Washington, 09/10/2006 – Dois anos antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos, o ex-congressista e pensador conservador Newt Gingrich tenta desesperadamente atrair a atenção nacional prometendo ser ainda mais duro do que George W. Bush diante do que chama de “terceira guerra mundial”. No último de uma série de discursos, feito esta semana no neoconservador American Enterprise Institute (AEI), exortou para que se “apague as forças do (movimento islâmico afegão) Talibã” da zona paquistanesa do Waziristão, se Islamabad não conseguir fazê-lo. Também reclamou da administração Bush “que dê todos os passos necessários” para obrigar Irã, Síria e Arábia Saudita a deterem o fluxo de armas, dinheiro e pessoas para o Iraque. Além disso, pediu “que sejam organizados grupos dissidentes no Irã” para substituir o regime e, em caso de falha, “utilizar a força militar”.
Gingrich também pediu que se “acabe” com o regime militar da Coréia do Norte se este país enviar material ou armas nucleares para qualquer outra nação. O ex-presidente da Câmara de Representantes insistiu que o Congresso deve aprovar uma legislação “que reconheça que estamos entrando em uma terceira guerra mundial e que deixe claro que os Estados Unidos usarão todos os recursos para derrotar seus inimigos. Não se acomodar nem compreende, nem negociar com eles, mas, derrotá-los”. Estas declarações, que receberam critica favorável no semanário conservador Weekly Standar, foram feitas quando parece começar a corrida presidencial para 2008, na qual já estão, além de Gingrich, os senadores John McCain e George Allen; o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani; o líder da maioria no Senado, Bill Frist, e o governador de Massacnusetts, Mitt Romney.
Destes, McCain, derrotado por Bush nas primarias de 2000 dentro do Partido Republicano, é o mais popular, junto com Giuliani. Entretanto, suas atitudes um tanto dissidentes, como seu apoio à redução das emissões de gases causadores do efeito estufa e seus esforços para proibir a tortura contra suspeitos de terrorismo, criou tensões com a ala mais direitista do partido. Segundo as últimas pesquisas, Gingrich, a quem se atribui a esmagadora vitória eleitoral de 1994 que garantiu aos republicanos o controle das duas Casas do Congresso pela primeira vez em 40 anos, está em terceiro lugar nas pesquisas, atrás de Giuliani e McCain.
O líder conservador ganha cada vez mais apoio entre os republicanos, que parecem ter esquecido as controvérsias que causou nos quatro anos em que foi presidente da Câmara de Representantes. Depois de assumir a responsabilidade pelos fracassos legislativos de seu partido em 1998, Gingrich renunciou ao seu cargo mas permaneceu ativo na política como conselheiro do AEI e da pró-israelense Fundação para a Defesa das Democracias, e, ainda, membro da Junta de Políticas de Defesa do Pentágono. Em todos estes postos se destacou como um líder dos “falcões” (ala mais belicista do governo), encabeçados pelo vice-presidente Dick Cheney, e como um constante crítico do Departamento de Estado, o qual acusa de trair a agenda de Bush.
De fato, em meados de abril de 2003, apenas uma semana depois que as forças norte-americanas consolidaram o controle de Bagdá após a invasão, Gingrich fez um discurso no qual acusou a chancelaria de solapar a vitória militar ao apoiar o diálogo com a Síria para reiniciar o processo de paz no Oriente Médio. Estas afirmações, também feitas na AEI, motivaram uma memorável resposta do então subsecretario de Estado, Richard Armitage, que disse ao jornal USA Today: “Está claro que o senhor Gingrich está fora de suas faculdades e precisa de uma terapia”. Em seu último discurso, Gingrich disse que a visita este mês aos Estados Unidos do ex-presidente iraniano Mohammad Khatami (1997-2005) era algo como nos anos 30 convidar o chefe de propaganda do regime nazista, Josef Goebbels.
Apesar de elogiar Bush por sua “coragem e determinação na guerra contra o terrorismo”, implicitamente criticou o presidente por não perceber a emergência de uma “coalizão antinorte-americana” integrada pela rede terrorista Al Qaeda, Síria, Irã, o palestino Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), o Talibã, Arábia Saudita e Venezuela. “As estratégias de Bush não estão ruins, mas, estão fracassando”, em parte porque “não identificam a escala da emergente terceira guerra mundial, entre Ocidente e as forças do Islã, e por isso não compreendem o quanto é grande o desafio nem como deve ser forte o esforço”, afirmou.
Gingrich propôs uma série de medidas para conter a ameaça, começando por “ganhar absoluto controle das fronteiras”, aumentar o orçamento militar e de inteligência e desenvolver “uma política estratégica de energia explicitamente destinada a fazer com que o Golfo Pérsico e as ditaduras sejam menos ricas e menos importantes”. Para o Iraque, Gingrich propôs “revitalizar” a economia com a participação das corporações norte-americanas e criando uma nova agência de ajuda ao desenvolvimento capaz de ampliar programas de obras públicas, além de melhorar a segurança duplicando o número de soldados dentro do exercito e de policiais locais. Também destacou a importância de advertir a Síria e a Arábia Saudita para que não interfiram no Iraque.
Além disso, Gingrich exortou que se trabalhe, mesmo com a possibilidade do uso da força, pela mudança de regime no Irã, o qual qualificou de “ditadura dedicada ao fascismo islâmico” e de “mortal ameaça” à “sobrevivência” norte-americana. “A estratégia é não conceder mais vistos para líderes iranianos” e promover sanções por parte do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas contra o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad por “ameaçar apagar Israel da face da Terra. Se não pararmos este incentivador de genocídios e que nega o Holocausto judeu, publicamente autodeclarado inimigo dos Estados Unidos, quem mais o fará?”, perguntou. (IPS/Envolverde)

