FSM: A variada esquerda na América do Sul

Caracas, 24/01/2005 – O Fórum Social Mundial, em seu retorno ao Brasil, encontra na América do Sul um variado arquipélago de governos progressistas e movimentos de esquerda que impulsionam com convicção a integração regional e tentam, pela via de tentativa e erro, responder às fortes demandas sociais. Governos como o de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Néstor Kirchner na Argentina e Hugo Chávez na Venezuela "aplicam políticas contraditórias e não conseguem resolver o dualismo de ter em seus países enclaves de prosperidade frente aos grandes bolsões de miséria e exclusão", disse à IPS o especialista em geopolítica e general da reserva do exército venezuelano, Alberto Müller.
Entretanto, esses governos como os grupos políticos e sociais que os apóiam ou os que em outros países ainda são oposição "capitalizam uma espécie de movimento cíclico da região, com um pêndulo desta vez do lado esquerdo e da integração", disse por sua vez à IPS, Carlos Romero, professor de assuntos internacionais em várias universidades da Venezuela. Outra característica da atualidade, destacam os especialistas, é que o avanço da esquerda se produz no contexto de um desmantelamento de alguns partidos políticos como intermediários da sociedade, enquanto os movimentos sociais e organizações não-governamentais apenas aportam visão e soluções parciais ou setoriais diante dos problemas.
O que mudou? pergunta-se Müller. "O crescimento extraordinário da pobreza, como resultado das políticas neoliberais aplicadas nos anos 80 e sobretudo na década seguinte, fez surgir um problema de governabilidade", respondeu ele mesmo. "A ingovernabilidade estará presente enquanto não for possível incorporar o setor que cresceu empobrecido e excluído à área mais avançada da vida econômica e social", advertiu Müller. "Essa realidade sustenta as lutas dos piqueteiros (o movimento criado e movido pelos trabalhadores desempregados) na Argentina, os "cocaladores" (plantadores de coca da Bolívia), os indígenas do Equador ou os guerrilheiros da Colômbia", ressaltou.
Para este analista, os governos de "Lula, Kirchner, ou Chávez têm políticas contraditórias e não podem ignorar fatores de poder estabelecidos, que têm dinheiro, conhecimentos, habilidades e um potencial de atuar de maneira autônoma e inclusive desestabilizar governos caso se associem com elites de países industrializados. Lula, Kirchner ou Chávez, buscam conciliar esses fatores e, simultaneamente, tratam de aumentar a capacidade dos setores marginalizados que são majoritários. Há um choque de interesses", afirmou Müller.
Ao desenhar o mapa político atual dos países latino-americanos, Romero observa que "é muito variado. Vai desde a tendência moderada dos presidentes do Panamá (Martín Torrijos) e do Paraguai (Nicanor Duarte Frutos) até a esquerda radical do Movimento dos Sem-Terra (MST) do Brasil, passando pelo governante Movimento V República (MVR) na Venezuela, a esquerda colombiana do Pólo Democrático Independente e o Movimento ao Socialismo de Morales, na Bolívia". Outra divisão, mais clara é que alguns desses movimentos chegaram ao poder e outros não.
Para Romero, "as classificações feitas mostram em geral duas tendências: uma radical, segundo a qual chegou a hora da revolução latino-americana e de nos integrarmos para a ruptura, e outra reformista, dos que apostam em governos moderados, que façam políticas de esquerda sem sacrificar a relação com os Estados Unidos". O analisa inclui entre os primeiros Chávez, o Pólo Democrático Independente, a principal coalizão opositora da Colômbia e que governa Bogotá, o MST e grupos socialistas do Brasil, os movimentos indigenistas da Bolívia e do Equador, a esquerda marxista extra-parlamentar do Chile e os piqueteiros (assim chamados por bloquearem ruas como forma de protesto) e setores de esquerda do governante Partido Justicialista da Argentina.
Os moderados são a seu ver, Lula, Kirchner, Torrijos e os principais partidos que os apóiam. Possivelmente também integre esse grupo o Encontro Progressista/Frente Ampla que governará o Uruguai com Tabaré Vázquez como presidente a partir de 1º de março próximo, acrescentou. No entanto, Müller advertiu que "a maioria dessas causas estão nas mãos de líderes carismáticos, que privilegiam sua atuação política, o que representa um problema de eficiência para suas gestões".
Romero evocou que todas essas forças "recolhem a crise de governos e movimentos centristas, reformistas ou modernizadores, que vivem uma hora ruim", numa referência aos partidos e líderes que governaram nos anos 80 e 90, muitos deles impondo políticas neoliberais depois das ditaduras que assolaram o sul da América na década de 70. A pesquisa do Latinobarômetro de 2004, que anualmente inclui um universo de 18 mil habitantes da região, mostrou que 53% dos consultados apóiam o sistema democrático, mas ainda restam 15% deles que preferem governos de força, 21% se manifestaram indiferentes ao tipo de regime que atenda suas aspirações e o restante nem mesmo respondeu.
Nesse clima, "os movimentos e encontros como o Fórum Social Mundial, que começa nesta quarta-feira em Porto Alegre, ou o de forças políticas de esquerda, de São Paulo, debaterão sobre a região e sobre apoiar posições radicais ou o híbrido entre esquerda e moderação que é aplicada por Lula", destacou Romero. "As organizações da sociedade civil atuarão segundo seu alinhamento mundial em uma ou outra esfera", estimou. Müller foi mais crítico, pois em seu conceito "os movimentos sociais freqüentemente não respondem a uma visão holística dos problemas da humanidade ou desta região, sendo quase espontâneos, ad-hoc, sem capacidade de persistência diante do novo modo de produção, informatizado, que substitui a sociedade industrial".
Entretanto, segundo o especialista, tanto esses movimentos horizontais quanto os líderes carismáticos que governam vários dos países da região podem dar uma contribuição importante se apoiarem o caminho da integração, "o que é uma alternativa para ir definindo um modelo de civilização ou sociedade, como o norte-americano, o chinês, o indiano ou, em boa parte o europeu. É um cenário global, estes movimentos podem parecer frágeis, mas se conseguem formular uma ideologia em forma de uma proposta cultural, que se sustente em uma série de valores comuns para a América Latina e o Caribe, podem ter um caráter permanente e oferecer uma saída", afirmou Müller. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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