Desafios 2006-2007: Narcotraficantes impunes

Montevidéu, 08/01/2007 – A coca floresce no mundo andino, se reduz um pouco ali e aumenta um pouco aqui. O narconegócio na América Latina passa de poucas para muitas mãos; se diversifica em rotas, produtos e subprodutos; incorpora novos cenários. Mas, não dá sinais de diminuir. Quando em 1995 soube-se que haviam sido presos os chefes do Cartel de Cáli, os irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez Orejuela, hoje à disposição da justiça norte-americana, houve uma explosão de alegria no povoado de Calamar, departamento de Guaviare, na época principal zona de coca da Colômbia.

Essas detenções marcavam o fim do monopólio desse cartel na compra de pasta de coca (matéria-prima da cocaína) que era produzida na região, contou na oportunidade à IPS o jornalista norte-americano Alan Weisman, testemunha da comemoração. Com o aniquilamento das grandes máfias “surgiram muitos cartéizinhos” de baixo perfil, disse à IPS Francisco Thoumi, doutor em economia da Universidade de Minnesota e diretor do Centro de Estudos e Observatório de Drogas e Delito da Universidade del Rosario (CEODD, de Bogotá).

“Até certo ponto se democratizou a indústria e aumentou a violência interna. Estes pequenos cartéis encontraram dificuldades para ter braços armados. Então, começaram a subcontratar” a custódia de plantações, laboratórios e rotas ao grupo armado que imperava em uma determinada região, neste país que há mais de quatro décadas está em guerra civil, explicou. A guerrilha esquerdista e os paramilitares ultradireitistas se deram conta de que eram mais poderosos do que quem os contratava. Assim, “tanto as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) quanto os paramilitares acabaram eliminando os intermediários e se convertendo nos elementos-chave do negócio”, segundo Thoumi.

Pela estimativa do CEODD, os produtores de coca de Calamar agora não têm o que comemorar. “Os preços em dólares da cocaína no atacado nos Estados Unidos constantes desde os anos 80 até hoje caíram 90%”, disse Thoumi, contrariando outras fontes consultadas para está matéria. Está queda obedece ao crescimento da produção, “muito mais do que à demanda, especialmente nos Estados Unidos”, país que estaria absorvendo “entre 35% e 40% da cocaína consumida no mundo, não mais”, acrescentou.

O Escritório das Nações Unidas para Droga e o Delito (Unodc) calcula que existem 86 mil hectares de cultivos ilegais na Colômbia, que geram cerca de US$ 450 milhões. “Isso seria repartido entre traficantes, paramilitares, guerrilheiros, subornos, camponeses, matéria-prima e precursores” químicos. “Com base nisso, não se pode afirmar que a droga é a maior fonte de financiamento do conflito armado colombiano”, afirmou Thoumi. Em setembro passado, autoridades uruguaias descobriram um carregamento de mais de 340 quilos de cocaína boliviana, que um grupo dirigido por colombianos e integrado por uruguaios e gente de outras nacionalidades, se preparava para embarcar com destino à Europa.

Essa foi a maior apreensão na história desse país. Além disso, “pudemos desarticular a operação em todo seu esquema, desde a produção ao transporte, até à lavagem de dinheiro”, disse à IPS o inspetor Julio Guarteche, chefe da Direção Geral de Repressão do Tráfico Ilícito de Drogas. Presume-se que cargas semelhantes passem pelo país. “O Uruguai é objetivo de grupos colombianos. O narcotráfico local se vincula com máfias transnacionais: colombianos, peruanos, bolivianos, paraguaios, brasileiros, russos, nigerianos”, acrescentou Guarteche.

Este pequeno país, com apenas 3,2 milhões de habitantes, não produz, mas é consumidor e local estratégico para a saída a ultramar, além de ter um papel na lavagem de dinheiro cuja dimensão não está clara. “Em 2004, a maior operação da Áustria em toda sua história foi organizada no Uruguai e nós a monitoramos. Passamos toda a informação a colegas de outros países, o que permitiu desbaratar o trânsito da cocaína desde o Peru, passando pelos Estados Unidos, até a Áustria”, afirmou o inspetor. Segundo seus dados, o preço da cocaína se mantém constante aqui: a de boa qualidade custa entre US$ 6 mil e US$ 7 mil o quilo e é vendida na Europa a 30 mil euros.

