Nações Unidas, 03/11/2006 – Alarmados pelos resultados de um novo estudo, especialistas em mudança climática da Organização das Nações Unidas exortaram os países industriais a efetuarem reduções maiores em suas emissões de gases causadores do efeito estufa. As emissões desses gases (que aquecem a atmosfera) procedentes do mundo industrial estão aumentando novamente, afirma um documento divulgado segunda-feira pela Secretaria da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática.
O informe, intitulado “Greehouse Gas Data 2006” (Dados sobre gases que provocam o efeito estufa 2006), afirma que, apesar dos esforços para frear a contaminação de dióxido de carbono, as emissões em muitos países do mundo industrializado continuaram crescendo entre 2000 e 2004. As emissões totais caíram 3,3% no período 1990-2004, o que, segundo os pesquisadores, se deveu principalmente a uma redução de 36,8% registrada nos países da Europa oriental e central. No mesmo período, os gases lançados na atmosfera pelos outros países industriais que assinaram o Convênio aumentaram 11%.
Está tendência é “preocupante”, disse o secretário-executivo da Convenção, Yvo de Boer. Após conseguir reduções drásticas em suas emissões nos anos 90, os países da Europa oriental e central voltaram a elevar sua contaminação, em 4,1% entre 2000 e 2004. “Isto significa que os países industrializados terão de intensificar seus esforços para implementar fortes políticas que reduzam as emissões de gases que causam o efeito estufa”, afirmou de Boer em um comunicado. São necessárias com urgência reduções o setor do transporte onde as emissões aumentaram 23,9% entre 1990 e 2004. O dióxido de carbono, o principal entre esses gases, é liberado pela combustão de petróleo, gás e carvão.
Segundo o estudo, as emissões dos países ricos que ratificaram o Protocolo de Kyoto sobre Mudança Climática estiveram em 2004 15,3% abaixo dos volumes de 190, em média, sobretudo pelas severas reduções de 32% pela Rússia. O Protocolo de Kyoto requer que, até 2012, os 35 países industrializados que o ratificaram e a Comunidade Européia reduzam suas emissões em 5% abaixo dos níveis de 1990. Os países-parte do Protocolo estão obrigados a mostrar reduções a partir de 2008. Os Estados Unidos, que continuam sendo o principal contaminador desses gases, não faz parte do Protocolo.
Ao dar ênfase na necessidade de “medidas adicionais de minimização”, de Boer disse esperar que os países industrializados possam cumprir seus compromissos apelando aos mecanismos flexíveis baseados no mercado, e previstos no Protocolo de Kyoto. “O desafio é bem compreendido. Agora, o Protocolo está em pleno vigor e guiando os países industriais no sentido de identificar e implementar opções políticas, incluindo os mecanismos de flexibilidade, para cumprir seus objetivos”. Uma opção é o mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL), que permite aos países-parte investir em projetos de energias limpas ou desenvolvimento sustentável em países pobres, gerando créditos de carbono passíveis de serem comercializados.
“Esperamos o comércio de emissões entre todos os países-parte do Protocolo de Kyoto”, disse de Boer, por isso é urgente um “investimento significativo” em tecnologias de energias limpas. Há registro até o momento de aproximadamente 370 projetos de MDL, com um potencial estimado de redução de emissões superior a 600 milhões de toneladas, e estão em processo de registro outros 900 projetos, segundo funcionários da ONU. De Boer disse que nos países da União Européia o comércio de emissões “está crescendo em importância”.
Corroborando com o informe da ONU, outro estudo sobre mudança climática divulgado segunda-feira na Grã-Bretanha alerta que a falta de ação quanto ao aquecimento global pode gerar conseqüências desastrosas para a economia e a população do mundo. Financiado pelo governo britânico e de autoria do ex-economista-chefe do Banco Mundial, Nicholas Stern, o estudo de 700 páginas “The Economics of Climate Change” (A economia da mudança climática) reclama maiores esforços dos países ricos para combater o aquecimento do clima.
“Embora exista muito mais para compreendermos – na ciência e na economia – agora sabemos o suficiente para ter clara a dimensão do risco, o calendário para a ação e as formas de agir de maneira efetiva”, disse Stern em uma declaração. A pesquisa detalha os riscos relacionados ao aquecimento global e assinala que as inundações derivadas do aumento do nível do mar poderão provocar 100 milhões de refugiados e causar a extinção de 40% das espécies animais.
Também alerta que a mudança climática pode custar à economia global a quase US$ 7 trilhões até 2050 – equivalente a uma queda da atividade econômica da ordem de 20% – se não forem tomadas medidas a respeito das emissões do gases causadores do efeito estufa. Segundo cálculos feitos por Stern, os esforços oportunos para controlar as emissões custariam apenas 1% do produto bruto global. Após a divulgação do estudo, o governo britânico deu a entender que estaria pronto para desempenhar um papel importante nos esforços internacionais para enfrentar a ameaça do aquecimento global.
“O mundo não pode se dar ao luxo de esperar”, disse o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, em um comunicado, enfatizando a necessidade de atuar diante da mudança climática mais além dos compromissos assumidos em Kyoto. “Não podemos esperar os cinco anos que demorou a negociação do Protocolo. Simplesmente, não temos tempo. Aceitamos que temos de ir mais longe”, afirmou. Em apoio ao chamado de Blair, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos e ativista ambiental Al Gore aceitou trabalhar para o governo britânico como conselheiro de políticas sobre mudança climática.
Entretanto, Washington continua sem dar sinais de mudança em sua política nesse assunto guiado pela noção de que é necessária mais pesquisa sobre as causas da mudança climática. Por outro lado, delegados de 190 países se reunirão em Nairóbi na próxima segunda-feira para negociações destinadas a impulsionar os compromissos internacionais diante da mudança climática. (IPS/Envolverde)

