Palestina-Israel: Apelo à moderação e à cautela

Jerusalém, 04/12/2006 – Sufyan Abu Zayda já viu em sua vida muitas tréguas rompidas e ouviu muitos discursos sobre paz para se entusiasmar com o último cessar-fogo acertado entre as autoridades de Israel e da Palestina. “Ainda estamos muito, muito longe de uma volta à verdadeira negociação”, disse Zayda à IPS. “Não há nada novo no que (o primeiro-ministro israelense, Ehud) Olmert disse. É muito cedo, inclusive, para falar em preparar o terreno com vistas a um novo diálogo”, acrescentou. Ex-ministro de Assuntos dos Prisioneiros da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Zayda é dirigente do partido Fatah, ao qual pertence o presidente palestino, Mahmoud Abbas.

Um moderado cujas declarações aparecem regularmente nas redes de televisão de Israel para explicar, em fluente hebraico, as posições palestinas, Zayda acredita em uma solução negociada que implique o reconhecimento de dois Estados, com uma Palestina independente junto a Israel. Seus adversários políticos no Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que derrotou o Fatah nas urnas em janeiro e que se nega a reconhecer Israel. Embora preferisse ver novamente israelenses e palestinos negociando, mais do que apontado as armas uns aos outros, o que mais Zayda pode dizer sobre as propostas de Olmert, que incluem novas retiradas de tropas e traslado de assentamentos judeus é que podem mudar o clima. “É preferível falar de paz, mesmo que não exista, do que falar de guerra, que existe”, afirmou.

Zayda conversou com a IPS poucos dias antes de israelenses e palestinos acertarem um cessar-fogo: as organizações combatentes da Palestina se comprometeram a deixar de disparar foguetes contra Israel e Olmert anunciou que deteria toda operação militar em Gaza. A trégua foi obtida após cinco meses nos quais morreram mais de 400 palestinos, muitos deles militantes do Hamas, assassinados em bombardeios aéreos israelenses que tinham o declarado objetivo de deter os foguetes e conseguir a libertação de um soldado de Israel feito prisioneiro. Dois israelenses morreram vítimas de foguetes disparados contra o povoado de Sderot, no mês passado.

Em Gaza há uma “disputa” sobre os foguetes, aos quais muitos palestinos se referem como “pedras voadoras”, devido à sua confecção rudimentar, disse Zayda. O Hamas disparou a maioria dos foguetes, mas, este movimento “sabe quando parar”, acrescentou. “Prejudicam os palestinos, pois é um convite para Israel atacar. Houve muitas perdas, feridos, casas destruídas”, disse o dirigente. A meta, no momento, deveria ser estabilizar a trégua. O passo seguinte seria uma troca de prisioneiros, entre os quais o soldado israelense Gilad Shalit, seqüestrado em junho, e numerosos presos palestinos em prisões de Israel.

Se, além disso,Israel também abrir as passagens de fronteira e os bloqueios de estrada, que prejudicam o transporte de pessoas e bens palestinos, o cessar-fogo será mais duradouro, afirmou Zayda. “É possível alcançar uma trégua total”, assegurou. Altos funcionários militares israelenses consideraram que o Hamas concordou com o cessar-fogo para se recuperar após cinco meses de assedio. “Há alguns que vêem este processo como funcionando em favor do Hamas, mas, outros, como eu, o vemos com a preparação para que o movimento reconheça Israel e as negociações e passe de grupo armado a um partido político”, disse Zayda.

Na semana passada, Olmert disse que se o governo palestino renunciar à violência, reconhecer Israel, aderir aos acordos de paz interinos e renunciar ao direito do retorno dos refugiados no estrangeiro, estaria disposto a aceitar “um Estado independente” na Cisjordânia “com plena soberania e fronteiras definidas”. Mas, Zayda se mostra céptico diante dos chamados do primeiro-ministro israelense a um diálogo. “No momento não vejo nenhuma mudança de direção. Não se pode construir um plano de paz sério baseado no discurso de Olmert. Quero me sentar para negociar com base em dois Estados para dois povos e nas fronteiras de 1967”, afirmou o dirigente da Fatah.

Zayda se referia à linha que dívida Israel da Cisjordânia às vésperas da guerra de 1976, quando Israel conquistou essa área e Jerusalém oriental. Para que isso ocorra, o cessar-fogo deve durar. Mas, Mahmoud Abbas anunciou na quinta-feira que o diálogo com o Hamas para a formação de um governo de segurança nacional havia chegado a um “beco sem saída”, o que deixa a trégua em xeque. O presidente palestino acreditava que esse governo de unidade nacional permitiria convencer os líderes ocidentais a levantarem as sanções econômicas impostas desde que o Hamas chegou ao poder na Palestina.

A formação de um governo que reúna o Hamas e o Fatah é “cada vez menos provável” devido à disputa pelos ministérios de Finanças e Interior. E pelo menos 10 pessoas morreram em poucos meses, nos combates de rua entre milícias dos dois partidos. “Não se pode prever o que acontecerá nos próximos meses se nem mesmo sabemos o que vai acontecer amanhã”, afirmou Zayda. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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