Na Argentina, a irrupção da pasta base de cocaína – segundo diferentes estudos, produto intermediário na elaboração da cocaína ou resíduo da mesma – se vincula a uma nova “territorialização” no Cone Sul americano em toda a cadeia: produção, trânsito e consumo, disse à IPS o advogado Alejandro Córdoba, da Associação Civil para o Estudo e Prevenção de Problemas Relacionados com as Drogas. A obtenção de cocaína a partir da coca plantada na Colômbia, Bolívia e no Peru tem, pelo menos, duas etapas diferenciadas: a maceração das folhas para obter a pasta básica e o refino que dá lugar ao cloridrato de cocaína ou cocaína seca. A primeira tradicionalmente acontece perto dos locais de cultivo, enquanto a segunda se concentrou tempos atrás, sobretudo, em laboratórios da Colômbia, segundo o advogado.

Em razão da guerra ao narcotráfico, com a entusiástica liderança de Washington, o processo foi dividido em mais etapas e procedimentos, dando lugar a novos subprodutos que, com nomes semelhantes ou parecidos e conteúdos diversos, alimentam mercados nacionais de drogas baratas em seu caminho rumo às grandes mecas do mundo rico. Desde 2000, surgem cada vez mais laboratórios de cocaína na Argentina. Os subprodutos desse refino são vendidos localmente como “paco”. No Uruguai, Guarteche vincula o auge da pasta base à crise econômica de 2002, que afetou o narcotráfico “como a qualquer outra atividade econômica”.

“Muitos que haviam comprado cocaína se endividaram e não tinha como pagar. Então, começaram a trazer mais pasta base, mais barata. Se conjugaram a crise econômica, por um lado, e o acesso pela primeira vez de setores pobres a uma droga que os pegou forte”, acrescentou. Mas, estima que “o auge da onda da pasta base passou”. Para o advogado Cristiano Maronna, do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, com sede em São Paulo, o Brasil continua sendo território de “passagem obrigatória” entre os produtores andinos e a Europa e os Estados Unidos. Mas, também “se afirma como pólo consumidor na América Latina”. Os brasileiros produzem maconha e drogas sintéticas.

Maronna atribui a incapacidade das autoridades ao fato de a repressão se concentrar no comércio varejista das áreas mais pobres das grandes cidades, onde a polícia apreende cada vez mais quantidade de drogas sem reduzir sua oferta, em uma ação de “enxugar gelo”, disse. Um fato grave no combate ao problema é a condenação judicial de usuários como se fossem traficantes, o que leva à “prisão em massa” de pessoas. Está é uma das causas da superpopulação nas prisões. Uma nova lei, aprovada em agosto, aumentou o castigo pelo tráfico de três para cinco anos de prisão, impedindo a aplicação de penas alternativas.

Para Hernán Peñafial, advogado-chefe da Divisão de Controle de Tráfico Ilícito de Estupefacientes do Conselho de Defesa do Estado do Chile, a categoria “acadêmica” de país produtor, de trânsito ou de consumo ainda tem validade, porque permite simplificar o fenômeno em sua característica predominante. O território chileno é de trânsito, com as organizações criminosas dos países produtores aproveitando sua forte estrutura exportadora, menos controlada desde o exterior. Mas, “o Chile tem um papel importante na questão dos precursores químicos, de fácil produção e ainda de incipiente controle”, afirmou.

O consumo é relativamente menor, embora admita matizes, disse Peñafiel. As zonas pobres da capital são vulneráveis à pasta base do Peru, um fenômeno que se acentuou gravemente nos últimos anos e agora parece estar diminuindo. “Há cerca de 15 ou 20 anos no México, o consumo era reduzido e localizado em cidades fronteiriças com os Estados Unidos e centros turísticos. Hoje, a história é outra”, afirma o especialista em temas de segurança da Universidade Autônoma Metropolitana, José Luis Piñeyro.

