Jornalismo: Como se diz Al Jazeera em inglês?

Londres, 09/10/2006 – A próxima inauguração do serviço em inglês da rede de televisão via satélite Al Jazeera, do Qatar, constitui um dos maiores desafios ao domínio dos meios de comunicação ocidentais e, também, os enfoque acadêmicos dominantes sobre a comunicação de massa. “O lançamento da Al Jazeera Internacional, versão em inglês da rede informativa pan-árabe, pode influir na maneira como as noticias via televisão são recebidas nas salas de imprensa de todo o mundo”, disse à IPS Daya Thusu, da Universidade de Westminster (Londres). “É provável que desafie o predomínio de seus pares anglo-norte-americanos”, advertiu Thusu depois de participar, este mês, de um seminário em Westminster sobre a internacionalização dos meios de comunicação.

O mundo árabe, reduto informativo da Al Jazeera, é uma das regiões do mundo onde surgem mais noticias, e é provável que isto continue assim por muito tempo, afirmou a especialista. “Uma perspectiva árabe sobre o que ocorre em uma zona geopolítica e economicamente importante do mundo se torna chave para nossa compreensão dos assuntos internacionais”, acrescentou Thusu. “Os Estados Unidos rotularam sua “guerra contra o terrorismo” como “uma guerra longa”, que também se pode ver refletida em uma “guerra” (informativa) entre mídias eletrônicas”, ressaltou. “Isto pode não ser ruim, em absoluto”. A conferência em Westminster, que reuniu especialistas em meios de comunicação e acadêmicos de quase 51 países, abordou as implicações políticas da internacionalização dos meios.

A intenção da reunião de especialistas foi formular um debate a respeito no qual intervenham tanto os trabalhadores dos meios como os acadêmicos que os têm como objeto de análise. “A idéia de organizar uma conferência internacional sobre o estudo dos meios surgiu da insatisfação generalizada diante do predomínio dos modelos anglo-norte-americanos”, disse Thusu. “A conferência teve sucesso em sua tentativa de criar uma consciência muito maior sobre a necessidade de uma analise mais cosmopolita na hora de pensar os meios de comunicação”, acrescentou. A internacionalização da mídia é um fenômeno intensamente político e, portanto, inevitavelmente controvertida.

E a Al Jazeera continua entre os mais polêmicos fornecedores de notícias. Mas não é a primeira nesse sentido. “Historicamente, os meios alternativos existiram, e isso sempre foi um desafio para os tradicionais “, disse à IPS Robin Mansell, presidente da Associação Internacional para a Pesquisa em Meios de Comunicação, com sede nos Estados Unidos. “O que mudou é a dimensão global dos novos meios”, explicou a especialista. Mas, só o fato de criar novos meios não basta, disse Mansell. “É difícil saber até que ponto esse novo desafio funciona em paralelo com os meios existentes e até onde apresenta um ponto de vista alternativo que é valorizado em todo o mundo”, acrescentou. “Penso que a credibilidade sempre foi um assunto para a mídia. Com os novos meios há um problema semelhante de questionar a origem das notas”, disse Mansell.

Com relação aos diversos antecedentes políticos dos meios implicam diferentes valores informativos, afirmou que “em todas as culturas há discussões sobre o que é notícia. Embora seja uma espécie de sonho. Os valores mudaram com o tempo”. A mudança não chega somente através da Al Jazeera. Provedores de notícias de outros países ganham terreno e ar. Cresce a audiência de canais informativos como CCTV9 e o indiano NDTV, destacou Thusu.

“Somemos a isto a crescente contra-corrente de produtos mediáticos do Sul para o Norte e dentro do próprio Sul. Os exemplos incluem Bollywood (a indústria cinematográfica indiana), o cinema coreano, a animação chinesa e as noticias árabes”, disse a especialista na conferência. “É importante recordar que um enfoque internacional para estudar e investigar os meios admite uma história global: que a imprensa foi inventada na China, e não em Frankfurt, que a primeira imprensa do Império Otomano foi estabelecida em 1511, e a primeira das Américas não foi instalada nos Estados Unidos, mas no México, em 1535”, ressaltou Thusu.

“A Índia teve um periódico em 1780, e na década de 1870 circulavam mais de 140 diários em idiomas autóctones. O primeiro periódico em árabe data de 1789, enquanto o primeiro jornal chinês no exterior foi fundado em São Francisco em 1854. Existe uma longa história dos meios de comunicação que vai mais além da versão padrão anglo-norte-americana e européia”, acrescentou. Índia e China terão um crescente impacto sobre a mídia e seu estudo a respeito, disse. “É provável que o crescimento econômico da Índia e o “auge pacifico” da China – duas civilizações antigas com enorme potencial para influir na “sociedade do conhecimento” global emergente – afete a maneira como os estudos sobre mídia são teorizados”, disse Thusu.

“A versão chinesa da mercadotecnização dos meios – onde o Estado deve um papel central na globalização – oferece sítios interessantes para futuras investigações em mídia e comunicação”, afirmou. “Se os cracks culturais que surgiram na aldeia global depois do 11 de setembro de 2001 não se converterem em abismo, a comunicação intercultural terá de ser usada efetivamente”, alertou a especialista. “Isto significaria mover-se para uma agenda de pesquisa inovadora, mais inclusive a cosmopolita, que transcenda as fronteiras disciplinares, étnica,s nacionais e religiosas para seguir o fluxo multifocal, multidirecional e multimediático que forma a paisagem da comunidade global”, concluiu. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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