Washington, 10/11/2006 – A abrupta saída do secretário da Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, e a vitória do opositor Partido Democrata nas últimas eleições legislativas prometem grandes mudanças na política externa de Washington, sobretudo em relação ao Oriente Médio. Rumsfeld foi substituído na quarta-feira pelo ex-diretor da Agência Central de Inteligência, Robert Gates, analista de carreira aposentado no início dos anos 90, e favorito do ex-presidente George Bush (1989-1993), pai do atual mandatário.
Gates defende um enfoque “realista” da política externa e mostra pouca paciência com os neoconservadores e os nacionalistas agressivos, como o vice-presidente, Dick Cheney, ou o próprio Rumsfeld, que exerceu vital influência durante o primeiro mandato do presidente George W. Bush após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque e Washington. Os chamados realistas preferem a ação multilateral e dão prioridade ao fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, especialmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Por outro lado, os neconservadores são hostis aos processos multilaterais, em geral, e à Organização das Nações Unidas, em particular. Seus postulados sobre política exterior rejeitam o pragmatismo e formulam os conflitos em termos morais. Há dois anos, Gates presidiu uma equipe especial patrocinada pelo influente centro acadêmico Conselho de Relações Exteriores com Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de segurança no governo de Jimmy Carter (1977-1981). O Conselho propôs uma política de diplomacia e aproximação econômica com o Irã, o que foi acusado de “contemporização” por vários destacados neoconservadores.
Depois da saída de Rumsfeld e das eleições legislativas de terça-feira, em que os democratas garantiram maioria na Câmara de Representantes e se perfilam para também conseguir uma maioria mais estreita no Senado, Cheney e seus amigos neoconservadores ficaram mais marginalizados do que nunca. “Se a tendência no segundo mandato de Bush é o que um amigo meu certa vez chamou de imperceptível giro de 180 graus da ideologia neoconservadora ao realismo político, então será um grande sucesso”, disse o analista Gary Sick, especialista em Irã da Universidade de Columbia que trabalhou com Gates no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Carter.
“Do meu ponto de vista, creio que este é um dos giros políticos mais significativos dos últimos seis anos”, disse Sick. O analista afirmou que a substituição de Rumsfeld por Gates, no melhor dos casos, dará à secretária de Estado, Condoleezza Rice, da escola realista, maior capacidade de manobra diplomática do que no passado, quando tinha se via em contenda tanto com o vice-presidente quanto com o secretário da Defesa. Embora pareça ter sido discutida há tempos, a saída de Rumsfeld depois das eleições foi uma oferenda de sacrifício do governante Partido Republicano aos vitoriosos democratas.
A crise no Iraque, da qual Rumsfeld era a face mais visível, segundo as pesquisas pré-eleitorais e as feitas em boca de urna, talvez tenha sido o fator mais importante do que o próprio bush chamou de “golpe” republicano. “No mínimo, a saída de Rumsfeld dará tempo ao presidente para ajustar a situação no Irã e outras políticas sem que os democratas, agora mais fortes, peçam sangue. Mas, eles começarão a fazê-lo logo, se nada de coerente começar a ocorrer”, afirmou o analista Chris Nelson, editor do boletim “The Nelson Report”.
Em suas primeiras declarações depois da votação de terça-feira, bush prometeu buscar um “terreno comum” com os democratas em relação ao Iraque, bem com em outros temas, uma promessa que parecia inconcebível há apenas um mês, quando ele e Cheney acusavam a oposição de querer “sair correndo” do Iraque e, assim, permitir uma vitória dos “terroristas”. Por outro lado, a democrata Nancy Pelosi, que se converterá na primeira mulher a presidir a Câmara de Representantes, e o provável próximo líder da maioria democrata no Senado, Harry Reid, propuseram a realização de uma conferência nacional sobre a política no Iraque.
A maioria dos democratas acredita que Washington deveria fixar um calendário para retirar dentro de um ano, ou dois, no máximo, mais de 140 mil soldados que estão em território iraquiano, e, dessa forma, frear o crescente custo em vidas e dinheiro da ocupação e se libertar cada vez mais da encarniçada guerra civil nesse país. Espera-se que democratas e republicanos tenham em conta as recomendações do Grupo de Estudo sobre o Iraque (ISG), criado pelo Congresso e integrado por representantes dos dois partidos, que se espera apresente um relatório até meados de 2007.
É significativo que Gates seja um dos membros republicanos do ISG e que tenha se reunido em setembro com altos representantes do Irã e da Síria, países boicotados diplomaticamente pelo governo bush. Essas reuniões despertaram fortes especulações de que o informe do ISG seguramente recomendará uma aproximação com Teerã e Damasco, bem como com outros governos vizinhos do Iraque, como parte de uma estratégia para facilitar a retirada das forças norte-americanas e impedir que a guerra sectária nesse país vá alem de suas fronteiras. (IPS/Envolverde)

