América Latina: Investimento estrangeiro cresce na AL e cai no Brasil

México, 17/10/2006 – O investimento estrangeiro direto (IED) na América Latina e no Caribe cresceu 3,1% em 2005, seguindo uma curva ascendente iniciada em 2004. Mas o último aumento foi modesto se comparado com os 29% registrados em nível mundial. A região recebeu IED no valor de US$ 104 bilhões no ano passado, graças ao seu crescimento econômico e ao alto preço de produtos básicos, como petróleo e metais, diz o Informe sobre os Investimentos no Mundo 2006, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), divulgado ontem no México para a América Latina e o Caribe.

De acordo com o estudo, os investimentos tiveram contração no Brasil (-17%), Chile (- 7%) e no México (-3%), enquanto aumentaram de maneira considerável no Uruguai (81%), se multiplicaram mais de três vezes na Colômbia, quase duplicaram na Venezuela, e aumentaram 65% no Equador e 61% no Peru. As conseqüências desses fluxos no desenvolvimento da região não estão claras, mas é evidente que sem a entrada de fundos estrangeiros os planos de luta contra a pobreza poderiam fracassar, disse á IPS Juan Carlos Moreno, coordenador de pesquisas no México da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

O IED pode beneficiar ou prejudicar os países, dependendo das políticas aplicadas pelos governos. Mas sempre será necessário, disse Moreno, um dos que apresentaram o informa da Unctad, que tem o subtítulo “O investimento estrangeiro direto nos países em desenvolvimento e as economias em transição: conseqüências para o desenvolvimento”. Os especialistas dizem que os investimentos beneficiam diretamente um punhado de empresas e seus empregados, no entanto é difícil precisar seu impacto nas populações mais pobres da América Latina e do Caribe, que somam cerca de 230 milhões de pessoas.

Moreno considerou inconveniente deixar que as forças do mercado sejam as únicas a definir o impacto das IED no desenvolvimento. São os Estados que devem regulamentá-las para tirar delas o melhor proveito, insistiu o especialista. A maior parte dos investimentos nas economias em desenvolvimento se destinam, em geral, a atividades terciárias, particularmente comércio, finanças e serviços. Entretanto, também há um volume importante de IED no setor manufatureiro, com eletrônica e, mais recentemente, no setor primário, por exemplo, a prospecção de petróleo e mineração, que tem especial relevância na região, diz o documento da Unctad.

“Como resultado dos grandes e inesperados benefícios gerados pela exploração de recursos naturais e dos altos preços dos produtos básicos, vários governos estão introduzindo normas menos favoráveis para os IED do que as que existiam na década de 90, quando os preços dos produtos básicos atingiram seu nível mais baixo”, afirma o relatório. Apesar disso, os investimentos aumentaram no setor primário de forma considerável, a ponto de atraírem quase 25% de todos os investimentos registrados na região. O gás e o petróleo foram nacionalizados na Bolívia, e o governo da Venezuela assumiu o controle de 32 jazidas petrolíferas que estavam em mãos de particulares. Esse país também criou novas empresas estatais em setores com elaboração de açúcar, comércio varejista e comunicações.

Além disso, “em alguns países está ocorrendo uma mudança mais geral de políticas, destinada a corrigir a desigualdade de renda atribuída a regimes normativos anteriores”, disse a Unctad. Embora a Venezuela tenha introduzido novos requisitos para investir no setor do petróleo, conseguiu acertar novos contratos até receber IED no valor de US$ 1 bilhão. No primeiro semestre de 2005, o IED vinculado ao setor petrolífero aumentou na Colômbia 134% (chegando a US$ 1,2 bilhão), e 72% no Equador. Os investimentos na indústria mineira também aumentaram. Na Colômbia o crescimento foi de quase 60%, chegando a US$ 2 bilhões no ano passado; no Chile foram US$ 1,3 bilhão; no Peru US$ 1 bilhão, e na Argentina US$ 850 milhões.

O aumento do IED na região está relacionado a uma combinação de fatores locais e mundiais, com crescimento econômico global e elevada demanda por matérias-primas, disse na apresentação do documento Tagi Sagafi-nejad, professor da Escola de Administração de Empresas, da norte-americana Texas A&M International University. Além de atrair novos investimentos, em 2005 a América Latina avançou como fonte de investimentos internacionais, por meio de empresas nacionais do Brasil, México e da Venezuela. Em nível mundial, o IED chegou a US$ 916 bilhões, 29% a mais do que em 2004.

Apesar disso, os investimentos ainda se mantêm abaixo dos volumes máximos de US$ 1,4 trilhão, alcançados em 2000. Para este ano, são esperadas novas altas nos investimentos globais e, em especial, nos dirigidos à América Latina e ao Caribe, mas não serão em grandes quantidades, pois prevê-se uma desaceleração da economia mundial, principalmente dos Estados Unidos, e reajustes nas paridades do câmbio, alertou Moreno. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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