Washington, 26/02/2007 – O Banco Mundial já escolheu seu futuro diretor residente no Iraque, segundo fontes da instituição. Se a designação se concretizar, haverá uma tempestade de críticas sobre seu presidente, o ex-subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz.
A designação indicaria a intenção do Banco de destinar novos empréstimos ao Iraque, país ocupado pelos Estados Unidos onde a insegurança impera e cujos esforços de reconstrução são alvo de acusações de corrupção. E Wolfowitz foi um dos principais arquitetos da guerra lançada por Washington, desde seu escritório de subsecretário de Defesa. Bea Edwards, do não-governamental e norte-americano Projeto de Responsabilidade do Governo (GAP), considerou que “isto é exatamente o que não deveria fazer e o que a Junta de Governadores do Banco temia que fizesse”.
O objetivo por trás da nomeação de um diretor residente do Banco no Iraque do reinicio dos créditos seria “baixar a temperatura do Tesouro” (ministério da Fazenda dos Estados Unidos) “e a política” de Washington em relação a esse país do golfo Pérsico, ou Arábico. “A evidente determinação de Wolfowitz em usar o Banco para promover questionáveis objetivos militares norte-americanos no Oriente Médio é uma deformação fundamental da missão da instituição, uma violação de suas normas funcionais e um insensato desperdício de recursos de doadores”, advertiu Edwards em uma declaração anterior.
Uma norma do Banco, o Procedimento 2.30 sobre Cooperação para o Desenvolvimento e Conflito, obriga o organismo a preparar um “informe de observação” antes de operar em um país que sai de um conflito. Depois de apresentado o informe, o Banco deve desenvolver uma estratégia de apoio de transição e participar da reconstrução. Somente então o país poderá começar a receber empréstimos. Ao contrário do Escritório Interino do Banco para o Iraque, hoje sediado em Amã, um diretor residente manejaria apenas os assuntos desse país baseado em Bagdá e seria o primeiro a filtrar a informação a respeito, segundo o GAP, que cita fontes internas do organismo.
Outros informantes de dentro do Banco asseguraram que o novo diretor residente já está escolhido e que as autoridades da instituição conversaram com ele em janeiro e início deste mês. Os informantes disseram que representantes do Banco negociam os termos do contrato com o candidato, que tem certa experiência em regiões que passaram por conflitos e que fala um pouco de árabe. Estes fatos desagradaram membros da Junta de Governadores do Banco, formada por representantes dos países-membros, e altos funcionários preocupados com a segurança do pessoal e a corrupção no Iraque.
Estas preocupações têm origem em numerosos informes de trabalho em más condições, má administração e abusos trabalhistas por parte de contratados privados convocados para a reconstrução do país. Quando Wolfowitz foi designado para dirigir o Banco, em junho de 2005, houve protestos na Junta por sua participação no planejamento da guerra do Iraque. No último ano e meio, Wolfowitz teve um papel discreto na matéria e tentou moderar publicamente suas inclinações ideológicas neoconservadoras.
A Junta do Banco divulga periodicamente declarações oficiais – uma medida muito incomum – sobre a situação do Iraque, o que é interpretado como uma mensagem direta a Wolfowitz: qualquer plano da instituição para esse país deverá contar com a participação dos representantes nacionais. As novidades sobre a possível nomeação de um diretor residente no Iraque fez aflorar tais preocupações. A IPS consultou vários membros da Junta, que se negaram a tocar no assunto. Dina el Naggar, porta-voz do Banco, informou não ter conseguido que funcionários da instituição encarregados da ligação com o Iraque respondessem às perguntas que apresentou a eles.
Alguns críticos afirmam que Wolfowitz tenta limpar seu nome com uma campanha publicitária contra a corrupção. Mas, agora aparece com novos projetos para o Iraque, apesar das evidências de atos desonestos na reconstrução desse país. O Banco Mundial participou do Fundo de Garantia do Iraque, dentro dos esforços internacionais pela reconstrução e pelos quais foram financiados 15 projetos no valor de US$ 410 milhões para melhorar a educação, a saúde, o censo familiar e os serviços de irrigação, fornecimento de água, saneamento, proteção social, telecomunicações e infra-estrutura urbana.
O Banco diz que também aprovou empréstimos de US$ 275 milhões, a cargo da Associação Internacional para o Desenvolvimento (seu ramo de créditos ao setor privado), destinados à educação, eletricidade e transporte. Em maio de 2006, Joseph Saba, diretor de assuntos do Iraque em Washington, disse que o Banco estava pronto para fortalecer sua presença no país, em concordância com o advento de um novo governo apoiado por Washington.
Nesse momento, o Banco disse que analisava a possibilidade de contratar um “voluntário” para ser diretor residente no Iraque desde a Zona Verde de Bagdá, a mais vigiada do país, onde estão os escritórios do governo e as embaixadas. Mas, o caos político e a falta de segurança até agora limitaram os planos, embora a instituição tenha prometido que o novo diretor residente teria a segurança de uma equipe armada especial, inclusive em ocasionais visitas controladas fora da Zona Verde.
O trabalho operacional do Banco no Iraque até agora dependeu de profissionais iraquianos dentro do país, reuniões regulares com iraquianos exilados, videoconferências e o apoio do Escritório Interino para o Iraque em Amã. O Banco não tem uma presença importante no Iraque desde que um atentado com explosivos, no dia 29 de agosto de 2003, matou um funcionário da instituição e 21 empregados da Organização das Nações Unidas em Bagdá.
Altos funcionários do Banco e alguns membros da Junta de Governadores expressaram temor de que as inclinações ideológicas de Wolfowitz envolvam cada vez mais o organismo no controvertido conflito iraquiano. Fontes do Banco asseguram que o veterano funcionário Christiaan Poortman, ex-vice-presidente do Banco para o Oriente Médio, renunciou no ano passado por ser contra as diretrizes de Wolfowitz no sentido de preparar novos empréstimos e enviar pessoal ao Iraque.
Bea Edwards também destacou que a falta de um sistema bancário em operação no Iraque não permite garantir o manejo transparente dos empréstimos e projetos do Banco. “O Banco está proibido de operar em um conflito como este”, disse a ativista. “O governo não controla seu território e não pode garantir a devolução dos empréstimos. Qualquer emergência ou financiamento social no Iraque deveria ser atendido com doações, não com empréstimos”, acrescentou. (IPS/Envolverde)


