Mundo: Allawi faz campanha com notas de US$ 100

Bagdá, 28/01/2005 – O primeiro-ministro iraquiano designado pelos Estados Unidos, Iyad Allawi, distribuiu notas de US$ 100 a jornalistas durante uma entrevista coletiva. Depois, concedeu aos professores do país um inesperado abono de US$ 100. Com ações desse tipo, Allawi, um xiita de família rica e tendência laica, parecem bem encaminhado para vencer as eleições deste domingo no Iraque. Wail Issam, um tradutor desempregado, questiona sua campanha. "Allawi suborna as pessoas e compra votos e apoio dos jornalistas, aposentados e professores. Garanto que ele conseguirá 70% dos votos xiitas nestas eleições forjadas", enfatizou Issam. "Como alguém pode imaginar que um homem que trabalhou para seis serviços secretos de diferentes países pode perder estas eleições?".

As regras eleitorais, segundo esse cidadão, permitem "a um membro de uma família emitir os votos de todos os que vivem em sua casa", afirmou. A maioria dos iraquianos é xiita (62%) e habitam o Sul, enquanto no Sul predominam os sunitas (35%), o grupo islâmico dominante no mundo árabe e também no regime de Saddam Hussein. Allawi, médico neurológico de profissão, tem dólares e proteção. Mas o que parece lhe faltar é o respeito de muitos compatriotas. "Qualquer um que seja eleito nestas supostas eleições será um títere de Bush. Especialmente Allawi", disse um jovem de 18 anos, estudante de Biologia da Universidade de Bagdá.

As ligações de Allawi com a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos estão presente na mente de muitos iraquianos. Tampouco deixaram de ser motivo de preocupação seus supostos antecedentes como agitador estudantil do Baath, o partido que colocou no poder o hoje prisioneiro ex-presidente Saddam Hussein e do qual, segundo estas versões, teria se desligado em 1976, já no exílio. "Allawi era um baathista com Saddam e agora é um fantoche dos norte-americanos", ironizou Ali Hammad Adnan, um homem de 42 anos que vende petróleo no mercado negro para manter os quatro membros de sua família.

Allawi deixou o Iraque em 1971, muito antes da chegada de Saddam Hussein ao poder em 1979, depois uma década de irrefreável ascensão. E o hoje primeiro-ministro não voltou ao Iraque até 2003, quando os Estados Unidos invadiram seu país. Sabe-se também que trabalhou com a CIA em uma operação para derrubar Saddam em1996. De todo modo, os iraquianos desconfiam de Allawi. "Não é questão de eleições", disse Suhaid, um engenheiro de computação de 23 anos que vive em Bagdá. "Os que têm poder mantêm o poder. Enfrentamos uma grande mentira. Estas eleições são totalmente ilegítimas", afirmou.

Allawi está decidido a realizar as eleições sob qualquer circunstância. As medidas de segurança máxima endureceram. Inclusive o Irã anunciou que fechará as fronteiras com o Iraque até depois de abertas as urnas. Por segurança, as estradas iraquianas estarão fechadas antes da votação. A comunicação por telefone celular e via satélite também será bloqueada, haverá toque de recolher, as fronteiras serão fechadas e se limitará o transporte dentro do país. Os militares norte-americanos enfrentam uma média de 80 ataques diários. A resistência iraquiana não cede. Mas as forças ocupantes não estão paradas. Soldados norte-americanos e iraquianos invadiram uma mesquita em Cidade Sadr, um bairro xiita de Bagdá, e deteve 25 seguidores do clérigo Muqtada al-Sadr, que determinou um boicote às eleições.

Pelo menos, nove iraquianos morreram em uma série de atentados com carro-bomba na cidade curda de Kirkuk. Mas muitos iraquianos estão dispostos a apoiar Allawi. "Votarei em Allawi porque penso que nos trará a segurança que desesperadamente precisamos", disse Zuthir Abbas, morador no bairro de Khadamiya, em Bagdá. Entretanto, Abbas nem mesmo sabia, no momento da entrevista, qual é o número de Allawi na lista de votação, bem como onde deverá votar no domingo, pois a Comissão Eleitoral ainda não havia anunciado, quatro dias antes da eleição, a localização das urnas. "Embora o elejam legitimamente, ou não, Allawi permanecerá no poder", disse o ferreiro xiita Ahmed Shuhab, de 28 anos. "Parece forte e age como se soubesse o que faz, porque os exércitos dos Estados Unidos e do Iraque o apóiam".

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *