Alemanha: Futebol para deficientes visuais

Düsseldorf, Alemanha, 14/07/2006 – Os deficientes visuais podem assistir aos jogos de futebol? A resposta óbvia é não. Entretanto, algo bastante parecido acontece nos estádios alemães. Pela primeira vez em uma Copa do Mundo estes deficientes contam com a possibilidade de presenciar as partidas e, de maneira paralela, ouvir o relato especializado do jogo. Não se trata de um relato semelhante ao que é feito pelas emissoras de rádio, mas de uma transmissão concebida especificamente para este grupo de pessoas. A descrição detalhada do que ocorre em campo, a posição da bola e dos jogadores de uma e outra equipe constituem os eixos do relato. Além disso, estatísticas e informações adicionais são fornecidas quando o jogo está interrompido. O relato chega a cada deficiente através de fones de ouvido com uma única saída de áudio, permitindo que pelo outro ouvido possam escutar o som ambiente do estádio.

“Me senti perto da bola e pude imaginar a partida”, disse à IPS Nina Schweppe, principal incentivadora da iniciativa e co-fundadora da organização não-governamental Sehhund, que reúne os torcedores de futebol deficientes visuais da Alemanha. “Assim, podemos estar bem informados e reagir como os outros espectadores ao que ocorre em campo. Esta é uma grande mudança, agora estamos realmente integrados com os demais torcedores. É realmente maravilhoso”, acrescentou Schweppe, de 35 anos, cega de nascimento e seguidora entusiasta do futebol desde pequena. A transmissão fica a cargo, geralmente, de estudantes de jornalismo esportivo que fazem essa tarefa como estágio de trabalho, e em troca assistem as partidas ao vivo e de um lugar privilegiado.

O sistema, único no mundo, está sendo utilizado com sucesso nos jogos da primeira divisão do futebol alemão, cujas instituições, em sua maioria, já dispõem do serviço. Dos 82 milhões de habitantes da Alemanha, 650 mil são cegos ou possuem alguma deficiência visual. A iniciativa apóia a autonomia deste grupo, já que lhe permite ir ao estádio sem depender da companhia de alguém que conheça futebol e que lhes descreva de maneira imediata o que ocorre dentro de campo. O clube Bayer Leverkusen foi o primeiro a oferecer este serviço, em 1999.

“Inicialmente era difícil imaginar como seria o funcionamento. Mas fazê-lo valeu a pena”, disse à IPS Andréas Paffrath, encarregado das relações com os simpatizantes deste clube. “Estes torcedores simplesmente vêem com os ouvidos”, afirmou. O sistema foi aplicado nos 12 estádios que receberam jogos da Copa do Mundo e em cada uma das 64 partidas do Mundial, que começou em 9 de junho e terminou no domingo. Em cada um deles foram reservados 10 locais para cegos, deficientes visuais e seus acompanhantes.

“Nosso objetivo foi muito claro: que todos tivessem a possibilidade de estar no Mundial. Já tínhamos a experiência da Bundesliga (liga alemã de futebol) que foi muito bem recebida, assim decidimos que deveríamos oferecer o serviço na Copa do Mundo”, disse à IPS Stefan Eiermann, porta-voz de imprensa do Comitê Organizador do Mundial. “Estamos orgulhosos de sermos os primeiros a organizar uma Copa do Mundo com esta característica”, afirmou. O sistema foi oferecido em alemão em todos os jogos e também em inglês nas partidas da seleção da Inglaterra.

O custo do ingresso para os deficientes visuais foi equivalente ao preço da entrada mais barata do torneio, isto é 35 euros (cerca de US$ 45) para os jogos da primeira fase, e 120 euros (cerca de US$ 150) para a final entre Itália e França. O serviço não representa nenhum custo extra e os acompanhantes têm entrada livre. Além disso, para facilitar a compra direta de ingressos pelos deficientes visuais foi disponibilizada a venda por telefone e se descartou a venda via Internet, vigente nos demais casos.

A ONG Sehhund assessorou a implementação do sistema. “Sabemos por comentários e por experiência própria que o sistema funciona muito bem”, disse à IPS Regine Hillmann, co-fundadora e diretora da associação, que esteve presente em cinco jogos do Mundial. “Foi lindo estar lá, pude ver equipes e jogadores que nunca vejo. E, ainda, viver todo esse clima com tantos torcedores de outros países. Foi lindo”, disse Hillman, para quem sua deficiência visual severa não foi obstáculo para desfrutar da festa do futebol.

“Nosso sonho é que algum dia estes lugares (reservados e equipados com fones de ouvido) estejam disponíveis em todos os estádios, assim como hoje há lugares reservados para quem usa cadeira de rodas. Que se transformem em uma regra geral”, acrescentou sua colega Nina Schweppe. “Além de tudo, trata-se de uma iniciativa que promove a integração entre as pessoas que vêem e as que não pode ver. Afinal, o futebol é um hobby que todos temos por igual”, acrescentou.

Maricel Drazer

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