São Francisco (EUA), 09/10/2006 – Nos registros do exército dos Estados Unidos há entre oito mil e dez mil soldados com paradeiro desconhecido. Ignora-se quantos deles fugiram do serviço por não quererem combater no Iraque. Um deles, que se ausentou sem permissão do serviço por ser contrário à guerra, foi levado na terça-feira para a prisão note-americana de Mannheim, na Alemanha, à espera do trâmite de sua apelação em Washington, em novembro. A prisão de Agustín Aguayo, de 34 anos, acontece menos de uma semana após sua apresentação em Forte Irwin, no deserto californiano de Mojave, depois de ficar escondido desde setembro.
Com objeção de consciência, Aguayo pediu para ser dispensado em fevereiro de 2004, apenas um ano após ter iniciado seu trabalho no exército e quando havia sido enviado pela primeira vez para o Iraque. Seu pedido foi rejeitado pelo Departamento de Defesa em 2005 e Aguayo apelou aos tribunais federais de Washington, que cuidam dos casos do pessoal militar em serviço fora do país. “Disseram que permitiriam que me ligasse (da Alemanha), o que seria magnífico, mas isso não aconteceu”, disse sua mulher, Helga Aguayo. “Em Forte Irwin afirmaram que ele se comunicaria e que eu poderia telefonar para ele, mas nem uma coisa nem outra ocorreu. Acredito que estão tentado deixá-lo incomunicável ao máximo”, acrescentou.
Aguayo estava na Alemanha quando fugiu por uma janela da base, antes de iniciar sua segunda missão no Iraque. Seus comandantes lhe disseram que o enviariam a território iraquiano nem que fosse algemado, contou Helga. “Ainda não se pode descartar que não o enviem para o Kuwait ou Iraque. Não parece possível, mas ninguém me garantiu. Por isso tenho medo”, acrescentou.
Pelos registros militares dos Estados Unidos existem entre oito mil e 10 mil soldados cujo paradeiro se desconhece. Não se sabe quanto se ausentaram sem permissão por motivos políticos. Durante a guerra do Vietnã (1964-1975), por exemplo, o atual presidente George W. Bush abandonou sem permissão sua unidade na Guarda Nacional Aérea no Estado do Texas para trabalhar em uma campanha para o Senado no Estado do Alabama.
Centenas de soldados contrários à guerra estão ausentes sem permissão no Canadá. Alguns poucos pediram asilo publicamente, e na terça-feira o primeiro soldado norte-americano que fugiu para esse país vizinho se entregou em Fort Knox. Darrell Anderson, condecorado com um Coração Púrpura (medalha de honra militar entregue em nome do presidente dos Estados Unidos) por salvar sua unidade de uma bomba em uma estrada no Iraque, disse que desertou no ano passado porque já não podia lutar no que acredita ser uma guerra ilegal. “Sinto que ao resistir compensei os pecados que cometi no Iraque”, disse Anderson durante entrevista coletiva pouco antes de se entregar.
O soldado contou que em abril de 2004 recebeu ordem para abrir fogo contra uma automóvel cheio de inocentes. O carro havia acelerado ao passar por um posto de controle militar e seu comandante lhe disse que era um procedimento do exercito disparar contra qualquer veiculo em situação como essa. Anderson não obedeceu. “Fatos como esse continuaram ocorrendo, até que um dia vi dois companheiros atingidos pelas balas”, contou no programa Democracy Now! da rádio Pacífica, “e apertei o gatilho enquanto apontava para um menino inocente. Mas minha arma estava travada, me dei conta do que estava fazendo e de que não importa o quanto se ache bom, quando está num lugar como aquele e o diabo te dominando, vai matar pessoas”.
Anderson regressou do Iraque emocionalmente ferido, com severo estresse pós-traumático. Quando sua unidade voltou para casa, ele fugiu para o Canadá antes de ter de voltar à frente de batalha. Permaneceu ali até o final de semana, quando sua mãe, Anita Dennis, o encontrou em Toronto e o levou de volta ao Estado de Kentucky. Ela afirmou que foi uma viagem difícil. “No Iraque, ele circulava em veículos Humvee e tanques, com gente atirando o dia todo”, contou Dennis à IPS. “Por isso a gente não se sente bem nesses carros e, definitivamente, não se pode dormir neles. Os soldados não podem dormir quando estão patrulhando a cidade em busca de minas terrestres e artefatos explosivos improvisados”, contou.
Dennis acrescentou que concorda com seu filho de que a guerra no Iraque vai do ponto de vista moral. “Creio em tudo o que meu filho me disse. Darrell contou que as pessoas que combateu estavam matando soldados norte-americanos porque não sabem quem somos. Tudo o que sabem é que estamos atravessando suas cidades com tanques. Nossos soldados os prendem. Quando levamos alguém para a prisão de Abu Ghraib, em Bagdá, não informamos suas famílias. Darrell contou que eles levavam homens e rapazes, e suas esposas e irmãs nunca sabiam o que estava acontecendo durante semanas. Nós ficaríamos indignados se isso acontecesse nos Estados Unidos”, disse Dennis.
Por sofre estresse pós-traumático, Anderson recebeu um tratamento diferente do dispensado a Agustín Aguayo, quando se entregou. Por um acordo com os advogados do soldado, as autoridades não o levaram a julgamento, lhe darão tratamento e permitirão que viva com sua família no Kentucky. Enquanto isso, Helga Aguayo tenta conseguir dinheiro suficiente para voar até a Alemanha e testemunhar no julgamento de seu marido. Ela trabalha, vive na casa dos país, em Los Angeles, junto com suas gêmeas de 10 anos.
“Não somos uma família rica. Nossos parentes trabalham duro. Existe um fundo de defesa e também um fundo para ajudar minha família com os gastos, e espero poder viajar para ver meu marido e testemunhar. Me disseram que isso é crucial. Este homem defende sua consciência. Se sua família não está ao seu lado para apoiá-lo, será um golpe duro para sua defesa”, disse. (IPS/Envolverde)

