Saúde: Células-tronco, esperança para o Sul pobre

Toronto, Canadá, 09/10/2006 – Os pesquisadores da área da medicina vêem na terapia com células-tronco e na biotecnologia potenciais soluções para doenças não infecciosas predominantes no mundo em desenvolvimento, como a diabetes. Eliminar a carga de caríssimas injeções de insulina para os diabéticos, regenerar o músculo cardíaco depois de uma falha e melhorar a resistência às enfermidades manipulando células imunológicas são as prioridades em 10 áreas nas quais o Sul deveria concentrar suas pesquisas, segundo especialistas de todo o mundo. “Os países em desenvolvimento poderiam se beneficiar dos progressos na medicina regeneradora para abordar a epidemia de enfermidades não-transmissíveis e outras crescentes necessidades sanitárias”, diz um estudo da Universidade de Toronto.

A medicina regeneradora envolve reparação, substituição ou regeneração de células, tecidos ou órgãos danificados por defeitos congênitos, doenças, traumas e outras causas, segundo o informe, divulgado pela revista Public Library of Science Medicine. Este ramo da ciência avança além das tradicionais terapias de transplantes e substituições para inclui o uso de célula-tronco, moléculas solúveis, engenharia genética e de tecidos e uma avançada terapia citológica, e que no processo de mitose (divisão celular) podem criar, se tiverem seu material genético manipulado, outras especialidades.

As mais conhecidas pelos pesquisadores são os zigotos (embrião unicelular, formado pela união do espermatozóide e o óvulo), cujas pesquisas e eventual aplicação são objeto de intensa polêmica religiosa e política. “Buscamos maneiras de os países em desenvolvimento poderem aproveitar as ciências da vida”, disse Abdallah Daar, co-autor da pesquisa e diretor de ética e política no Centro McLaughlin para a Medicina Molecular, com sede em Toronto. Ao identificar as áreas sanitárias sensíveis no Sul, os países do Norte podem dirigir melhor sua ajuda à pesquisa nesse campo, disse Daar à IPS.

“Como ocorre com muitas outras tecnologias medicas – as vacinas, por exemplo – as pessoas do mundo em desenvolvimento, onde vivem 90% da humanidade, serão, em definitivo, as que poderão obter os maiores benefícios” dessas pesquisas e do desenvolvimento tecnológico, acrescentou. No primeiro lugar da lista de novas tecnologias em estudo figuram no informe “novos métodos de substituição de insulina e regeneração de células pancreáticas para diabetes”. Esses avanços incluem a biotecnologia e as terapias com células-mãe. A diabetes constitui uma enorme carga para os recursos da saúde pública nos países pobres e a insulina é cara. Portanto, os avanços em medicina regenerativa reduz drasticamente esses custos.

Essa é a razão da prioridade apontada pelo painel internacional de especialistas, disse a co-autora do informe, Heather Greenwood, do Programa Canadense sobre Genômica e Saúde Global. “Cerca de 75% de nossos 44 especialistas procedem do mundo em desenvolvimento”, destacou Greenwood. Por outro lado, a comunidade de doadores, que inclui importantes fundos como a iniciativa Grandes Desafios, dirigida por Bill e Melinda Gates, se concentra nas doenças infecciosas, enquanto as não-tranmissíveis são ignoradas, explicou. Mas nos países em desenvolvimento está ocorrendo uma mudança sanitária: as doenças não-transmissíveis avançam para os primeiros lugares entre as causas de morte e incapacidade, acima das transmissíveis.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, doenças não contagiosas, como as oncológicas, cardíacas e mentais, constituirão em 2020 até 60% das que afetam o Sul. Os especialistas atribuem a mudança a fenômenos como urbanização, rápido desenvolvimento industrial e envelhecimento da população associada com o aumento da expectativa de vida. Mas nem todos estão convencidos de que as novas tecnologias sejam a resposta. “Penso que as tecnologias médicas regeneradoras não serão a primeira opção para resolver estes problemas”, disse Ramanan Laxminarayan, da Recursos para o Futuro, organização de especialistas sobre assuntos globais com sede em Washington.

Laxminarayan trabalhou no Projeto de Prioridades para o Controle de Enfermidades, um esforço de quatro anos dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, da OMS e do Banco Mundial na exploração de soluções para os problemas sanitários em paises pobres e de renda média. Um informe do Projeto, que compila e prioriza uma longa lista de 320 estratégias baseadas em conselhos de quase 500 especialistas mundiais, foi publicado na revista médica britânica The Lancet na última primavera. Nenhuma dessas intervenções envolveu terapias com células-mãe, disse Laxminarayan à IPS. “A maioria das tecnologias regenerativas que constam do estudo da Public Library of Science Medicine estão, por enquanto, em um futuro distante”, acrescentou.

Se fosse possível desenvolver melhores checagens de detecção precoce ou vacinas mais baratas, valeria a pena dedicar-se a avançar nestas técnicas, afirmou. Daar destacou que a Índia é capaz de fabricar insulina a partir de bactérias manipuladas biologicamente a um custo muito mais baixo, e que também elabora uma vacina barata contra a hepatite B. “A biotecnologia sanitária e a medicina regenerativa parecem caras a princípio, mas podem acabar sendo mais baratas a longo prazo”, acrescentou.

“Quanto mais investigação e desenvolvimento os próprios países pobres fizerem, mais fáceis de custear serão estas tecnologias”. E isto está começando a acontecer, especialmente na Índia e na China. Na Índia, o Instituto L. V. Prasad para o Olho, sem fins lucrativos, utiliza terapias, com células-mãe adultas para reparar a córnea de aproximadamente 260 pacientes, enquanto no Centro para a Biologia Celular e Molecular tenta cultivar células beta pancreáticas para tratar a diabete. “A esperança é expandir estas tecnologias para outros países do Sul”, disse Daar.

O desenvolvimento, os testes e o uso destas novas tecnologias requerem cuidadosas diretrizes em matéria de segurança e ética, reconhecem todos. “A Índia tem as pautas de investigação de célula-mãe mais avançadas do mundo”, explicou Daar. Laxminarayan concordou, mas pediu que esses critérios nem sempre são aplicados ou fiscalizados. “Na Índia, há muitos exemplos de testes farmacológicos que não seguem as diretrizes e nada se faz a respeito”, alertou. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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