Estados Unidos-Oriente Médio: Bush usa modelo Reagan

Washington, 09/10/2006 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e sua secretária de Estado, Condoleezza Rice, talvez pensem estar rompendo com 60 anos de tradição diplomática no Oriente Médio, mas para observadores regionais, suas últimas iniciativas são muito familiares. Hoje, até os aliados de Washington na região, países árabes com regimes sunitas autoritários como Arábia Saudita, Egito e Jordânia, questionam o suposto compromisso da Casa Branca em “democratizar” o Oriente Médio.

Os esforços de Washington para forjar uma aliança entre esses países e Israel contra a suposta ameaça do Irã trazem recordações da Guerra Fria, em geral, e sobre o primeiro ano e meio do governo do ex-presidente Ronald Reagan (1981-1989), em particular. Naquela oportunidade, o objetivo era conseguir um “consenso estratégico” entre Israel e seus vizinhos árabes “moderados”, incluindo Arábia Saudita, Egito, Jordânia e outros países do Golfo, em oposição à “problemática” União Soviética e sua principal aliada na região, a Síria.

O segundo objetivo dessa estratégia era conter a revolução islâmica no Irã, bem como a guerra desse país com o Iraque (1980-1988), conflito que em palavras do principal defensor do “consenso estratégico”, o então secretário de Estado Alexander Haig, expôs “profundas rivalidades e animosidades históricas”. Haig se referia aos enfrentamentos entre xiitas e sunitas, que temiam se propagasse a todo Oriente Médio. A suposição por trás do “consenso estratégico” era de que os países árabes estariam mais dispostos a resistir a supostas ameaças de Moscou e Teerã do que às de Israel.

Com expressões que hoje soam familiares, William Safire, colunista do The New York Times, escreveu em maio de 1982 que “países árabes que antes riam da exortação para deixar de lado o conflito com Israel para cuidar da ameaça soviética, agora estão em pânico pelo perigo iraniano, sobretudo porque sabem que os aiatolás têm uma perigosa aliança com os soviéticos. Temem que o eixo União Soviética-Irã-Síria possa tragar o Kuwait, derrubar o rei da Jordânia e estimular a subversão nos campos petrolíferos sauditas”, acrescentou o jornalista.

Como seus herdeiros neoconservadores de hoje, Safir afirmou na época que os temores árabes em relação ao Irã deviam ser aproveitados pelos Estados Unidos para forçá-los a ceder em suas demandas para que Israel se retire dos territórios ocupados. Este argumento fracassou, especialmente depois que Israel lançou uma invasão em grande escala contra o Líbano um mês depois, apoiado pela administração Reagan, e rejeitou o chamado Plano Fahd. Essa iniciativa saudita, aprovada pela Liga Árabe em setembro de 1982, oferecia a paz a Israel em troca de que esse país desmantelasse suas colônias, regressasse às fronteiras de antes da guerra dos Seis Dias de 1967 e reconhecesse os direitos nacionais dos palestinos.

“O Santo Graal da política norte-americana na região sempre foi tentar convencer os árabes a esquecerem do conflito com Israel e se concentrarem em outra ameaça”, disse Gary Sick, especialista em Irã e Golfo da Universidade de Colúmbia. “Se acredita que não pode ou não está preparado para enfrentar a disputa árabe-israelense, então procure convencer os árabes de que devem subordiná-lo a outros assuntos estratégicos é uma idéia muito atraente”, acrescentou.

Precisamente, esse parece ser o pensamento do governo norte-americano hoje. Condoleezza Rice acaba de fazer uma viagem pelas capitais árabes “moderadas” em busca de apoio para sua campanha no sentido de forçar o Irã a congelar sem condições seu programa de desenvolvimento nuclear que, segundo Washington, significa uma grande ameaça não só para Israel, mas para todo Oriente Médio. Rice revelou em suas declarações estar convencida de que os árabes estão suficientemente assustados com o Irã e com a emergente “meia-lua xiita” para não insistir em suas demandas a Israel, mais recentemente incluídas em outra iniciativa de paz saudita adotada na cúpula da Liga Árabe de 2002.

Esse temor se expressou nas críticas feitas por Arábia Saudita, Egito e Jordânia ao movimento xiita libanês Hezbollah (Partido de Deus), apoiado pelo Irã, poucos dias depois de estourar o conflito com Israel, em julho. Os informes sobre reuniões sem precedentes entre o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, e pelo menos um alto funcionário do governo saudita parecem dar a entender que se tenta forjar um novo “consenso estratégico” contra o Irã. Mas, a iniciativa não vai prosperar, segundo alguns analistas.

Os árabes “sabem que precisam conviver com o Irã, que esse país não sairá da região. Não é como no início dos anos 80, quando os mulás tentaram espalhar sua revolução islâmica”, disse Robert Hunter, especialista em Oriente Médio do centro acadêmico Rand Corporation. “A preocupação hoje é mais geopolítica do que ideológica. Além de seu apoio ao Hezbollah e alguns atritos aqui e ali, o Irã não tem sido especialmente agressivo em relação a esses países”, acrescentou. Enquanto as ambições do Irã de estender a revolução islâmica se moderaram desde a década de 80, Washington continua subestimando as demandas árabes para uma solução do conflito palestino-israelense.

“Não há nenhuma dúvida de que existem pessoas no Golfo, especialmente, que estão muito preocupadas com o Irã, mas a idéia de fazer parte de uma aliança com os Estados Unidos e Israel não é politicamente muito atraente”, afirmou Michael Hudson, especialista em Oriente Médio da Universidade de Georgetown. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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