Política: Aliança de Civilizações, o mapa do futuro

Nações Unidas, 20/12/2006 – Figuras políticas do Ocidente e do mundo muçulmano, junto com o secretário-geral da ONU que deixa o cargo, Kofi Annan, fizeram um novo e urgente apelo para um diálogo entre culturas e deram sua benção a um plano de ação para criar a Aliança de Civilizações. “Não é suficiente divulgar um informe contundente e aplaudir as grandes idéias, a menos que façamos algo com tudo isso”, disse Annan na segunda-feira, durante as discussões informais na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas sobre essa iniciativa, destinada a combater as raízes do terrorismo e dos conflitos bélicos.

O informe e plano de ação sobre a Aliança de Civilizações, apresentado originalmente na Turquia no mês passado, conclui que a crescente divisão entre Ocidente, em sua maioria cristão, e as sociedades islâmicas não é religiosa nem cultural, mas essencialmente política. Preparado por um grupo de alto nível de 20 líderes políticos, acadêmicos, da sociedade civil, das finanças internacionais e da imprensa de todo o mundo, o plano propõe esforços globais mais intensos para fomentar a tolerância e acabar com os estereótipos que exacerbam as tensões entre as sociedades.

“Neste período de crescentes tensões nenhum de nós deveria simplesmente fazer exortações laterais à coexistência pacífica e depois seguirmos com nossa vida como sempre. Devemos fazer um esforço ativo para aprender de cada um a entender a fonte de nossas diferenças”, disse Annan. Como o secretário-geral, os patrocinadores da iniciativa, Espanha e Turquia, renovaram seus apelos para um apoio à Aliança de Civilizações. “Chegou o momento de agir e assumir a responsabilidade. Nossas ações na fase de implementação serão a evidência concreta de nossa vontade sobre este tema”, disse o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan.

Rechaçando a idéia de um “choque de civilizações”, Erdogan disse que as “crescentes disparidades e injustiças, bem como os temores e suspeitas exageradas, alimentam o ódio mútuo, os preconceitos e a intolerãncia que prevalecem em todo o mundo”. O primeiro-ministro também disse que nenhum ideal de paz pode ser pleno sem antes chegar aos corações das pessoas, e acrescentou que a verdadeira confrontação é entre “os voluntários do amor e os soldados do ódio”. Citando Rumi, poeta e filósofo muçulmano do século XII, afirmou: “O centro de toda fé pura é o amor. A paz deve, primeiro, criar raízes nos corações dos seres humanos”.

Por sua vez, o primeiro-ministro da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, afirmou que o informe é “uma ferramenta de esperança” e, rechaçando o conceito de choque de civilizações, afirmou que o mundo precisa buscar terrenos comuns para um entendimento. “Estamos aqui para o batismo formal do projeto. Agora estamos cumprindo uma nova fase, com o objetivo de fortalecer alianças, somando esforços que podem se traduzir em ações concretas para contribuir com a paz e impulsionar o diálogo entre civilizações”, afirmou Zapatero.

O informe reconhece que as desavenças entre as sociedades ocidentais e muçulmanas se agravaram pelas intervenções militares no Afeganistão e Iraque, bem como pela falta de progresso na resolução da crise árabe-israelense. “Podemos pensar que está última seja mais um conflito regional entre muitos, mas não é. Nenhum outro conflito tem uma carga simbólica e emocional tão poderosa entre os povos muito distantes do campo de batalha”, disse Annan. O trabalho estabelece uma série de propostas concretas em matéria de educação, meios de comunicação, juventude, migrações, incluindo até co-produções para a televisão e o cinema que superem fronteiras religiosas e culturais, destinadas a mostrar a diversidade como uma característica das sociedades humanas.

Em nome da União Européia, o enviado da Finlândia, Kristi Lintonen, disse que as nações do bloco recebiam o projeto como “uma importante contribuição para uma plataforma comum de unidade em níveis local, nacional e regional”. Lintonen disse que a comunidade internacional deve desenvolver um “impulso público que rechace o extremismo”, com compromissos e uma “política muito ativa”, para incrementar o entendimento mútuo. O enviado finlandês assegurou que a Aliança de Civilizações poderia receber contribuições construtivas da UE, que já leva adiante várias ações visando o diálogo entre culturas. O bloco elegeu 2008 como o Ano Europeu do Diálogo.

A Europa conta com exemplos de iniciativas semelhantes, como o Processo de Helsinque sobre Gestão da Globalização, liderado por Finlândia e Tanzânia desde 2003, e a iniciativa dinamarquesa Coexistência de Civilizações. Para Lintonen, estas iniciativas refletem “a alta prioridade que damos à integração dos povos de todas as religiões e sociedades, bem como à preservação dos valores universais essenciais, como a tolerância, a diversidade e o diálogo pacífico”. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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