México, 09/10/2006 – Contra o vento e a maré de protestos diplomáticos e políticos e de históricas mobilizações sociais, os Estados Unidos decidiram construir um muro de 1.226 quilômetros em sua fronteira com o México para deter a imigração. O governo mexicano rechaçou a medida e disse que lastima sua relação com o vizinho do norte. Pronunciamentos semelhantes são esperados de outros países da América Latina e da comunidade de imigrantes nos Estados Unidos, que entre março e maio movimentou uma massa de participantes em marchas exigindo uma reforma migratória integral.
Por 80 votos contra 19, o Senado norte-americano aprovou na noite de sexta-feira a construção do muro, que já havia sido aprovada pela Câmara de Representantes. Agora, resta a promulgação pelo presidente George W. Bush, que em meados deste mês disse que o faria. “Sabemos que os muros funcionam, é a hora de torná-los realidade”, disse na sessão de sexta-feira o senador pelo Estado do Alabama, Jeff Sessions, do governante Partido Republicano. Este partido garante que a medida será complementada, em um futuro ainda indeterminado, com uma reforma migratória global.
Para o acadêmico da política internacional Sergio Pelaéz, da Universidade Nacional Autônoma do México, a decisão dos legisladores demonstra “seu pouco” entendimento do fenômeno migratório, o qual reduzem a uma questão de segurança. Mas “não podemos negar seu direito a decidir o que fazer com suas fronteiras”, disse à IPS. O muro, que estará concluído, provavelmente, no final de 2007, “é uma medida de cunho eleitoral e muito onerosa que dificultará a imigração, mas não a deterá”, acrescentou. O Legislativo dos Estados Unidos entrou em recesso no sábado e muitos de seus integrantes se dedicarão à campanha para as eleições legislativas de 7 de novembro.
Ao novo muro serão somados os 112 quilômetros entre os dois países já demarcados por barreiras de metal ou concreto. Ambos têm uma fronteira total de 3,2 mil quilômetros. Além da construção do muro, duplo, com um corredor para veículos no meio, os senadores autorizaram a instalação de novas câmeras de vídeo, sensores e aviões não-tripulados de vigilância, bem como aumentar de 13,3 mil para 14,8 mil o número de agentes da Patrulha de Fronteira.
O reforço da fronteira norte-americana deixou de lado o projeto de reforma migratória integral em debate nas duas casas legislativas e que incluía vias para a legalização dos 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem atualmente nos Estados Unidos, a maioria de origem latino-americana. O endurecimento, que vem desde a década de 90, colocará em dificuldades milhões de imigrantes latino-americanos e caribenhos cujas remessas, que somaram US$ 53,6 bilhões em 2005, constituem o sustento fundamental para suas famílias em seus países de origem.
Cerca de 500 mil imigrantes entram anualmente sem autorização nos Estados Unidos, apesar dos controles já existentes, e 1,5 milhão são detidos e deportados. Os novos muros e controles afunilariam os locais de passagem, causando vítimas e provocando alta no preço que os traficantes de pessoas cobram dos imigrantes, afirmam observadores. O governo Bush colocou nos últimos meses centenas de soldados da Guarda Nacional ao longo da fronteira com o México para ajudar a frear a entrada de ilegais.
No ano passado, morreram na fronteira sul dos Estados Unidos 472 pessoas, quase o dobro de seis anos atrás, informou em meados do mês a Controladoria Geral desse país, órgão independente que funciona na órbita do Congresso. Da América Latina e do Caribe procedem, por nascimento e ascendência, cerca de 40 milhões de habitantes dos Estados Unidos. Os governos de cinco países da América Central, Colômbia, República Dominicana e México realizam desde janeiro reuniões periódicas para somar forças contra o projeto norte-americano de murar sua fronteira sul.
Estes países também lutam por uma reforma migratória que inclua a legalização de imigrantes e programas de trabalho temporário. Entretanto, esse esforço foi inútil. Na semana passada, legisladores da Iberoamérica reunidos em Montevidéu exortaram os países do Norte industrial a não levantar muros em suas fronteiras para impedir a entrada de imigrantes. Diversas organizações da sociedade civil fizeram pronunciamentos semelhantes nos últimos meses.
Entre março e maio milhares de imigrantes radicados nos Estados Unidos realizaram, como nunca antes, marchas pelas ruas de várias cidades para exigir dos legisladores e do governo Bush uma reforma migratória integral, mas tudo isso parece ter servido pouco. Senadores e representantes norte-americanos já decidiram construir o muro fronteiriço e o presidente Bush os apoiará. (IPS/Envolverde)