O México aparece como potência emergente, com uma incidência importante em toda a cadeia. Quase nenhum distrito está livre. E se consome muito mais, tanto drogas “naturais” quanto sintéticas. O governo explica o auge porque selou a fronteira com o grande mercado do norte. Meia verdade, segundo Piñeyro. “Se generalizaram as redes de distribuição com milhares de ‘lojinha’ dirigidas por famílias”, para as quais é uma forma de sobreviver. Os atores se multiplicam.

As alianças com os cartéis sul-americanos são “evidentes”, mas, “o que não se diz é que também existem as máfias norte-americanas”, afirma Piñeyro. “Existe corrupção “narco” na polícia e em alguns municípios. “O curioso é que estes pareceriam ser os únicos, o que duvido. No sistema financeiro e nos círculos de poder o narcotráfico está envolvido, mas, quase nunca vemos pessoas detidas ali”, ressaltou.

O Peru passou de fornecedor de pasta básica a importante produtor de cocaína, reconheceu o presidente da Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas, Rómulo Pizarro, responsável pela aplicação das políticas antidrogas no país. “Segundo a Unodc, em 2005 foram produzidas 180 toneladas de cocaína, das quais foram apreendidas apenas 13 toneladas”, acrescentou. No mercado norte-americano, essas 180 toneladas alcançam um valor de US$ 4,140 bilhões.

Porém, a Unidade de Inteligência Financeira detectou apenas 21 casos de lavagem de dinheiro da droga, no valor de US$ 379 milhões, apenas 9,1% do que as máfias movimentam em um ano. Pizarro assinala o surgimento de organizações peruanas que exportam para os Estados Unidos e a Europa em sociedade com intermediários mexicanos ou colombianos. “Os representantes dos cartéis estrangeiros garantem o financiamento, a produção e o traslado da droga. Anualmente são desbaratadas de 10 a 15 organizações nacionais. Integrantes do cartel mexicano de Tijuana são julgados no Peru”, explicou Pizarro. Se está ganhando ou perdendo a guerra? “O motor é o vício. Mas, isso não se acerta com repressão”, afirma o uruguaio Guarteche. (IPS/Envolverde)

(*) Colaborações de Marcela Valente (Argentina), Mario Osava (Brasil), Daniela Estrada (Chile), Constanza Vieira (Colômbia), Diego Cevallos (México) e Ángel Páez (Peru)

Diana Cariboni

Diana Cariboni es editora jefa asociada de IPS desde junio de 2010 y jefa de redacción del servicio mundial de noticias en español y de América Latina desde marzo de 2003. Desde 2007 edita el premiado servicio semanal sobre ambiente y desarrollo sostenible Tierramérica, que publican más de 20 periódicos de América Latina. Encabezó los equipos que cubrieron las negociaciones de cambio climático de Copenhague y de Cancún, en 2009 y 2010, y la cumbre Río+20, en 2012. Ha entrenado a decenas de periodistas de América Latina y enseñó periodismo en la Licenciatura de Comunicación de la Universidad ORT de Uruguay. En 2007 obtuvo con su colega Constanza Vieira la Beca AVINA de Investigación Periodística en Desarrollo Sostenible por el proyecto La riqueza inverosímil del Chocó. Se inició como periodista en 1992, trabajando para varios medios uruguayos, como los diarios El Observador y El País y las radioemisoras Sarandí y Setiembre FM. Se especializó en tecnología, ciencia y salud pública. También escribió sobre política internacional, economía y ambiente para distintas publicaciones del Instituto del Tercer Mundo. Es casada, tiene cinco hijos y una nieta. Nació en Argentina en 1962 y se mudó a Uruguay en 1984. Trabaja para IPS desde 2001. Puedes escribirle a dcariboni@ips.org o seguirla en @diana_cariboni

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