Genebra, 14/07/2006 – Pesquisas feitas por especialistas da Organização das Nações Unidas encontraram indícios de transformações favoráveis verificadas nos últimos anos na disseminação mais equilibrada das tecnologias da informação e das comunicações (TIC) no mundo. Um informe apresentado nesta quarta-feira pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), no contexto da ONU, menciona a existência de “primeiros sinais animadores” na tarefa de alcançar os objetivos estabelecidos para 2015 pela Cúpula Mundial da Sociedade da Informação (CMSI).
Ocorreram progressos consideráveis na construção de uma Sociedade da Informação mais rica e mais inclusiva, na qual todos possam participar, comprovou o estudo da UIT. Outro documento semelhante, elaborado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), diz que foram percebidos sinais de que a difusão das TIC “lentamente se torna mais eqüitativa”. Essa tendência apresenta um aspecto singular para os países em desenvolvimento, porque a maior parte do crescimento observado nas TIC durante os últimos dois ou três anos se concentra precisamente nessas nações, disse à IPS o chefe da unidade de estratégia e política da UIT, Tim Kelly.
Todo o processo que cercou a CMSI, em suas duas fases, a primeira em dezembro de 2003, em Genebra, e a segunda em novembro de 2005, em Túnis, girou justamente em torno do desequilíbrio no acesso ao emprego das TIC existente no mundo. O secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi, lembrou, ao apresentar nesta quarta-feira o informe dessa organização, que ainda há cerca de um bilhão de pessoas em cerca de 800 mil localidades em todo o mundo que ainda carecem de todo tipo de comunicações.
Em uma das metas ambiciosas fixadas em Genebra para ampliar o acesso às TIC, a Cúpula propôs conectar todas as aldeias do mundo até, no máximo, 2015. Outro dos objetivos pretende estabelecer, no mesmo prazo, a conexão à Internet entre escolas, hospitais e bibliotecas do planeta. Portanto, os especialistas das duas instituições da ONU já deduzem que as duas fases da Cúpula conseguiram o êxito de elevar o grau de consciência sobre as TIC e as oportunidades surgiram.
Charles Geiger, diretor-executivo da segunda fase da CMSI, ressaltou o enfoque inovador adotado pela conferência ao outorgar responsabilidades para atingir as metas, a todas as partes envolvidas, governos, empresários, sociedade civil e organizações internacionais. No processo para a obtenção dos fins da Cúpula será avaliado periodicamente o Índice de Oportunidade Digital (IOD), um método criado pela UIT e outras organizações afins, que permite medir os avanços no acesso às TIC e o aproveitamento das possibilidades que oferecem. O índice varia de zero, equivalente a acesso nulo às tecnologias e a todo recurso semelhante, a um, que representaria o caso ideal de um acesso perfeito.
Nessa escala, o primeiro lugar corresponde atualmente à Coréia do Sul, com índice de 0,79. As cinco primeiras posições da categoria são ocupadas, atrás da Coréia, por duas economias representantes da região Ásia/Pacífico, Japão e Hong Kong, seguidas por duas européias, Dinamarca e Islândia. Depois figuram países previsíveis, como Noruega e Suécia, embora haja surpresas, pois entre os 20 primeiros também estão Estônia e Eslovênia. Kelly atribuiu a presença destes dois últimos países ao compromisso assumido por seus governos na política de expansão das TIC.
A esse respeito e com relação ao papel dos Estados nessa ramo da economia, Supachai disse que a Unctad havia acreditado que a brecha digital se fecharia através de políticas nacionais sobre as TIC incluindo participação, competição e regularização eficaz do setor privado. E reconheceu que, embora tais políticas tenham ajudado a reduzir levemente a brecha digital em determinadas áreas, ela persiste, especialmente nos países menos avançados. A competição pura não existe nas telecomunicações e o duopólio (domínio do mercado por apenas duas empresas) é comum, acrescentou Supachai. Muitas regiões dos países menos avançados e do mundo em desenvolvimento carecem de serviços ou existe apenas um provedor das TIC, prosseguiu.
Kelly relativizou a importância do índice obtido pelos países nesse aspecto, pois é mais importante que o progresso aconteça durante um período prolongado. Por exemplo, alguns dos avanços mais significativos foram atingidos dessa forma por Índia e China. Durante o período 2000/2005, o índice da Índia no IOD aumentou 73% e o da China 48%. No caso indiano, cada mês aumenta em cerca de dois milhões o número de conectados às telecomunicações móveis. Na China, os novos clientes somam entre três milhões e quatro milhões mensais, lembrou Kelly.
Mas também outros países em desenvolvimento, como na África subsaariana e na América Latina estão se comportando muito melhor. Portanto, “penso que a maior parte do futuro crescimento do mercado das TIC se verificará nos países em desenvolvimento, disse à IPS o especialista da UIT. Os maiores desafios enfrentados pelos países em desenvolvimento nesse terreno são, primeiro, a extensão do acesso a todos os cidadãos. Depois, devem garantir que a prestação desses serviços seja econômica e fornecer o mesmo nível de segurança que, “talvez, disponhamos no Ocidente nas economias desenvolvidas”. Os dois informes, da UIT e da Unctad, serão examinados durante as sessões que o Conselho Econômico e Social (Ecosoc) da ONU realiza este mês em Genebra.

