EUA-Iraque: Centenas de prisões em protestos antibélicos

Nova York, 09/10/2006 – Manifestações, marchas, vigílias e reuniões de oração aconteceram em várias cidades dos Estados Unidos na última semana como parte de uma campanha para exigir do presidente George W. Bush e do Congresso o fim da ocupação no Iraque. Desde o dia 21, quando mais de 500 grupos contra a guerra e organizações religiosas assinaram a “Declaração de Paz”, cerca de 250 ativistas foram presos por participação em ações não-violentas. Além de exigir um cronograma para a retirada dos 130 mil soldados norte-americanos no Iraque, a Declaração pede o fechamento de bases, um processo de paz que inclua medidas para a segurança, a reconstrução e reconciliação desse país e uma mudança nas prioridades de financiamento, dando ênfase nas necessidades humanitárias, antes das militares.

Os ativistas realizaram mais de 375 ações de desobediência civil e protestos em cidades de todo o país, incluindo Lincoln (centro), Houston (sul), Des Moines (norte), Little Rock (sul), Cincinnati (nordeste) e Fayetteville (leste). Nesta última se encontra Fort Bragg, a maior instalação militar norte-americana em todo o mundo. Embora a campanha seja principalmente impulsionada por grupos religiosos, muitos legisladores, veteranos de guerra e organizações de mulheres e imigrantes também participam ativamente dos protestos. As primeiras prisões foram realizadas em Washington na semana passada, quando ativistas tentaram entregar cópias da Declaração a funcionários do governo.

Outras ações antibélicas que também acabaram em prisões foram realizadas diante do Congresso, de bases militares e centros de recrutamento de soldados. Conscientes de que muitos políticos resistem a apoiar a campanha por medo de serem chamados de antipatrióticos, líderes religiosos esperam que pelo menos seu chamado de paz estimule o governo a fixar um prazo para acabar com a ocupação do Iraque. “Como cidadãos e pessoas de fé, devemos ser a consciência de nosso país”, disse o reverendo Lennox Yearwood, do Hip Hop Caucus, um dos 34 ativistas detidos por participação nos protestos diante da Casa Branca.

Mais de cem líderes religiosos cristãos, judeus e muçulmanos planejaram outras ações para impedir um possível ataque contra o Irã. Eles disseram que exigirão do Congresso que exerça sua “função de supervisão” para evitar essa eventualidade. Como parte da campanha, muitos ativistas sentam-se diante das casas de legisladores que não se expressam contra a política de Bush no Iraque. “Estamos gastando milhares de milhões de dólares todas as semanas com a ocupação no Iraque. Este dinheiro pode ser investido em saúde e educação”, disse Molly Nolan, ativista de 62 anos que participou de um protesto em frente à casa do senador Chuck Schumer, do opositor Partido Democrata, pelo Estado de Nova York.

“Os novaiorquinos precisam de escolas e trabalho, não desta guerra sem fim”, gritava a multidão diante da casa de Schumer. “Como outros políticos, você não falou. Pedimos que demonstre coragem e defenda princípios”, afirmou na manifestação Carolyn Eisenberg, do grupo País do Brooklyn para a Paz. Como Schumer, muitos legisladores democratas mantiveram distância do movimento antibélico, mas alguns publicamente criticaram as políticas de Bush no Iraque. “Como participante do Movimento de Direitos Civis, enfrentei a violência com a não-violência. Apanhei e fui deixado sangrando nas ruas à beira da morte”, disse o congressista John Lewis, representante do Estado da Geórgia, após assinar a Declaração, na semana passada. “Me dei conta de que nossas armas mais poderosas como nação não são as bombas nem os mísseis. Nossa maior defesa é o poder de nossas idéias. É no que acreditamos sobre democracia e respeito à dignidade humana”, afirmou.

Outros legisladores que assinaram a Declaração são Earl Blumenauer, representante do Estado do Oregon; Danny Davis e Jan Schakowsky, de Illinois (norte); Chaka Fattah, da Pennsylvania (nordeste), e Sam Farr, Barbara Lee e Lynn Woolsey, da Califórnia (sudoeste). Apesar dos crescentes protestos e críticas à guerra da parte de vários setores, incluindo generais da reserva e destacados analistas de inteligência, não há sinais de flexibilidade nas políticas do governo em relação ao Iraque e sua estratégia militar no Oriente Médio.

Há apenas duas semanas, a Câmara dos Representantes aprovou uma resolução apoiando a forma como o presidente maneja a guerra e rechaçando a idéia de fixar um prazo para a retirada das tropas. Signatários da Declaração anunciaram que, se suas demandas não forem respondidas pela administração Bush e pelo congresso, lançarão outra campanha de ações não-violentas depois de setembro. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *