Nairóbi, 23/01/2007 – “Nos disseram para virmos aqui porque era uma celebração para acabar com a pobreza”, disse Edward Njeru, condutor de um tuktuk, veículo de três rodas usado como táxi em áreas urbanas do Quênia, referindo-se ao Fórum Social Mundial, que acontece em Nairóbi.
A manifestação com tuktuks e bodas bodas aconteceu sob o lema do sétimo FSM: “A luta dos povos, as alternativas dos povos”. O encontro em Nairóbi, que começou no sábado e terminará na quinta-feira, atraiu milhares de delegados de todo o planeta, reunidos para denunciar as injustiças sociais que continuam afligindo países em desenvolvimento, particularmente na África.
Um colorido mar de gente invadiu o parque Uhuru. Os manifestantes carregavam cartazes com dizeres contra a pobreza e dançando ao som de ritmos caribenhos e africanos. A mobilização no parque foi antecedida por uma caminhada pelo assentamento de Kiberia, cerca de sete quilômetros a sudoeste de Nairóbi. Trata-se do maior assentamento do país e de todo o Chifre da África, com uma população superior a 700 mil pessoas.
Os delegados enfrentaram cara a cara a pobreza: choças de barro, carência total de saneamento, mau cheiro dos riachos contaminados, falta de caminhos e de serviço de todo tipo. No parque, todos os oradores acusaram os países ricos de adotarem políticas prejudiciais para as nações em desenvolvimento e que somente perpetuam a pobreza. “Sabemos que mundo queremos, um em que exista respeito, e não dominação por parte do Ocidente. Um mundo em que não existam dívidas que permitam essa dominação”, afirmou o brasileiro Chico Whitaker, membro do Conselho Internacional do FSM. De acordo com ativistas, os países africanos gastaram cerca de US$ 15 bilhões ao ano no pagamento de sua dívida externa, em um continente onde mais da metade da população vive abaixo da linha de pobreza.
A África também tem os mais altos índices de analfabetismo e contagio da aids. Analistas afirmam que está situação poderia ser revertida se os governos gastassem mais dinheiro na área da saúde, educação e outros serviços públicos, em lugar de destinar os recursos ao pagamento da dívida. O tema da aids dominou os discursos no parque Uhuru. Os oradores coincidiram em que a luta contra a doença é o maior desafio dos países, e propuseram vias de solução. “A chave para enfrentar este problema é a prevalência, porque prevenir é melhor do que curar. Devemos recordar a importância de se fazer exames e pedir assessoramento voluntariamente”, disse Kenneth Kaunda, primeiro presidente e fundador de Zâmbia.
“Constatar o estado de saúde das pessoas e falar abertamente sobre isso reduzirá o estigma. Não estou lhes dizendo algo que eu já não tenha feito”, disse Kaunda, que se submeteu a um exame em 2002 depois que seu filho morreu de aids. Enquanto isso, cada região do mundo elabora iniciativas para enfrentar a doença. No Brasil são distribuídas camisinhas com poemas nos quais se informa os perigos do HIV (vírus causador da aids). A “camisinha poética” é um projeto de Ramos Filho, poeta e professor de Direito de Santa Catarina.
“O alto número de casos de HIV é um alerta de que existe a necessidade de fazer algo de forma urgente. Comecei a distribuir camisinhas com mensagens poéticas em todo o Brasil com o objetivo de informar a população”, disse Filho à IPS no parque, onde também distribuiu preservativos. O Comitê Organizador do FSM 2007 espera que sejam apresentas mais iniciativas como está durante o encontro. “Esperamos que as pessoas questionem o mundo em que vivem e apresentem alternativas para criar um mundo melhor”, disse à IPS Oduor Ong’wen, membro do Comitê. (IPS/Envolverde)


