Energia-América do Sul: Dependência, não integração

Rio de Janeiro, 22/02/2007 – A produção e distribuição de energia não necessariamente incentiva a integração entre países pobres da América do Sul, mas uma relação de dependência, com disputas, ressentimentos e afastamento entre os povos. O fenômeno oferece fortes argumentos para formadores de opinião antiimperialistas, ou imperialistas, segundo o caso. “Não somos os imperialistas que alguns dizem que somos. Tampouco hegemônicos, como alguns querem que sejamos”, disse o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao anunciar o acordo que aumenta o preço do gás natural importado da Bolívia, assinado na quinta-feira passada com seu colega boliviano, Evo Morales. Mas, não há remédio.

Por um lado, uma posição flexível do Brasil em relação aos vizinhos intensifica no país o clamor de críticos que acusam o governo de seguir uma política externa equivocada, de indevidas concessões a governos “populistas” e de renúncia aos interesses nacionais. De outro, a satisfação das demandas desses críticos internos alimenta denuncias “contra o imperialismo brasileiro” a partir do exterior. A energia é o item mais delicado. A integração energética continua presente na retórica, mas, contradiz a realidade.

O gás natural se converteu em um açoite para o governo “irmão” de Evo Morales, a quem Lula e o Partido dos Trabalhadores apoiaram sem vacilar até sua consagração nas urnas, em dezembro de 2005. O mais popular aspirante à Presidência para as eleições de abril de 2008 no Paraguai, o ex-bispo católico Fernando Lugo, defende a revisão do tratado assinado em 1973 que rege a gigantesca hidrelétrica de Itaipu, inaugurada em 1984, na fronteira. Segundo a iniciativa de Lugo, o preço da eletricidade que o Paraguai vende ao Brasil seria multiplicado por sete.

Itaipu é compartilhada em suposta igualdade. A cada país corresponde a metade da energia gerada, mas o Paraguai consome apenas 5% de sua parte e exporta o restante ao Brasil, pois o tratado proíbe a venda a terceiros países. Lugo não é o primeiro paraguaio que acusa o Brasil de pagar muito barato pela energia, sugerindo a existência de relações imperialistas. É “um preço de custo”, que, para ser justo, deveria ser o de mercado, sete vezes superior, segundo o possível candidato. Sua vitória criaria novos problemas para Brasília.

Os 14 mil megawatts de Itaipu representam cerca de 15% da capacidade de geração em um Brasil ávido por energia para sustentar o crescimento econômico, o qual pretende aumentar 5% ao ano, para afastar o risco de apagões como o de 2001. o Brasil depende da eletricidade Paraguai e encarecê-la não é uma alternativa aceitável para a população, que suporta o custo crescente da energia, nem para a indústria, que tenta sobreviver com uma competitividade golpeada pela valorização do real. Porém, a energia de Itaipu e o gás natural representam oportunidades singulares para tirar da extrema pobreza milhões de paraguaios e bolivianos.

Um discurso com a intenção de aumentar o preço da energia vendida ao Brasil tem força eleitoral. Isso constitui uma pressão adicional para os governantes de esquerda ou direita desses países pobres e de limitadas possibilidades econômicas. A dependência do gás natural boliviano ficou dramática para o Brasil depois da nacionalização hidrocarbonetos decidida por Morales no dia 1º de maio de 2006. A quantia de gás importado chegou a 26 milhões de metros cúbicos diários no ano passado, a metade do consumo brasileiro. Esse produto abastece milhares de indústrias no centro e sul do País, bem como muitas centrais termoelétricas consideradas indispensáveis no plano energético nacional.

O aumento de preços que resultará dos acordos da semana passada em Brasília, estimado em 6%, preocupa a indústria da cerâmica, uma atividade que depende do gás natural. Em Santa Catarina, empresários do setor pensam em acelerar estudos para a produção de gás a partir do carvão mineral, abundante no Estado. Mas, trata-se de uma alternativa de muito longo prazo. Muitas termoelétricas deixaram de operar por falta de combustível. A Petrobras, que assinou o contrato para importar gás boliviano e construiu o gasoduto entre os dois países, com 3.150 quilômetros de extensão, acelerou seus planos de extrair mais gás natural em território brasileiro.

Porém, a auto-suficiência nacional somente será alcançada na próxima década, na melhor das hipóteses, ou será inatingível, na pior, sustentada por muitos especialistas. Enquanto isso, o gás boliviano abastece de argumentos os opositores da política externa de Lula, que reclamam mão dura com os vizinhos e apontam para os grandes mercados do Norte rico, especialmente o dos Estados Unidos. A reação diplomática de Brasília diante da nacionalização dos hidrocarbonos no ano passado foi reconhecer o direito soberano do país vizinho sobre seus recursos naturais. Isso desatou no Brasil uma onda de críticas de claro tom imperialista. “Não podemos invadir a Bolívia”, afirmou na época o chanceler Celso Amorim.

O acordo assinado com Morales renovou as acusações contra a suposta política externa “ideológica” de Lula. O Brasil aceitou pagar uma quantia adicional por gases “nobres” que vêm misturados com o metano, componente básico do gás natural. Trata-se do etano, butano, propano e gasolina natural, que têm maior poder calorífico e melhores preços no mercado. O governo brasileiro aceitou pagar o preço do mercado internacional por esses gases, o que representará uma renda adicional para a Bolívia de US$ 100 milhões, segundo o ministro de Hidrocarbonos desse país, Carlos Villegas.

No ano passado o Brasil pagou pelo gás boliviano US$ 1,251 bilhão. Além disso, o governo da Bolívia obteve um aumento de preços para outro contrato privado, pelo qual fornece gás a uma termoelétrica de Cuiabá (MS). Nesse caso, o aumento de US$ 1,19 por milhão de unidades térmicas britânicas (BTU) para US$ 4,20 representará outros US$ 44 milhões anuais de renda, segundo Villegas.

Serão custos adicionais para o Brasil. O País dispõe não conta com centrais para separar os diversos componentes do gás natural, e se vê estimulado a implantar um pólo gás-químico na fronteira para aproveitar os gases nobres, em beneficio dos dois países. O provável aumento dos preços do gás e da eletricidade gerada em centrais termoelétricas ampliara as críticas dos por consumidores brasileiros contra a “generosidade” do governo em suas relações com vizinhos mais pobres.

Morales continua desenvolvendo “sua estratégia de enfraquecer a posição brasileira”, com “conselhos e recursos do coronel Hugo Chávez e de Fidel Castro, de quem é discípulo dileto”, escreveu o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia no jornal O Estado de S. Paulo na sexta-feira. O “toureiro de 1,2 metros”, isto é, a Bolívia, continua deixando tonto o touro de 800 quilos, o Brasil, comparou Lampreia. O problema é que, para “não parecer imperialista e hegemônico, o governo se esquece de proteger os interesses dos brasileiros”, afirmou um editorial deste jornal conservador. Como tais interesses contrariam os de países fornecedores de insumos energéticos ao Brasil, tende a agravar-se a divergência de opiniões públicas de países que Lula pretende integrar na Comunidade Sul-americana de Nações. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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