Bangcoc, 09/10/2006 – Poucos dias depois do golpe de Estado na Tailândia já se ouve as primeiras vozes contra esta “solução militar” para a crise política que o país atravessa. Na sexta-feira, manifestantes se reuniram para expressar sua oposição à junta, e, também, ao deposto primeiro-ministro Thaksin Shinawatra. “Não a Thaksin. Não ao golpe”, dizia uma faixa carregada por cerca de 20 dissidentes reunidos em frente a um centro comercial da capital. “Não chamem de reforma. É um golpe”, dizia outro cartaz. Embora pequenos em número, esses dissidentes deixaram arranhada a entusiasta imagem apresentada pelos meios de comunicação oficiais, que asseguravam que o golpe de terça-feira passada contra Thaksin, que estava em Nova York para participar da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, contava com apoio universal.
Os militares aplicaram o golpe argumentando que assim poriam fim à crise política sem precedentes que afeta o país, causada por uma crescente oposição ao governo do primeiro-ministro, e salvariam a nação de uma divisão. Thanaphol Eiwasakul, editor da revista Fah Diew Kan e defensor das liberdades civis e políticas, é uma das principais vozes contra os líderes golpistas. “Este golpe é contra a democracia e a lei. Os anúncios na televisão apoiando o golpe nos pedem para apoiarmos algo que é ilegal. Você daria seu apoio a alguma coisa que vai contra as leis?”, disse à IPS. Sombat Boongnam-among, destacado ativista pelos direitos das minorias na província de Chiang Rai, tambem se levantou contra a nova ordem política imposta no país através da lei marcial.
Os líderes golpistas “estão censurando a opinião do povo e somente é apresentada uma opinião. A deles. Não tenho medo de ser preso. Estou em meu direito de expressar minha opinião política abertamente”, disse à IPS. Este ativista de 38 anos, que lidera o protesto, já sofreu censura do novo regime. Um site da Internet que havia lançado quinta-feira para expressar suas opiniões sobre o golpe foi fechado na manhã do dia seguinte. “Tivemos quase cinco mil visitas em nosso primeiro dia. O provedor da Internet disse que nossa informação era muito perigosa”, contou. Sombat participou da manifestação de sexta-feira usando uma mordaça branca com a palavra “liberdade” escrita três vezes. O grupo de dissidentes, integrado por estudantes, acadêmicos, jornalistas e ativistas, aprece determinado a continuar exigindo o respeito à democracia e aos direitos humanos.
Os líderes golpistas proibiram atividades políticas e reuniões públicas com mais de cinco pessoas, anularam a Constituição e fecharam o parlamento, que era composto por 500 membros. Também adotaram restrições à imprensa. Além de exigir dos meios de comunicação a divulgação de informações para promover a “unidade nacional”, o governo militar também ameaçou tratar com mão-dura quem violar as novas disposições de controle da informação.
O analista político Giles Ungpakorn, da Universidade Chulalongkorn, de Bangcoc, destacou a ironia das medidas adotadas pela junta militar, cujo nome oficial é Conselho para a Reforma Democrática sob a Monarquia Constitucional. “Uma das críticas contra Thaksin usada para justificar o golpe foi seu controle da imprensa. O que temos agora é 10 vezes pior. Estou contente que haja vozes dissidentes”, disse à IPS. “Pertencemos à rede de pessoas contrárias ao golpe. Sempre estivemos contra Thaksin, mas, não queremos uma reforma política em um clima de ditadura militar”, disse Giles na sexta-feira a jornalistas, durante o protesto. Os militares devem deixar de interferir na política e voltar aos quartéis, restaurar a Constituição e os direitos de livre expressão, associação e imprensa, acrescentou. Esta incipiente oposição contra a junta militar surgiu no momento em que se busca o candidato ideal par ser o novo primeiro-ministro.
O comandante do Exército e líder golpista, Sonthi Boonyaratglin, anunciou que cederia o poder dentro de duas semanas a um chefe de governo interino. Entre os nomes mencionados nos meios de comunicação locais figura o respeitado ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio e atual presidente da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, Supachai Panitchpakdi. Outras personalidades citadas são o presidente da Suprema Corte e o governador do Banco Central da Tailândia. “A tolerância a este golpe não será indefinida. É preciso entregar a autoridade a um governo civil rapidamente”, disse à IPS o acadêmico alemão Michael Nelson, especialista em política tailandesa. (IPS/Envolverde)

