Oriente Médio: Falcões dos EUA queriam um ataque de Israel à Síria

Washington, 20/12/2006 – Os falcões no governo dos Estados Unidos esperavam que Israel atacasse a Síria durante a última guerra no Líbano, segundo uma entrevista de uma destacada neoconservadora cujo marido é alto assessor do vice-presidente, Dick Cheney, para assuntos do Oriente Médio. Meyrav Wurmser, diretora do Centro para Políticas sobre o Oriente Médio no Instituto Hudson, disse a Yitzhak Benhorin, do site Ynet, que um ataque israelense com sucesso contra Damasco teria sido um golpe mortal na insurgência no Iraque.

“Se a Síria tivesse sido derrotada, a rebelião no Iraque teria terminado”, afirmou Wurmser, acrescentando que foi principalmente pela pressão dos neoconservadores que a administração Bush ignorou os chamados do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para que detivesse os ataques de Israel contra a milícia pró-Síria xiita Hezbolá (Partido de Deus). “Os neoconservadores são responsáveis por Israel ter tido muito tempo e espaço. Eles acreditavam que deveriam deixar Israel ganhar”, disse ao site Ynet. “Pensavam que Israel deveria lutar contra o inimigo real, que tinha apoio do Hezbolá. Se Israel tivesse atacado a Síria, teria sido um duro golpe também para o Irã, o que mudaria o mapa estratégico do Oriente Médio”, acrescentou.

As declarações de Wurmser (com quem a IPS tentou se comunicar sem obter resposta) apóiam informes procedentes de Israel de que os falcões, a ala mais belicista no governo Bush, de fato estimularam o governo do primeiro-ministro Ehu Olmert a estender a guerra para além das fronteiras do Líbano. “Em uma reunião com um alto funcionário israelense, (o vice-conselheiro para Segurança Nacional, Elliot) Abrams disse que Washington não teria nenhuma objeção caso Israel decidisse estender a guerra ao seu vizinho do norte, sem deixar dúvidas em seu interlocutor de que o objetivo proposto era a Síria”, disse à IPS uma fonte bem informada por um dos participantes do encontro.

Relato semelhante dessa reunião foi publicado pelo jornal israelense The Jerusalem Post depois do término do conflito, no final de agosto. Abrams trabalhou estreitamente com David Wurmser, marido de Meyrav, e com o assessor de segurança nacional de Cheney, John Hannah, que apoiavam a idéia de uma “mudança de regime” em Damasco. De fato, os Wurmser, junto com o ex-presidente da Junta de Políticas de Defesa Richard Perle e o ex-subsecretário-adjunto de Defesa Douglas Feith, trabalharam em um documento de 1996 dirigido ao então primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, no qual o exortavam a derrubar o presidente iraquiano Saddam Hussein (1979-2003) como primeiro passo para desestabilizar a Síria.

Wurmser e Hannah, segundo o The New York Times, se opuseram com sucesso aos esforços da secretária de Estado, Condoleezza Rice, para persuadir Bush a abrir um canal de diálogo com a Síria para deter o conflito no Líbano em seus primeiros dias. Considerando o trabalho feito por seu marido para Cheney, as declarações de Meyrav Wurmser dão uma visão importante do pensamento de vários falcões na administração, especialmente daqueles próximos do vice-presidente, que sempre se opôs a qualquer aproximação com Damasco ou Teerã.

Desde o conflito do verão passado, o presidente sírio, Bashar Al Asad, deu várias entrevistas à imprensa ocidental, a última ao jornal italiano La Repubblica, na qual exortou Israel a iniciar negociações diretas para acabar com o estado de guerra e normalizar as relações bilaterais. As repetidas ofertas de paz da Síria dividiram o governo de Olmert. Alguns membros do gabinete, liderados pelo ministro da Defesa, Amir Peretz, pediram para considerar a proposta de Assad, avaliando que Israel poderia perder (talvez, o controle sobre as Colinas de Golan) e ganhar com ela (enfraquecer os vínculos entre Síria e Irã)

Mas Olmert resiste. No domingo, por exemplo, o primeiro-ministro disse que não consideraria dialogar com Damasco a menos que esse governo renuncie ao terrorismo e suspenda seu apoio às “influências extremistas”, numa referência ao palestino Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) e ao Hezbolá. Porém, analistas acreditam que, na realidade, o governante israelense teme enfrentar os falcões de Washington, que acusam Damasco de apoiar os rebeldes iraquianos e de tentar desestabilizar o governo do primeiro-ministro do Líbano, Fouad Siniora, para recuperar sua influência nesse país.

Enquanto os falcões ainda parecem ter a última palavra em relação à Síria, o governo Bush sofre uma forte pressão para mudar sua política no Oriente Médio, particularmente em relação ao Iraque. No começo deste mês, o Grupo de Estudos sobre o Iraque (ISG), comissão de especialistas designada pelo Congresso norte-americano, chamou o governo a iniciar contatos diretos com Damasco e Teerã para estabilizar a situação iraquiana.

Coincidindo com altos funcionários israelenses, o ex-chefe da diplomacia norte-americana e co-presidente do ISG, James Baker, afirmou que um diálogo com a Síria afastaria esse país de sua aliança estratégica com o Irã. “Se puder atrair os sírios, solucionará o problema de Israel com o Hezbolá”, afirmou, e garantiu que funcionários do governo sírio com os quais se reuniu em setembro lhe indicaram que estavam dispostos a convencer o Hamas a aceitar as condições de Olmert para um diálogo direto com os palestinos. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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