A mãe de todas crises humanitárias

Mulher caminha com seus dois filhos ao lado dos trilhos do trem, em meio à neblina em Idomeni, na Grécia, em março de 2016. Foto: ©UNICEF/UN012794/Georgie

Mulher caminha com seus dois filhos ao lado dos trilhos do trem, em meio à neblina em Idomeni, na Grécia, em março de 2016. Foto: ©UNICEF/UN012794/Georgie

Por BaherKamal, da IPS – 

Mascate, Omã, 17/5/2016 – Os inúmeros delegados do Oriente Médio que participaram, em março de 2015, de uma reunião em Amã, na Jordânia, para preparar a Cúpula Humanitária Mundial (CHM), que acontece este mês na cidade turca de Istambul, seguramente se deram conta de que sua região era, e ainda é, “a mãe de todas as crises humanitárias”.Só para lembrar, a Organização das Nações Unidas (ONU) destacou: “A vida de milhões de pessoas, da Líbia à Palestina, do Iêmen à Síria e ao Iraque, ficaram destruídas pela violência”.

Além disso, a ONU apontou que o enorme número de pessoas afetadas pelos conflitos, pela violência e pelo deslocamento pouco fizeram para serem vítimas do verdadeiro trauma experimentado.E informou que atualmente “há mais pessoas deslocadas por conflitos do que em qualquer outro momento desde 1945”. Os dados não deixam dúvidas: 60 milhões de pessoas deslocadas, seja dentro ou fora de seus países, em todo o mundo.

Entre elas:

– cinco milhões de palestinos ainda dispersos, principalmente em países vizinhos como Líbano, Síria e Jordânia, segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (Unrwa);

– um milhão e meio de pessoas estão sitiadas no território palestino de Gazae sofrem uma crise humanitária permanente;

– quatro milhões de civis sírios fugiram da guerra,convertendo-se em refugiados que buscam proteção na região e na Europa como consequência imediata dos cinco anos de conflito na Síria, segundo estimativa do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur);

– um milhão de sírios tiveram que abandonar suas casas e buscar segurança em outras partes de seu país, de acordo com a ONU;

– um milhão de pessoas na Líbia sofrem os incontroláveis enfrentamentos armados em seu próprio e instável país. “A informação procedente da Líbia é alarmante em relação à ocorrência de graves atos que poderiam constituir crimes de guerra”, denunciou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, no dia 6 de março deste ano;

– cinco milhões de pessoas tiveram que abandonar suas casas em busca de refúgio dentro de seu próprio país ou no exterior;

– em julho de 2015, uma alta funcionária da ONU no Iraque qualificou de “devastador” o fechamento de serviços vitais nesse país para as pessoas mais necessitadas, e ressaltou que o fato terá impacto direto em mais de um milhão de pessoas, entre elas 500 crianças que não serão imunizadas, o que implica o risco de focos de sarampo e poliomielite;

– um milhão de refugiados sírios residem no Líbano. A ONU informou, há seis meses, que cerca de 70% deles vivem em condições de extrema pobreza;

– dois milhões de civis no Iêmen fugiram para a Somália, outro Estado assolado pela guerra há tempos, devido ao conflito atual em seu país.Mais de 15,2 milhões de pessoas no Iêmen carecem de acesso a serviços de saúde, bem acima da metade de seus 25 milhões de habitantes e, no entanto, faltam 55% dos fundos internacionais solicitados para enfrentar esta crise, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A cada dois segundos, um menino ou uma menina respira pela primeira vez em uma zona de conflito. Foto: ©UNICEF/UN012794/Georgie

A cada dois segundos, um menino ou uma menina respira pela primeira vez em uma zona de conflito. Foto: ©UNICEF/UN012794/Georgie

Em outras palavras, o Oriente Médio é o lar ou o lugar de procedência de uma em cada três pessoas refugiadas ou deslocadas no mundo. Os dados anteriores se referem à região “tradicionalmente” conhecida como Oriente Médio, constituída por 22 nações árabes e Israel.Mas os números são maiores se contemplarem o “grande Oriente Médio” e forem acrescentados os conflitos armados no Afeganistão e no Paquistão.

Nesse caso, a região estendida será o lar ou lugar de procedência de dez milhões de refugiados ou deslocados, quase metade de todas as pessoas que estão nessa situação no mundo. No entanto, não só guerras e violência afetam o Oriente Médio, mas também os desastres naturais que causam mais danos, duram mais e, em muitos casos, ocorrem antes que as pessoas possam se recuperar do anterior, segundo a ONU.

O que também converte o Oriente Médio na “mãe das crises humanitárias”são outros fatos dramáticos, como:

– a região corre o risco de ficar inabitável pelas consequências negativas da mudança climática;

– dois em cada três países árabes já sofrem uma grave escassez hídrica, e a terça parte restante é considerada insegura no tocante à disponibilidade de água;

– a ONU prognosticou um déficit hídrico de 40% até 2030. O Oriente Médio é uma das regiões onde o impacto será maior.

Definitivamente, uma região inteira de quase 400 milhões de pessoas já sofre desastres derivados da ação humana, sejam guerras ou outros tipos de violência ou, simplesmente, a resposta prevista da natureza.

A CHM, que acontecerá nos dais 23 e 24 deste mês em Istambul, na Turquia, se concentrará em cinco áreas estratégicas: prevenir e acabar com os conflitos, respeitar as leis da guerra, não deixar ninguém para trás, trabalhar de outra maneira para acabar com as necessidades e investir na humanidade.Ao anunciar a realização da Cúpula, altos funcionários da ONU, encabeçados por Ban Ki-moon, alertaram reiteradamente que o mundo sofre a pior crise humanitária em mais de 70 anos.

Em uma coluna para a IPS, o porta-voz da cúpula, HervéVerhoosel, escreveu: “Chegamos a um ponto sem retorno. O mundo é testemunha do maior grau de necessidade humanitária desde a Segunda Guerra Mundial” (1939-1945).E acrescentou que “a catástrofe humana é de escala titânica. Cerca de 125 milhões de pessoas têm extrema necessidade de ajuda, mais de 60 milhões foram deslocadas pela força, e houve 218 milhões afetados por desastres naturais ao ano nos últimos 20 anos”.

Esses dados equivalem a 400 milhões de vítimas, aproximadamente 80% da população europeia. Além disso, Verhooselenfatizou que são necessários mais de US$ 20 bilhões para ajudar os 37 países atualmente afetados por desastres e conflitos.“A menos que sejam tomadas medidas imediatas, 62% da população mundial, quase dois em cada três de nós, poderá viver em 2030 no que se considera situação frágil. Uma e outra vez ouvimos que nosso mundo chegou a um ponto de inflexão. Atualmente, essas palavras são mais certas do que nunca”, pontuou.

A situação nos golpeou de perto, ressaltou Verhoosel. “Lentamente compreendemos que nenhum de nós está imune à reação em cadeia dos conflitos armados e dos desastres naturais. Nos chocamos cara a cara com os refugiados dos países assolados pela guerra e experimentamos na própria carne as consequências do aquecimento global em nosso próprio território”, observou. “Vemos,vivemos e não podemos negá-las”, destacou. Envolverde/IPS

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