Desafios 2006-2007: Inimigo dos EUA no Iraque é uma incógnita

Washington, 02/01/2007 – Este ano surgiu uma guerra religiosa no Iraque e houve um recrudescimento do conflito, muito mais aberto, entre xiitas e sunitas no mundo árabe. Os regimes sunitas do Oriente Médio manifestaram crescente ansiedade pela possibilidade de os choques entre sunitas e xiitas no Iraque se propagarem aos seus países, bem como pelo aumento da influência do regime islâmico no Irã em todo o mundo. Nesse panorama, o mais inquietante da política externa de Washington é sua incapacidade para identificar o inimigo no Iraque.

É a rede terrorista islâmica Al Qaeda? O presidente George W. Bush costuma dizer que sim, para convencer o público de seu país de que deve derrotar o inimigo no Iraque para não sofrer seus embates em seu próprio território. São as milícias sunitas, alvo original da fracassada guerra contra-insurgente? Ou é o Exército Mahdi do clérigo xiita Moqtada al Sadr, implicado nas matanças em grande escala de sunitas em Bagdá e que está aliado com o Irã em seu conflito com os Estados Unidos?

E o que dizer da Organização Badr, responsabilizada por seqüestros em massa, tortura e limpeza étnica de sunitas nos bairros xiitas da capital iraquiana? Por acaso a atividade dos Estados Unidos no Iraque se refere à guerra mundial contra o terrorismo, o perigo que surge dos choques religiosos ou, simplesmente, ao desejo do governo Bush de atribuir-se um triunfo contra a mera resistência à ocupação? Washington não pôde dar uma resposta política clara a esta pergunta.

A fonte original da confusão governamental sobre o inimigo primário no Iraque é a decisão de vender a guerra contra-insurgente ao público norte-americano em 2004 e 2005 como uma luta entre o Estado com as agruras de uma democracia e forças antidemocráticas. Este argumento público deixou nas sombras a realidade subjacente de uma luta sectária pelo poder, complicada pelo desejo de vingança dos partidos xiitas armados contra os sunitas, que dominaram o país durante boa parte da história moderna do Iraque e o abusivo regime de Saddam Hussein (1979-2003).

Desafortunadamente, a Casa Branca e o Pentágono parecem ter se convencido com sua própria propaganda. O governo foi reticente em admitir a evidência inequívoca de violência de milícias xiitas contra a população sunita quando surgiram os primeiros sinais fortes em 2005. O ex-primeiro-ministro interino iraquiano Iyad Allawi lamentou publicamente em meados deste ano a falta em Washington de uma “visão e uma política claras” que cortasse a espiral de violência.

Este déficit da política norte-americana foi conseqüência da prioridade dada à derrota da resistência sunita, esforço que necessitou de uma aliança com forças xiitas participantes da violência paramilitar contra os sunitas. Mas em 2005, ficou cada vez mais claro que essa aliança era sem êxito, porque a resistência, mais do que enfraquecer, se fortalecia. No segundo semestre desse ano, o embaixador dos EUA no Iraque, Zalmay Khalilzad, se convenceu de que seu país deveria aplicar os sunitas através de concessões políticas e não por uma derrota militar.

Outras influentes personalidades do governo Bush, incluindo o vice-presidente, Dick Cheney, e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, responderam que a resistência sunita tinha o único objetivo de recuperar o poder, e advertiram que não havia acordo possível com ela. Mas Khalilzad conseguiu certo apoio de Bush. Em janeiro de 2006, participou das negociações diretas com grupos armados representativos da coalizão sunita contra a ocupação norte-americana.

Funcionários dos Estados Unidos em Bagdá foram ainda mais longe e caracterizaram esses insurgentes como nacionalistas legítimos enfrentados com a Al Qaeda. As negociações, nunca admitidas por Washington, mas confirmadas em detalhe por sunitas participantes, tinham o objetivo de por fim à resistência em troca do reconhecimento de interesses políticos básicos dessa comunidade e da integração de suas milícias ao novo exército iraquiano.

Um acordo nesse sentido teria sugerido que o verdadeiro inimigo eram as forças xiitas alinhadas com o Irã, no momento em que o governo Bush pressionava Teerã para que suspendesse seu programa de desenvolvimento nuclear com a ameaça de que a “opção militar” continuava em pauta. Os sunitas asseguraram ter proposto a Khalilzad acabar com as milícias xiitas em Bagdá com ajuda norte-americana. Essa versão ganhou credibilidade com a pressão do diplomata para que os políticos xiitas aplacassem as milícias dessa comunidade no final de 2005 e começo de 2006.

O acordo ficou no meio do caminho pela reticência norte-americana em aceitar a reclamação sunita de um cronograma flexível para a retirada das tropas estrangeiras do Iraque e condicionado ao fortalecimento do novo exército nacional. Depois de dar voltas à estratégia sunita durante três meses, Bush decidiu deixá-la de lado em março deste ano. Mas, desde então, a definição do inimigo no Iraque ficou sem solução para Washington.

Os milagres da linguagem permitiram aos militares norte-americanos manter a guerra contra a resistência sunita, ao mesmo tempo em que apoiavam o argumento de Khalilzad, segundo o qual o principal problema não eram essas milícias, mas a Al Qaeda, por um lado, e os rebeldes xiitas por outro. A onda de violência entre comunidades religiosas começou no final de fevereiro. A quantidade de vítimas civis desses choques na área de Bagdá aumentou de 1.778, em janeiro, para 3.149, em junho, e chegando a 3.709 em outubro, segundo a Organização das Nações Unidas.

A idéia generalizada de que o Irã já havia afundado em uma guerra civil de caráter religioso obrigou o governo Bush a fazer algo a respeito. O comando militar norte-americano no Iraque acrescentou 15 mil soldados às suas tropas em Bagdá para melhorar a segurança. Por sua vez, Bush anunciou o envio de 40 mil soldados adicionais ao Iraque em 2007. Mas seu governo não se mostra disposto a identificar o objetivo contra o qual deve mirar. (IPS/Envolverde)

(*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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