Líbano: Assassinato reaviva temores de guerra civil

Istambul, 24/11/2006 – O assassinato do ministro da Indústria do Líbano, Pierre Gemayel, não só golpeou um governo fraco, mas também reavivou os temores de uma nova onda de violência e que se repitam cenas da sangrenta guerra civil que assolou o país durante 15 anos. E, em nível regional, o crime poderá dificultar os esforços para incluir a Síria e o Irã nas iniciativas para por fim à crescente violência no Iraque. Se é possível restaurar a normalidade no Líbano depois do assassinato, isso só se dará graças a um sentido de identidade nacional.

“O povo libanês sofreu uma guerra civil (1976-1991, entre milícias cristãs e grupos muçulmanos) e não creio que queira outra. O prejuízo da guerra foi mais do que material”, disse à IPS John Lawton, analista de assuntos libaneses desde os anos 60. Por outro lado, “a forte identidade libanesa” pode ter um papel-chave para superar a crise. Sessenta por cento dos quatro milhões de libaneses são muçulmanos, e 40% são cristãos. As primeiras palavras de Amin Gemayel, ex-presidente e pai de Pierre foram “não queremos reações nem vingança”.

Dependerá muito do tipo de governo que se formará agora. Seis dos 24 ministros, na maioria xiitas, incluindo membros do movimento Hezbolá (Partido de Deus), abandonaram seus cargos antes do assassinato e depois de fracassarem as conversações entre todos os partidos sobre a divisão do poder. O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas atendeu nesta quinta-feira a solicitação do governo libanês para investigar o assassinato de seu ministro da Indústria, enquanto dezenas de milhares de pessoas participavam de seu sepultamento em Beirute.

Gemayel, de 34 anos, cristão maronita e de tendência anti-Síria, foi assassinado na terça-feira quando dirigia seu automóvel nos arrredores da capital libanesa. O crime acontece no momento em que o país vive um novo e acalorado debate sobre a morte do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, em fevereiro de 2005. O governo, no qual as forças anti-sírias são maioria, apóia a formação de um tribunal da ONU para o caso Hariri. Uma investigação previa da ONU havia implicado autoridades sírias. Alguns dizem que o Hezbolá está contra um processo que poderia prejudicar Damasco. Horas antes do assassinato de Gemayel, a ONU apoiou formalmente a criação do tribunal, que agora deve ser aprovado por um governo libanês que funciona com dificuldade.

O Hezbolá, otimista após ter resistido aos bombardeios israelenses no último verão, pressiona por um maior papel no governo, algo que seus críticos alertem que derivará em um “golpe” contra a administração pró-ocidental por parte de um movimento apoiado por Síria e Irã. Ninguém reivindicou o assassinato de Gemayel. Todos os assassinatos anteriores também ficaram sem reivindicação e sem solução. Com exceção do Hezbolá, muitos libaneses abertamente acusam a Síria pela morte do ministro. Damasco, por sua vez, negou qualquer vínculo, disse que não teria “nada a ganhar” e sugeriu que o crime foi obra de setores que procuram implicar a Síria, quando esse país é “a solução e não o problema”.

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, falou de “tentativas por parte da Síria, do Irã e de seus aliados de fomentar a instabilidade” no Líbano. O assassinato aconteceu quando se evidencia o fracasso de Washington no Iraque e cresce a idéia, particularmente na União Européia, de aproximar a Síria do Irã para solucionar a crise iraquiana. De fato, a Síria e o Irã já se envolveram na situação iraquiana. Damasco acaba de estabelecer novos vínculos com Bagdá e se fala de uma possível cúpula Irã-Iraque-Síria sem participação dos Estados Unidos nem da UE. Mas o assassinato de Gemayel pode prejudicar estas iniciativas.

No Líbano, dependerá muito de como o Hezbolá vai manejar a situação e de quanto pressionará por mudanças no delicado equilíbrio de poder entre cristãos, drusos e muçulmanos sunitas e xiitas, que caracterizou a política desse país nos últimos 60 anos. O Hezbolá foi criado com apoio do Irã para resistir à invasão israelense no Líbano em 1982. Desde então cresceu e se converteu na força militar mais poderosa do país, possuindo 23 das 128 cadeiras no parlamento. Sua proclamada “vitória” sobre Israel o levou a exigir maior influência na política e no governo, argumentando também um aumento na porcentagem da população que apóia suas ações.

O último censo oficial no Líbano foi realizado em 1932, com base no qual o governo foi dividido de forma proporcional aos diferentes grupos religiosos, e quando os cristãos eram maioria. Embora muitos libaneses estejam orgulhosos da resistência do Hezbolá a Israel, nenhum grupo deseja ceder-lhe poder. (IPS/Envolverde)

Hilmi Toros

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