São Francisco, 09/10/2006 – Veteranos das guerras do Afeganistão e Iraque estão veiculando anúncios na televisão em favor de um e outro partido, um peculiar fenômeno que eleva a temperatura da campanha para as eleições legislativas de novembro. “Eu sou um veterano”, dizem vários homens e mulheres vestidos de civil em um anúncio contra o democrata Ned Lamont, contrário à guerra no Iraque que compete com Joe Lieberman por uma vaga no Senado pelo Estado de Connecticut. A campanha se converteu em um referendo sobre a guerra no Iraque. No inicio deste mês, a organização Veteranos pela Liberdade, com sede no Estado de Virginia, entrou na disputa ao contratar por US$ cem mil em publicidade para televisão em apoio a Lieberman.
O outrora companheiro de chapa nas eleições presidenciais de 2000 do ex-vice-presidente Al Gore (1993-2001) se apresenta como candidato independente, depois de ser derrotado por Lamont nas eleições primárias do Partido Democrata. “Fui ferido em Bagdá”, diz um dos veteranos no anúncio contra Lamont. “Quando estávamos lá, era importante que alguém cobrisse nossa retaguarda”, afirma outro. “Como o senador Lieberman”, completa uma veterana. “Sejam quais forem seus sentimentos sobre o Iraque, ele esteve lá por nós. Obrigado, senador Lieberman”, prossegue o anúncio. A peça publicitária parece parte de uma campanha dirigida aos veteranos norte-americanos com independência dos partidos, seja o Republicano (governo) ou o Democrata (oposição).
Porém, a realidade, com sempre, é mais complexa. Sem dúvida, muitos combatentes norte-americanos da guerra do Iraque apóiam a Veteranos pela Liberdade. Entretanto, os vínculos desse grupo sugerem seu caráter de organização de fachada do Partido Republicano. A campanha é organizada por Taylor Goss, ex-porta-voz de George W. Bush e que também o representou na recontagem de votos na Flórida nas eleições de 2000, polêmico episódio que deu a vitória ao presidente. Bill Kristol, editor da Weekly Standard, e o estrategista republicano Dan Senor, ex-porta-voz da autoridade civil da ocupação norte-americana no Iraque, também assessoram está campanha.
O não-governamental Centro para os Meios e a Democracia detectou outras implicações significativas da Veteranos pela Liberdade. Este grupo tem vínculos com os produtores, em 2004, de um anúncio de televisão da Veteranos pela Verdade de Swift Boat, associação de ex-combatentes do Vietnã que pretendia desacreditar os méritos militares do ex-candidato democrata à presidência, John Kerry. Está entidade era um “comitê 527”, assim chamado pelo código de impostos que lhe permitia realizar gastos em campanhas proselitistas à margem da fiscalização da Comissão Eleitoral Federal, que não são somados aos de um determinado partido. Em 2004, os anúncios contratados por essa instituição “ajudaram a afundar Kerry na corrida presidencial, desprestigiando-o com falso herói de guerra e traidor de seu país”, segundo Centro para os Meios de a Democracia.
Os Veteranos de 2004 e os da atual campanha para as eleições legislativas trabalham com a firma de relações públicas Donatelli Group, especializada em publicidade pela Internet e arrecadação eletrônica de fundos e filiada ao Partido Republicano. De todo modo, Veteranos para a Liberdade negam relação com o oficialismo. “Se fôssemos um grupo de fachada dos republicanos não estaríamos fazendo anúncios para Joe Lieberman”, disse à IPS o fundador da organização, o ex-tenente da marinha Wade Zirkle. “Isso não é algo que os republicanos façam. Envolvem-se em carreiras onde quer que os republicanos vençam”, acrescentou.
“Está muito claro que somos o que dizemos ser: uma organização bipartidária preocupada com a guerra e o terrorismo e, especificamente, com o Iraque”, acrescentou o veterano. Zirkle ocupou no ano passado altos cargos de direção nas campanhas para o governo de Virginia de Jerry W. Kilgore e para a Câmara de Representantes de Jim Blubaugh, ambos republicanos. As caprichosas leis que regem nos Estados Unidos o financiamento de campanhas eleitorais dificultam a identificação dos doadores dos fundos empregados pela Veteranos pela Liberdade para produzir e divulgar seus anúncios.
“Quase não há requisitos de informação nestes comitês”, disse Craig Holman, da ONG Public Citizen. “Portanto, freqüentemente é impossível saber quem paga esses anúncios. Ao contrário dos próprios candidatos, os comitês independentes recebem doações ilimitadas para suas campanhas”, disse. Ao contrário dos comitês de campanha dos candidatos, os regidos pelo setor 527 do código de impostos não estão regulados pela Comissão Eleitoral Federal: Devem apenas realizar informes trimestrais ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
O Centre for Responsive Politics informou que mais de US$ 210 milhões foram arrecadados e gastos pelos comitês 527 durante o ciclo eleitoral 2005-2006. As organizações que mais gastaram por essa via foram sindicatos com tendências democratas, como a União Internacional de Empregados de Serviços (US$ 18 milhões) e a Federação Norte-americana de Empregados de Estados, Condados e Municípios (US$ dez milhões). Os democratas apresentaram sua própria colheita de uniformizados. Um comitê 527 denominado Vote nos Veteranos, produziu e divulgou anúncios contra os senadores republicanos Rick Santorum e George Allen. Os anúncios questionam os candidatos republicanos por não aprovarem novos gastos destinados a equipamentos blindados em beneficio de soldados norte-americanos no front.
Veteranos para a Liberdade acusou a Vote nos Veteranos de ser grupo de fachada do Partido Democrata. Mas o “Comitê Democrata Nacional não dita nossa política ou nossas estratégias” , disse à IPS o major da reserva Paul Hackett, da Vote nos Veteranos, que lutou nas cidades iraquianas de Ramadi e Faluja. Ele voltou ao seu Estado natal de Ohio e se candidatou a uma vaga no Congresso em 2005. Nessa oportunidade teve surpreendentes 48% dos votos em um distrito onde, dez meses antes, Bush havia conquistado dois terços da votação. “Nossas idéias surgem dos próprios membros do grupo. Alguns têm mais categoria, mas certamente não somos porta-vozes do Comitê Democrata Nacional. Estamos aproveitando está oportunidade para que os políticos tomem nota e nos ouçam”, acrescentou. De todo modo, Hackett tampouco questiona a ação da Veteranos pela Liberdade.
Ralf Noboa, que serviu durante sete anos no exercito dos Estados Unidos, se considera “desgarrado”. Quando voltou aos seu país, depois de combater no perigoso Triângulo Sunita do Iraque, dedicou-se a participar do movimento contra a guerra. Noboa contribuiu para a campanha de Lamont contra Lieberman nas primarias de Connecticut, bem com a fundação da organização civil Veteranos do Iraque para o Progresso, que, assegura, não é filiada a nenhum partido. “Contam com gente como eu, contrária á guerra do Iraque. É óbvio que enfrentarão outros que são a favor, e que ajudam a legitimar uma empreitada ilegítima, tanto política quanto moralmente”, afirmou. (IPS/Envolverde)

