais. Jovem, se mudou para os arredores de Bagdá e começou a trabalhar como programador de computadores no Ministério da Indústria.

Se casou em 2000. Durante o regime de Saddam, ninguém podia se casar (ou abrir uma loja ou um negócio) sem um atestado de boa conduta. Mas aparentemente Alaa se casou sem seguir os procedimentos. Alguém denunciou o fato e Alaa foi preso em um centro de torturas durante nove meses. “A família teve de pagar um suborno para encontrá-lo”, lembra Salam. “O tinham colocado em um armazém perto da escola de Direito. Ele apanhava nas mãos e no corpo. Tinha hematomas por toda parte”. Salam recorda que o visitou nesse lugar.

“Era um grande armazém com muitos quartos no andar superior. As torturas eram praticadas em uma área aberta para que os demais prisioneiros pudessem assistir. Finalmente, decidiram levá-lo a julgamento. Ele foi condenado a 25 anos de prisão, mas pagamos um suborno e reduziram a pena para três anos”. Alaa cumpria sua sentença na infame prisão de Abu Ghraib, entre criminosos perigosos e presos políticos. Ali permaneceu até pouco antes da invasão norte-americana, quando Saddam anunciou uma anistia geral. Alaa deixou a prisão traumatizado. Divorciou-se e voltou para a Babilônia.

Viveu com sua família até três meses depois da queda de Saddam. Então, decidiu procurar trabalho novamente. Quando um primo lhe conseguiu emprego em uma papelaria na rua Mutanabbi, voltou a Bagdá. Casou-se novamente três meses antes de morrer. Na semana passada ficou sabendo que sua mulher estava grávida. Como ocorre a muitas famílias de vítimas da violência iraquiana, a de Alaa teve dificuldades para realizar o velório e o enterro. Quando um dos irmãos telefonou foi ao necrotério de Bagdá para retirar o corpo, um empregado o alertou para não ir porque a área estava controlada por rebeldes.

Então, seus familiares e amigos se reuniram e, todos armados, caminharam até o local debaixo de fogo. Ao chegarem, tiveram de andar entre os mortos para encontrar o corpo de Alaa. Ele foi enterrado na cidade sagrada de Nayaf, centro do país. Foi uma viagem difícil, porque as estradas não são seguras. Os familiares conseguiram que milicianos do Exército Mahdi, do clérigo xiita Muqtada al-Sadr, os escoltassem na viagem e durante o funeral. A família de Alaa enfrentará o luto tradicional de 40 dias em sua casa na Babilônia. Todos seus parentes estão se mudando de Bagdá. “As conseqüências das pessoas mortas permanecerão no futuro do Iraque, pois todas têm famílias. A nova geração crescerá sem pais”, disse Salam. “Se isto continuar por mais três ou quatro anos, cada família no Iraque será afetada por esta guerra e será muito difícil a paz voltar ao país”, acrescentou.

(*) O autor e Alaa Hassan informaram sobre a crescente violência e as divisões sectárias em Basra, sul do Iraque; a respeito de graves fatos ignorados, na localidade de haditha, bombardeada pelo exército dos Estados Unidos no ano passado, e sobre as reações locais ao assassinato em junho de Abu Musab al-Zarqawi, o jordaniano que liderou a rede Al Qaeda no Iraque.

Aaron Glantz

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