Petrosani, Romênia, 09/02/2007 – A cidade romena de Petrosani, de aproximadamente 50 mil habitantes, é uma crua representação das conseqüências da abrupta passagem de um regime socialista para um capitalismo desenfreado. O governo da Romênia anunciou que até 2020 suprimirá quatro mil empregos na mineração do vale do Jiu, o que porá fim ao processo de reforma iniciado em meados da década de 90. Nesse processo, três em cada quatro minas de carvão da região foram declaradas não-rentáveis e fechadas.
Entre 2004 e 2006, cerca de 30 mil pessoas ficaram sem trabalho. Petrosani, 350 quilômetros ao norte de Bucareste, é o principal povoado dos seis localizados no vale do Jiu, de onde se extrai a maior parte do carvão da Romênia. “Algumas das minas fechadas necessitavam de muito pouco investimento para continuarem funcionando de forma adequada”, disse Iacob, ex-eletricista de uma delas. Porém, os radicais acordos de reform assinados em 1997 pelo governo com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial não repararam nesses detalhes.
Depois da queda do bloco socialista europeu em 1989, todos seus governos, independente de sua orientação política, adotaram um padrão de reformas de cunho ocidental. Nem mesmo os social-democratas, mais sensíveis a questões de justiça social, perceberam o impacto negativo de algumas das medidas incluídas nos pacotes de reforma assinados com os organismos multilaterais de crédito. Muitos setores foram afetados pela reestruturação da economia. Porém, a luta dos mineiros do vale do Jiu não consegue a simpatia da maior parte da população.
Os mineiros são vistos com suspeita por sua participação na repressão das manifestações a favor da democracia no início dos anos 90. o então presidente Íon Iliescu (1990-1996 e 2000-2004) pediu aos seus líderes que se dirigissem a Bucareste para sufocar os protestos. “Agora, que apodreçam em Petrosani. Quando em 1990 vieram aqui para bater em estudantes pensavam que teriam o poder para sempre. Merecem o que estão passando”, disse Manuela, uma universitária de Bucareste. Isso “que os mineiros estão passando” é pobreza e exclusão social.
Outrora prospera, Petrosani é hoje um povoado fantasma. Não há outra atividade produtiva e os trabalhadores que ficaram sem emprego não podem conseguir outro. “Eu tinha 17 anos quando fecharam a mina. Havia começado a trabalhar há um ano. Mas, logo me dei conta de que não teria sorte, a menos que fosse para outro lugar”, contou Lucian, um operário da construção de 24 anos. Muitos jovens abandonaram Petrosani nos anos 90. Não há muito para dizer do que deixaram para trás. De dia, os moradores conversam nos parques, pois não devem se apressar para chegar ao trabalho. Há pouco dinheiro para gastar e, por isso, a indústria do entretenimento não existe.
Petrosani é uma cidade cinza, dominada por decrépitos edifícios da característica escola arquitetônica socialista. Muitas famílias vivem em condições de extrema pobreza. Em uma zona chamada “a colônia”, os moradores vivem em apartamentos sem água, eletricidade e calefação. Às vezes, tampouco têm janelas nem paredes. “Se que ver como é a vida de um ex-mineiro precisa ir à colônia. Ali é possível ver a tragédia, mas, muitos não se animam a ir por medo”, explicou um morador do centro da cidade.
A estrutura trabalhista local deixou a população em uma situação muito vulnerável diante de qualquer modificação no sistema de produção do carvão. Porém, as mudanças não foram antecipadas na Romênia comunista, que gradualmente passou a ter uma economia fechada, muito dependente da exploração de seus recursos minerais. Em 1989, ocorreu o fim do regime comunista e o equilíbrio do sistema centralizado caiu. A tarefa mais difícil, ainda sem solução, é a recolocação dos trabalhadores dos setores afetados em outras áreas de atividade. Alguns ex-mineiros rejeitaram as ofertas que receberam.
Depois de anos trabalhando em um dos setores mais pujantes da economia, desistem de aceitar salários menores em outras áreas de atividade. Muitos mineiros de Petrosani aderiram ao plano de demissão voluntária, estabelecido pelo governo em 1997, e receberam uma indenização entre 12 e 20 meses de salário. Alguns usaram o dinheiro para iniciar um negócio próprio. O restante sentiu-se enganado, já que o dinheiro acabou. “Decidimos aderir ao plano porque pensávamos que era uma quantia maior e também porque havia muita pressão da imprensa e do governo para que deixássemos o emprego e procurássemos novas colocações”, contou um ex-mineiro.
A maioria dos moradores de Petrosani perdeu as esperanças. Somente os jovens têm motivos para otimismo. Lucian está decidido a ficar no povoado com sua mulher grávida. Acredita que poderá ter uma vida decente apenas porque trabalhou na Espanha e Itália e aprendeu a construir casas, disse à IPS. “As casas não são para moradores de Petrosani, mas para empresários de Bucareste que querem passar férias nas montanhas do vale do Jiu”, disse, rindo. (IPS/Envolverde)

