Jerusalém, 21/08/2006 – A intervenção internacional se apresenta como uma das melhores opções para deter a espiral de violência que tem com protagonistas Israel e o libanês Partido de Deus (Hezbollah). A primeira iniciativa – e, certamente, não a última – foi feita segunda-feira pelo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, e consiste no envio de uma força internacional para o sul do Líbano. Blair disse, na cúpula do G-8, concluída na segunda-feira na cidade russa de São Petersbugo, que esse é o único modo de acabar com a crise. “A dura realidade é que esta violência não acabará, a menos que criemos as condições para que cesse. A única maneira é enviar forças internacionais que detenham o bombardeiro para Israel”, afirmou Blair.
Enquanto a União Européia colocou todo seu peso político em favor da iniciativa, os Estados Unidos, que apóiam com força a ofensiva israelense no Líbano, mostrou pouco entusiasmo. Por sua vez, o governo de Ehud Olmert se apressou em rechaçá-la. Funcionários israelenses consideraram que é muito cedo para pensar nisso, e acrescentaram em seguida que a única força que aceitariam no sul do Líbano, reduto do Hezbollah, é o próprio exército libanês. Olmert confirmou essa posição na terça-feira, quando afirmou que os “titulares” da iniciativa “sonham bem”, mas acrescentando que a experiência israelense demonstra que “a idéia carece de toda base. Quero ser cauteloso a respeito. Me parece muito cedo para discutir esse assunto”, acrescentou.
Funcionários israelenses acreditam que com um Hezbollah suficientemente debilitado, o exército libanês poderá exercer seu controle no sul do país. Também expressaram preocupação de que o envio de uma força internacional seja vista como uma concessão, com soldados e outros países colocando suas vidas em risco para proteger Israel. Em sua primeira intervenção pública desde o início da troca de disparos de artilharia, Olmert mencionou as condições israelenses para o fim do cessar fogo, entre elas o desarmamento do Hezbollah e o envio do exército libanês para a fronteira, já estabelecido pela resolução 1.559 do Conselho de Segurança da ONU. Também exigiu a libertação dos dois soldados israelenses seqüestrados pela milícia islâmica em um ataque contra uma patrulha de fronteira na semana passada, que deixou oito militares mortos.
“Nossos inimigos desafiaram a soberania do Estado de Israel e a paz de seus cidadãos, primeiro no sul e, depois, na fronteira setentrional e mais dentro do território”, disse Olmert aos legisladores no Knesset (parlamento). “Nossos inimigos se equivocaram ao pensar que nossa disposição de nos conter era um sinal de fraqueza”, acrescentou. De todo modo, ao procurar dominar o Hezbollah por meio de bombardeios Israel pode criar no Líbano uma situação que afetaria seus objetivos. A crescente quantidade de baixas civis – mais de 200 libaneses morreram nos bombardeios israelenses – podem levar a população desse país de maioria muçulmana a apoiar o Hezbollah e enfraquecer o novo governo.
Mas o governo israelense insiste que não aceitará a situação pré-existente na fronteira setentrional às vésperas da troca de fogo, quando combatentes do Hezbollah tomaram posições e o Irã e a Síria forneceram milhares de mísseis de longo alcance à essa organização com total liberdade. O jornal israelense Haarez informou na terça-feira que o governo de Olmert exigirá um processo de desarmamento que impeça o Hezbollah de recuperar sua capacidade militar uma vez terminado o conflito. O ministro da Defesa de Israel, Amir Peretz, líder do centro-esquerdista Partido Trabalhista, disse na segunda-feira que o exército acondicionava uma faixa de terreno de um quilômetro de largura do lado libanês da fronteira para impedir a aproximação dos combatentes islâmicos.
Porém, os próprios líderes políticos israelenses, que temem que a organização xiita aproveite um cessar-fogo para se rearmar, não acreditam que uma faixa tão estreita seja suficiente. Isso não impedirá o Hezbollah de disparar mísseis de longo alcance e foguetes Katyusha desde outras áreas do território libanês. “Israel não aceitará viver à sombra da ameaça com mísseis contra seus cidadãos”, advertiu Olmert. Doze civis israelenses morreram e mais de cem ficaram feridos nos ataques do Hezbollah. O pior golpe aconteceu no domingo, no porto de Haifa, terceira cidade de Israel, com 270 mil habitantes, e no qual a organização usou, pela primeira vez, mísseis de longo alcance.
Oito trabalhadores em um edifício da companhia ferroviária morreram quando um foguete de fabricação Síria atravessou o teto. O Hezbollah disparou mil foguetes desde o início do conflito, alguns dos quais atingiram cidades ao sul de Haifa, a cerca de 50 quilômetros da fronteira. Especialistas militares alertaram que os foguetes iranianos Zilzal podem alcançar Telavive, e até mais ao sul, e que vários desses projéteis foram destruídos no bombardeio israelense contra Beirute. Porém esses mesmos especialistas acreditam que o Hezbollah possui milhares de foguetes. A metade deste arsenal foi destruída pelos bombardeios, asseguram.
Com o auge das gestões diplomáticas, porta-vozes do governo acreditam que logo terminará o bombardeio no Líbano. Os Estados Unidos deram um forte apoio ao governo de Olmert, mas o presidente George W. Bush não poderá ignorar por muito tempo a pressão da Europa. Segundo os funcionários do governo israelense, o bombardeio concluirá até o final da semana. A operação goza de grande apoio do público israelense, e conseguiu uma pouco habitual unanimidade judia no rachado Knesset. A exceção fica com os legisladores árabes.
Inclusive, Yossi Beilin, arquiteto dos acordos de paz de Oslo que deram lugar, em 1992, às negociações diretas entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), deu seu apoio à ofensiva militar. “Nos retiramos do último centímetro” do sul do Líbano em 2000, área ocupada por Israel durante 15 anos, “e o Hezbollah se armou”, afirmou o dirigente. Mas o próprio Beilin alertou que Israel não poderá conseguir seus objetivos no Líbano somente pela via militar. “Devemos negociar um cessar-fogo através de um terceiro”, propôs. “Isso não significa que devemos deter a operação, mas temos de alcançar os objetivos: a libertação dos soldados e o afastamento do Hezbollah da fronteira”, afirmou Beilin.

