50 anos de fracasso da ONU

Por Thalif Deen, da IPS – 

Nações Unidas, 16/12/2016 – No próximo ano completará 50 anos um dos conflitos não resolvidos mais longos da história da Organização das Nações Unidas (ONU): o conflito palestino-israelense, que remonta à Guerra dos Seis Dias, de junho de 1967. Quando António Guterres assumir o cargo de secretário-geral da ONU, em 1º de janeiro, herdará uma série de conflitos políticos e militares, como a guerra da Síria, que já dura seis anos, os devastadores bombardeios no Iêmen e os enfrentamentos mortais entre xiitas e sunitas no Iraque.

Também vai herdar o caos político na Líbia, a renovada violência na República Centro-Africana, as contínuas atrocidades que ocorrem na província sudanesa de Darfur e no Sudão do Sul, além do aumento dos atentados terroristas. Mas um dos problemas mais esquivos, que pede aos gritos uma solução após meio século de negociações e resoluções não implantadas do Conselho de Segurança, será a concretização da reclamação de um território para os palestinos.

“Precisamos redobrar a diplomacia para conseguir a paz quando vemos a multiplicação de novos conflitos, e os velhos que parecem não acabar nunca”, declarou Guterres no dia 12 deste mês. O conflito palestino-israelense não dá sinais de acabar em seus 50 anos de história.

Mouin Rabbani, do Instituto de Estudos Palestinos e colaborador editorial do Middle East Report, além de pesquisador associado do Conselho Europeu sobre Relações Estrangeiras e assessor da Al Shabaka, Rede de Política Palestina, opinou à IPS que, “quando a ONU comemora 50 anos da ocupação de Israel, temos que reconhecer que o fórum mundial é, em muitos aspectos, uma sombra da organização que era em 1947, quando a Assembleia Geral adotou a recomendação para divisão da Palestina, ou em 1967, quando começou a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza”.

Qualquer capacidade que pudesse ter para atuar de forma efetiva no que diz respeito à Palestina foi total e deliberadamente freada pelos Estados Unidos, em representação de Israel, pontuou Rabbani. De fato é irônico ouvir como a embaixadora norte-americana na ONU, Samantha Power, e outros diplomatas dos Estados Unidos se queixam há anos da maneira como a Rússia protege o regime sírio no Conselho de Segurança, acrescentou.

“Estarão os palestinos condenados a outro meio século de ocupação militar?”, perguntou o especialista. “Se tiverem que depender da ONU para se salvarem de Israel, a resposta seria ‘é quase certo’, mas felizmente não é o caso”, afirmou. Além disso, Rabbani destacou que, dos últimos secretários-gerais da ONU, nenhum foi tão tímido nem mais solícito com a política de Washington e de Israel do que Ban Ki-moon. “Seu mandato foi um desastre para os direitos dos palestinos. Ponto final. Por isso sua saída e substituição são boas notícias”, ressaltou.

Por sua vez, Vijay Prashad, diretor da cátedra George e Martha Kellner de História da Ásia Meridional e professor de estudos internacionais no Trinity College, com sede no Estado norte-americano de Connecticut, observou à IPS que parece que os assentamentos israelenses destruíram o plano de divisão e a solução de dois Estados. “O que fazer? Que futuro resta aos palestinos? São perguntas que devem ser feitas”, ressaltou o professor, que se dedica ao estudo da política do Oriente Médio e é autor de The Death of the Nation and the Future of the Arab Revolution (A Morte da Nação e o Futuro da Revolução Árabe).

Um Abed planta uma oliveira como símbolo de apoio aos agricultores palestinos. Foto: Eva Bartlett/IPS

 

Prashad indicou que Israel rechaçará as duas soluções, de um Estado e a de dois, quer aniquilar a questão palestina. “Os palestinos têm um jogo defensivo. Que estratégia positiva é possível para a Palestina, e o novo secretário-geral habilitará esse debate? Espero que sim”, disse Prashad um dos editores de Land of Blue Helmets? The United Nations in the Arab World (Território de Capacetes Azuis: as Nações Unidas e o Mundo Árabe).

Consultado sobre a mensagem que levará quando se encontrar com o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, Guterres respondeu de forma evasiva. “Para restabelecer a confiança, o primeiro ponto importante é dizer a verdade. Às vezes, ignora-se a verdade nas relações políticas. E, quando as pessoas dialogam, a verdade é que muitas vezes há diferentes percepções de cada um”, declarou.

“Creio que é com a verdade que tenho que me relacionar com todos os governos do mundo e, naturalmente, com o próximo governo dos Estados Unidos, demonstrando uma clara vontade de cooperar nos enormes desafios que enfrentaremos juntos”, acrescentou Guterres.

Prognosticar a posição de Trump sobre a questão palestina é difícil, pontuou Rabbani, principalmente porque é um recipiente vazio com múltiplas, e fundamentalmente nenhuma opinião própria. “Mas, como costuma ocorrer com os recipientes vazios, tendem a se encher com aqueles que têm um acesso privilegiado. E, neste caso, os sinais não são bons”, lamentou.

Com relação a Guterres, Rabbani disse que vai se deparar com as mesmas restrições que qualquer outro secretário-geral, mas com a vantagem de que a ONU já não está totalmente dominada pelos Estados Unidos como em décadas passadas. Também se poderia pensar que suas ambições excedem a de se converter em mensageiro de Washington, como seu antecessor, acrescentou.

“Conheço pouco suas opiniões pessoais sobre o conflito palestino-israelense, mas como foi um primeiro-ministro social-democrata europeu, pode-se supor que sua perspectiva será a da maioria europeia e da União Europeia”, especulou. “E se tratará menos de suas opiniões pessoais e mais do entorno no qual funcione e em sua disposição (ou não) de usar seu peso político. Guterres desejará gastar capital político na Palestina, quando pode optar ou sentir que deve destiná-lo a outros assuntos, como a Síria? É difícil adivinhar”, ponderou Rabbani.

Além disso, tampouco dependerá do todo de suas prioridades e preferências, mas fundamentalmente de quanta pressão farão os Estados membros e a opinião pública internacional. “Considero seu mandato como uma oportunidade que espero realmente que os palestinos possam utilizar. Mas, uma vez mais, aconselharia não se gastar tempo em analisar suas preferências e opiniões pessoais e mas sim no ambiente em que trabalha”, pontuou Rabbani, ex-analista de Oriente Médio do Grupo Internacional de Crise.

Por sua vez, a diretora executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima, opinou que “o novo secretário-geral terá que enfrentar um mundo com numerosos conflitos prolongados, reprováveis infrações às leis da guerra e uma enorme crise global de pessoas deslocadas”. Além disso, acrescentou, enfrentará uma crise de desigualdade econômica extrema, que prende as pessoas na pobreza, prejudica o crescimento econômico e ameaça a estabilidade mundial.

Com relação à igualdade de gênero, Byanyima disse: “Esperamos que o novo secretário-geral seja um secretário-geral feminista, que coloque a igualdade de gênero e os direitos das mulheres no centro da agenda internacional. E para que a ONU continue sendo relevante, efetiva e preste contas em um mundo tão diferente ao de sua fundação, em 1945, Guterres terá que encabeçar reformas essenciais”.

Byanyima também felicitou Ban Ki-moon por sua destacada e digna liderança. “Entre seus êxitos destaca-se abrir a porta aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e ao Acordo de Paris sobre mudança climática”, afirmou. Envolverde/IPS

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Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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