Rio de Janeiro, 04/12/2006 – “Eu me escondia para morrer, hoje, me mostro para viver”. Com este lema assumiram seu protagonismo para uma campanha de prevenção pessoas portadoras do vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV) no Brasil. “Defendemos nossa visibilidade para reclamar direitos”, disse as IPS Beatriz Pacheco, advogada de 60 anos que aparece em anúncios na televisão destacando que uma pessoa portadora do HIV, com ela há nove anos, pode ter uma vida normal. Também exorta a todos a se informarem para combater preconceitos e discriminações.
Essa é a primeira entre muitas campanhas informativas promovidas pelo Ministério da Saúde, na quais soropositivos são protagonistas de vídeos de 30 segundos na televisão e, também, em cartazes. O ator Cazu Barroz, de 34 anos e há 17 com o HIV, divide com Beatriz as mensagens. “Queremos falar com nossa própria voz. É importante não ter vergonha, tornar-se visível como cidadãos com todos os direitos”, disse a advogada, que em Porto Alegre atua junto a empresas na defesa do emprego dos portadores do vírus, causador da deficiência imunológica adquirida (Aids).
No Brasil não existe uma lei especifica para proteger soropositivos da demissão discriminatória e existem precedentes na Justiça de não considerar o HIV motivo de justa causa para demitir. Em sua atuação, Beatriz promove mesas de negociação com os empresários, na Justiça do Trabalho, para manter empregados os infectados. A ampla mobilização e participação das organizações não-governamentais e dos próprios infectados permite que no Brasil se trabalhe na prevenção e no tratamento da doença, com o Estado distribuindo gratuitamente medicamentos anti-retrovirais.
A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+) foi formada há muitos anos, embora tenha realizado seu primeiro encontro nacional no ano passado, lembrou uma de suas participantes, Juçara Portugal Santiago, representante no Brasil da Comunidade Internacional de Mulheres vivendo com HIV/Aids (ICW). A quantidade estimada de brasileiros portadores do HIV se estabilizou em 600 mil nesta década, com 175 mil pessoas em tratamento. Os novos casos de Aids registrados no ano passado chegaram a 33.142, o que significa uma redução de 51,5% em relação a 1996.
Mas, a estabilização aconteceu em um nível muito elevado, de 18 pacientes de Aids para cada 100 mil habitantes e com expansão em alguns segmentos, com as mulheres casadas e os homens com mais de 50 anos, disse à IPS Veriano Terto Júnior, coordenador da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia). Esta organização teve grande influência na definição do programa governamental de prevenção e tratamento da epidemia. “É “preocupante” que continuem morrendo 30 pessoas de Aids e que surjam 87 novos casos por dia, mas, apesar do acesso universal aos medicamentos, ressaltou.
A “novidade” de colocar soropositivos na campanha pela televisão é positiva para combater o estigma, pois esse ainda é o principal obstáculo para a eficácia das ações de prevenção e tratamento, reconheceu Terto Júnior. O governo acolheu o protagonismo dos portadores para tacar o preconceito, mas, se mantém o risco de a população continuar encarando o HIV/aids como um problema “dos outros’. O programa brasileiro, considerado exemplar internacionalmente, também enfrenta a ameaça de uma redução da mobilização social, como reflexo de certa paralisia das organizações da sociedade civil e pela queda na atenção diante da estabilização da epidemia e a equivocada impressão de que “está sob controle”, disse o especialista.
Além disso, o programa governamental começa a sofrer pressões orçamentárias, diante do elevado custo dos novos medicamentos, alertou Terto Júnior. Este ano, o valor total da distribuição de anti-retrovirais chegará a R$ 1 bilhão. A luta contra a discriminação será mais efetiva agora que os portadores de HIV aparecem publicamente, “com seus rostos” e a afirmação de que podem ter uma “vida de qualidade e ativa” como os demais, disse Portugal Santiago à IPS. “Ser honesto consigo mesma”, assumindo sua condição, contribui para superar preconceitos que “todos temos, em um processo interno. A solução é ampliar a informação para promover o conhecimento e, em seguida, a conscientização”, para que a Aids seja tratada com responsabilidade por todos, acrescentou.
A primeira reação das pessoas à sua aparição na televisão foi de “surpresa”, pela coragem de se mostrar em público e assumis a infecção e, também, pela disposição de uma pessoa com HIV, disse Beatriz. A discriminação e a falta de informação da população em geral em relação à aids se revelam nessas reações, acrescentou. “Quando digo que tenho HIV as pessoas comentam que não aparento, porque sou gorda”, já que anda mantêm a visão inicial da doença, com pacientes magérrimos e debilitados. “Não acreditam que possa exercer atividades normais”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

