América Latina: Jorge W… quem?

Washington, 09/03/2007 – Muito pouco, muito tarde. Esse parece ser o consenso entre os especialistas dos Estados Unidos em assuntos latino-americanos sobre a viagem de seis dias que o presidente George W. Bush realiza pela América Latina desde ontem. Além do Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México fazem parte dessa viagem, que a Casa Branca considera uma oportunidade de demonstrar que o presidente se preocupa de fato com seus vizinhos do sul, apesar dos cinco anos e meio de ênfase na “guerra contra o terrorismo” e no Iraque.

Posto na defensiva diante das perguntas da imprensa, o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Stephen Hadley, declarou está semana que Bush “esteve envolvido e comprometido com a América Latina ao longo de toda sua presidência”. Porém, esta região “não teve a atenção que merece, e essa é uma das razões desta viagem”, acrescentou. O presidente se encarregou de destacar que a agenda da viagem inclua questões como o alivio da pobreza, educação e saúde, e não as preocupações mais notórias de seu governo, como terrorismo, narcotráfico e comércio, matérias nas quais costuma exibir posições que o deixam mal-visto pelos vizinhos do Sul.

As perspectivas de sucesso em seus objetivos são muito discutíveis, segundo especialistas de Washington, que ao serem consultados não vacilam em usar a palavra “negligência” para qualificar a atitude de Bush para uma região que considerava prioritária em 2000, na campanha eleitoral que lhe deu o primeiro mandato. “O melhor que pode acontecer é que ocorram algumas poucas mudanças marginais. Talvez, possa começar a reparar relações que se caracterizaram um nível muito baixo de confiança do lado latino-americano”, disse Michael Shifter, vice-presidente do Diálogo Interamericano, um importante centro especializado com sede em Washington.

Desde a última viagem de Bush a América do Sul em 2005, quando participou da Cúpula das Américas, em Buenos Aires, foram realizados protestos e pesquisas que sugerem uma esmagadora rejeição às suas políticas, tanto entre a população quanto entre as elites da região. Em uma pesquisa feita no final do ano passado pela rede BBC de rádio e televisão de Londres, no Brasil, Chile, Argentina e México, entre 51% e 64% dos entrevistados expressaram uma opinião “majoritariamente negativa” sobre a influencia dos Estados Unidos no mundo.

“Os Estados Unidos nunca estiveram tão isolado da América Latina”, disse Larry Birns, presidente do Conselho de Assuntos Hemiféricos (COHA), instituição que estuda os vínculos interamericanos desde o governo de John F. Kennedy no começo da década de 60. “Com Bush, Washington alcançou nada em termos de cooperação com seus vizinhos latino-americanos”, afirmou Birns. Está sensação de distanciamento se deve não somente às políticas de segurança de Bush, mas, também ao evidente fracasso do Consenso de Washington, as políticas econômicas e comerciais recomendadas pelos Estados Unidos nos anos 80 e 90 através das instituições multilaterais de crédito.

Estas políticas “não solucionaram nenhum dos sérios problemas da América Latina”, disse um especialista. Isso não só reduziu a influência norte-americana, mas também incentivou o surgimento e a consolidação de movimentos populistas e de esquerda, sendo o mais destacado o do presidente venezuelano, Hugo Chávez. No sábado, Chávez estará em Buenos Aires, convidado pelo presidente argentino, Néstor Kirchner. Ali participará de um ato “antiimperialista”, a apenas 60 quilômetros – com o Rio da Prata no meio – da costa uruguaia, onde Bush se reunirá nesse mesmo dia com o presidente Tabaré Vázquez.

Além disso, Chávez fornece pacotes de assistência econômica e social aos governos que lhe são amistosos muito mais generosos do que os estabelecidos pelo governo Bush. A intenção de contrapor-se à influência de Chávez é, segundo especialista, uma das principais inspirações desta viagem. “Chávez é a razão de ser desta viagem”, afirmou Birns. “Após anos de negligência, o governo Bush finalmente se deu conta de que tem um inimigo bastante perdurável em Chávez e, assim, começou a atender mais a região. Porém, é muito tarde”. “O mais útil que fez Chávez neste plano foi incentivar os Estados Unidos a encontrar mecanismos úteis de ajuda em termos de desenvolvimento e de alivio da pobreza”, disse Thale as IPS.

Nesse sentido, o especialista observou que em seu discurso de segunda-feira na Câmara Hispânica de Comércio em Washington, Bush se referiu quase exclusivamente a programas de assistência para a América Latina. Entre outras medidas, disse que enviará um navio-hospital de sua Marinha de Guerra às Américas Central e do Sul para tratar de aproximadamente 85 mil pacientes e que enviará US$ 75 milhões em três anos para incentivar o ensino do idioma inglês na região. Além disso, prometeu US$ 385 milhões adicionais ao seu programa de casas para pobres do Brasil, México, Chile e América Central.

A Casa Branca cuidou de assegurar que duplicou a assistência à América Latina desde 2001, até chegar a US$ 1,6 bilhão. Porém, os US$ 870 milhões de 2001 não incluíam a ajuda na repressão às drogas na Colômbia, que hoje chega a US$ 400 milhões. Ativistas pelos direitos humanos e pelo desenvolvimento calculam que a ajuda dos Estados Unidos à América Latina aumentou cerca de um terço no governo Bush, e que está muito abaixo da generosidade demonstrada por Chávez. “Se o senhor Bush se perguntar por que não é recebido com braços abertos na América Latina, deve olhar para seu próprio orçamento de assistência”, disse Lisa Haugaard, diretora do Grupo de Trabalho Latino-americano em Washington. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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