Bruxelas, 24/11/2006 – Os países em desenvolvimento devem pagar sua parte para preencher a imensa brecha entre os deveres e as necessidades financeiras da campanha mundial contra o HIV/aids, disse na quarta-feira o diretor do Programa das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida), Peter Piot. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional não deveriam impor condições que inibam os países de gastar o que consome na luta contra a enfermidade, afirmou Piot. A Onusida advertiu que até o ano de 2008 serão necessários US$ 22,1 milhões para garantir tratamento universal com medicamentos anti-retrovirais a todos os portadores do vírus causador da aids, enfrentar campanhas de prevenção e atender órfãos em razão da doença.
Em 2005, a Onusida teve orçamento de US$ 8,3 milhões, dois terços procedentes de doadores. O restante correspondeu a contribuições de países em desenvolvimento. “É preciso um esforço adicional, mas nem todo o dinheiro deveria proceder do Norte. A América Latina e a Ásia têm meios suficientes para pagar sua parte. Os países mais pobres são os únicos que não podem prescindir do apoio da comunidade internacional”, disse Piot à IPS. Durante a visita de Piot à capital da Bélgica, Geert Bourgeois, ministro de Desenvolvimento da autônoma região belga de Flandes, comprometeu uma contribuição de US$ 3,9 milhões para um projeto da Onusida.
O dinheiro vai ser dirigido especialmente à prevenção desta doença entre as mulheres e as adolescentes da África austral. A este respeito, o diretor da Onusida aplaudiu a decisão dos flamencos de investir US$ 1,3 milhão em Malawi, o mais pobre dos seis países menos desenvolvidos da África austral. Entre 15% e 17% dos moradores dessa nação vivem com HIV. “Em Botswana, a prevalência do vírus é de aproximadamente 30%, mas este é um país de renda média. Existe o risco de que retroceda na escala do desenvolvimento, mas a mineração de diamantes o torna financeiramente mais independente”, disse Piot à IPS.
Malawi, por outro lado, está no final da lista de países segundo o Índice de Desenvolvimento Humano. Quarenta por cento do orçamento nacional e 80% do orçamento de desenvolvimento são financiados por doadores estrangeiros. Mais da metade dos habitantes sobrevive com menos de um dólar por dia. A expectativa de vida era de 40 anos, em 2003. “Este projeto ajudará a fortalecer os esforços do Malawi para abordar a crescente carga de HIV/aids em mulheres e meninas”, disse Piot.
“A desigualdade de gênero profundamente arraigada, as limitações do poder e as oportunidades econômicas das mulheres, bem como as normas sociais, situam as mulheres em um maior risco de infecção com o HIV”, acrescentou. “O HIV/aids no Malawi tem cada vez mais rosto de mulher”, segundo Piot. As mulheres entre 15 e 24 anos são quatro vezes mais propensas a serem soropositivas do que os homens.
Citando Quênia e Uganda como exemplos, Piot criticou políticas impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial a diversos países que impedem seus governos de investir o necessário para combater o HIV/aids. Após receber uma grande doação do Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, Uganda não pôde gastá-la imediatamente por causa de um contexto de gasto de médio prazo imposto pelo FMI. No Quênia, quatro mil enfermeiros ficaram desempregados porque o governo seguiu instruções para reduzir a quantidade de empregados públicos. “Estas opções políticas são inaceitáveis”, disse Piot à IPS.
O diretor da Onusida não espera que uma vacina contra o HIV/aids esteja disponível num futuro próximo. Piot disse que essa vacina foi anunciada pela primeira vez há mais de 20 anos e se manteve cautelosamente otimista. “A boa noticia é que grandes laboratórios começam a financiar experiências clinicas. Os resultados serão conhecidos, talvez, em dez anos”, acrescentou Piot, que pediu à imprensa para não criar falsas expectativas. “O sucesso dependera muito do dinheiro e um pouco da sorte”, afirmou. (IPS/Envolverde)

