Londres, 09/10/2006 – As forças da coalizão entraram sem dificuldades no Afeganistão em 2001, mas, agora não podem sair do pântano que criaram com suas péssimas políticas de desenvolvimento e diante do ressurgimento do movimento islâmico Talibã, que se afirma a cada ia. Efetivos da coalizão dirigida pelos Estados Unidos, e cada vez mais pela Grã-Bretanha, sofrem crescentes ataques. Um dos mais audazes foi cometido na semana passada perto da embaixada norte-americana em Cabul, no qual morreram vários soldados e civis, apesar de se tratar de uma das zonas mais seguras da capital. Nas ultimas semanas, o exercito britânico sofreu um grande número de baixas em seu contingente no sul do país após um acordo com os Estados Unidos, que insistiram em dividir as posições mais perigosas.
A coalizão internacional que realiza a Operação Liberdade Duradoura no Afeganistão, também tem apoio de 27 países e está integrada por 19 mil soldados, principalmente norte-americanos e britânicos, mas, também da Dinamarca, França e Canadá. Além disso, foram reunidos efetivos de 26 países que formam a Força Internacional de Assistência em Segurança (ISAF), que agora assumiu o controle do sul. O contingente logo estará composto por 17 mil soldados. O Afeganistão sofre hoje uma grande onda de violência, sobretudo nas províncias de Helmand e Kandahar.
O centro acadêmico independente Senlis Council, que analisa o impacto das políticas de drogas, especialmente no Afeganistão, informou na semana passada que o Talibã controla a metade do sul do país, hoje em dia. o informe critica os programas de erradicação forçada da papoula, matéria-prima do ópio, da morfina e da heroína, porque deixam a população sem sustento, que se volta ao Talibã. O trabalho também indica que as más políticas de desenvolvimento fortalecem o movimento islâmico no sul, já que se concentram principalmente em Cabul, em gasto com defesa e em medidas de segurança.
A crescente instabilidade sugere grandes dificuldades para os efetivos da coalizão e para os governos que decidiram enviá-los.l a dúvida agora é até quando poderão suportar a escalada de violência. “A resposta depende de a comunidade internacional ter, ou não, resistência, e do compromisso a seguir apoiando o governo afegão em seus esforços para garantir a segurança e a reconstrução”, disse à IPS Christopher langton, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres.
“Se resistir, e esperamos que o faça, então haverá possibilidades de a insurgência morrera na medida em que a população afegão ver os benefícios da recente prosperidade”, acrescentou. Recente prosperidade? O que a maioria dos afegãos vêem é pobreza. O diretor-executivo do Council Senlis, Emmanual Reinert, disse à IPS que se pode ver, “quase todos os dias, crianças morrendo por desnutrição” nos acampamentos de refugiados em torno da cidade de Kandahar. O movimento Talibã se aproveitou da situação, afirmou.
“Os talibãs utilizaram tudo isto para dizer: quando estávamos ali, talvez, fôssemos mais duros e cruéis, mas vocês podiam alimentar suas famílias. Agoram vejam o que acontece. O movimento dá cada vez mais apoio e serviços sociais à população local”, acrescentou. As forças da coalizão estão concentradas na opção militar para lidar com o que é principalmente um problema de desenvolvimento. a mão dura não conseguiu reduzir o cultivo de ópio. De fato, este aumentou de forma alarmante. Várias versões surgiram de que os talibãs estariam promovendo sua plantação, enquanto os agricultores pobres sofrem.
Um estudo da Organização das Nações Unidas revela aumento de 59% nas plantações de ópio, alcançando este ano 165 mil hectares. “As armas do Talibã são financiadas com dinheiro ensangüentado e por insurgentes que participam ativamente do comércio”, afirmou na terça-feira, em Bruxelas, o diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o crime, Antonio Maria Costa. A ONU teme que a enorme colheita esteja contribuindo para impulsionar a insurgência talibã no sul.
“Peço às forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que destruam os laboratórios de heroína, fechem os mercados de ópio, ataquem os comboios que transportam o produto e entreguem os grandes traficantes à justiça. Convido as nações da coalizão a darem o mandato e os recursos necessários a essa organização”, afirmou Costa. A erradicação forçada da papoula imposta aos agricultores tem como objetivo cortar a fonte de heroína para o Ocidente. O Senlis Council afirma que é uma medida muito precipitada e que poderia ser permitido o cultivo, mas, de forma controlada. Além disso, as colheitas poderiam ser utilizadas para a produção de morfina e codeína, que escasseiam no mundo.
“Os talibãs utilizam isto para dizer aos agricultores, podemos protegê-los se unirem-se a nós, e, portanto, proteger seu sustento”, disse Langton. “E esta é a questão. Como substituir seu meio de vida? Substitui-se o cultivo, mas, é muito difícil de desenvolver, ou se subsitui por uma atividade de outro tipo, poderiam diversificar as atividades das comunidades agrícolas no Afeganistão”, acrescentou. Se as forças da coalizão e o governo do Afeganistão querem ter sucesso, terão de desenvolver novas formas de sustento para os agricultores. “Os talibãs contam com o apoio da população, aldeões, velhos etc. se partirem, não irão nos apoiar mais”, disse Langton.
Mas, quase não se apresenta alternativas para os agricultores afetados, nem são uma prioridade. Os efetivos da coalizão que há mais de quatro anos expulsaram os talibãs só fomentaram seu renascimento. “Creio que renascer não seja a palavra mais adequadao, porque eles nunca partiram em 2001”, disse Langton. “Se retiraram para seus refúgios. Assim, não reviveram. Eu diria que ressurgiram em certas zonas estratégicas”, afirmou. (IPS/Envolverde)

