Buenos Aires, 14/07/2006 – Apoiado por designers, um grupo de coletores informais de lixo da capital argentina criou um projeto para criar e produzir móveis e objetos a partir do lixo. Este programa permite que tenham acesso a um trabalho digno, ao mesmo tempo em que os tira da rua e da marginalidade. “Formou-se um bonito grupo. Agora somos seres humanos. Viemos trabalhar, temos nossas responsabilidades. É um trabalho digno”, afirma à IPS Cristina Lescano, coordenadora do grupo de catadores e uma das protagonistas deste fenômeno cultural que luta para manter-se em atividade.
A idéia de transformar lixo em objetos artesanais ou industriais não é nova. Outros grupos de catadores de lixo, junto com intelectuais ou profissionais, iniciaram uma editora de livros feitos à mão com papel reciclado. Lescano, que completou o curso secundário, trabalhava como empregada administrativa no Conselho Deliberativo da capital, até ser despedida em 1997. Com três filhos e sem outra opção, se tornou uma “ciruja”, termo comum para o indigente que vive de “revolver os sacos de lixo”, com ela mesma diz.
O projeto “Produção Ciruja” conta com 20 coletores informais que fazem parte da Cooperativa El Ceibo de recuperação de lixo, criada há 12 anos, que conta com um programa conhecido oficialmente de separação de lixo na origem e depósito, tanto para a classificação quanto para a venda. Neste projeto, a capacitação e vinculação com o mercado estão a cargo das designers industriais Ángeles Estrada, Victoria Díaz e Natalia Hojean e da arquiteta Mercedes Frassia. O grupo fabrica mesas de centro e bancos de papelão, toalhas individuais de mesa com tubos de sifão e copos a partir de garrafas.
Os produtos decoram um salão do bar “El Apile”, da arquiteta Frassia, localizado no histórico bairro de San Telmo, um dos mais antigos emblemáticos da cidade. “O objetivo é agregar valor ao objeto recuperado, melhorar a qualidade de vida dos que vivem da coleta de lixo, mas também criar objetos bonitos, que tornem terapêutica a atividade e permitam que as pessoas possam estar menos na rua”, explica à IPS. Frassia assegura que uma garrafa de vidro recuperada, que poderia ser vendida a 10 centavos de peso como lixo reciclável, pode se transformar em um copo que se vende no mercado por um peso (US$ 0,30), ou seja, 10 vezes mais.
Além de ganhar dinheiro, o projeto permite aos catadores ganhar experiência em um novo ofício. “Isto é fundamental para os “velhos cirujas”, isto é, os que têm mais de 45 anos e saúde muito deteriorada de tanto viver nas ruas puxando um carrinho debaixo de chuva, no frio ou calor forte. Este grupo já não pode “cirujear” (coletar lixo), mas pode trabalhar na cooperativa”, acrescentou. O programa começou em abril deste ano, e o lançamento dos primeiros objetos foi em junho. A etapa seguinte é conseguir financiamento para mais seis meses, até que o projeto seja auto-sustentável e, inclusive, não necessite do apoio permanente das profissionais.
Os planos são continuar trabalhando intensamente na oficina e vincular o projeto com espaços de comercialização deste tipo de objetos, como as feiras que são organizadas no Centro Metropolitano de Designer e no Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires. “Isto é um caminho. Podem aderir mais pessoas à oficina, mais profissionais que queiram contribuir com idéias e, inclusive, poderiam juntar-se professores de designer da universidade pública. Mas enquanto isso não acontece, precisamos garantir um fundo mínimo para continuar”, explicou a arquiteta.
Para que possam se capacitar, os catadores precisam contar com 15 pesos por dia (cerca de US$ 5,00) que obteriam se saíssem todo o dia, ou toda noite, em busca de lixo reciclável. A isso se soma o custo dos insumos de produção. “Sabemos que é difícil, mas isto é a nossa vida agora e vamos continuar”, afirmou Lescano. “Com ou sem dinheiro, todos concordamos que o projeto deve ser mantido e continue criando novos postos de trabalho”, conclui uma confiante Frassia.

