Mundo: Cuba media conflito entre Chávez e Uribe

Caracas, 31/01/2005 – Os Estados Unidos "ficaram muito mal, como um intrometido" com a solução do conflito entre Caracas e Bogotá, disse no sábado o vice-presidente da Venezuela, José Vicente Rangel, enquanto eram divulgados informes segundo os quais o grande mediador foi o líder cubano Fidel Castro. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, visitou a cidade de Arauca, na fronteira com a Venezuela, onde agradeceu "a todos os governos irmãos, particularmente ao presidente do Peru, Alejandro Toledo, e ao seu chanceler, Manuel Rodríguez".

O Peru, presidente da Comunidade Andina de Nações, que compartilha com Bolívia, Colômbia, Equador e Venezuela, "realizou um trabalho facilitador e mediador muito eficiente e inteligente", afirmou. Além de Lima, também se ofereceram para mediar a situação os governos de Brasil, Argentina, Chile, Guatemala, México e República Dominicana. A capital peruana foi cenário, na quinta-feira, dia 27, de um encontro entre a chanceler da Colômbia, Carolina Barco, com seu colega venezuelano, Alí Rodríguez, no qual se avançou, embora não tenha havido um acordo nessa oportunidade.

Mas segundo o jornal El Tiempo, de Bogotá, na realidade foi Castro que, a pedido de Uribe, negociou "com uma velocidade e eficácia surpreendentes" um entendimento com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, depois que este determinou represálias diplomáticas, políticas, comerciais e nos demais acordos de cooperação e intercâmbio bilaterais com a Colômbia. Em segredo, o chanceler de Cuba, Felipe Pérez Roque, teria se reunido com Chávez e seu vice-chanceler, Abelardo Moreno, e com Uribe nos dias 21 e 22 para uma troca de cartas com Havana na qual os governos em crise teriam estabelecido os termos gerais de uma solução.

O conflito surgiu com o seqüestro, em dezembro, em Caracas, do guerrilheiro Rodrigo Granda, que depois foi levado para a fronteira colombiana onde a polícia alega que o encontrou. Granda se diz responsável pelos assuntos externos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A Venezuela acusou seu vizinho de violar sua soberania, o que foi negado pelo governo de Uribe, sendo que em seguida Chávez ordenou o congelamento das relações até que Bogotá apresentasse desculpas e desse segurança de que fato semelhante não se repetiria.

Segundo Caracas, a polícia colombiana subornou vários militares venezuelanos para que raptassem Granda e o levassem para a Colômbia, enquanto Bogotá garante que somente pagou a informantes para que indicassem em que lugar da fronteira o guerrilheiro se encontrava.Chávez também acusou os Estados Unidos de estarem por trás de toda a operação par criar inimizade entre os dois governos e buscar um confronto para desestabilizar seu mandato e prejudicar a integração acertada pelos países da América do Sul durante a cúpula regional de Cuzco (Peru) de dezembro passado.

O governo de George W. Bush foi o único da América que abertamente tomou partido pela Colômbia e seu embaixador em Bogotá, William Wood, foi o primeiro a apoiar em "cem por cento" as posições de Uribe. Depois, o Departamento de Estado norte-americano enviou mensagens às capitais sul-americanas pedindo que pressionassem Chávez para que aceitasse as teses colombianas e colaborasse com Uribe na luta contra as guerrilhas esquerdistas. Além disso, ao comparecer ao Senado para defender sua nomeação com secretária de Estado, Condoleezza Rice, hoje já confirmada no cargo, criticou Chávez em duas oportunidades como "uma força negativa na região" e por não colaborar com seus vizinhos na "luta global contra o terrorismo".

O analista venezuelano Carlos Romero disse à IPS que o que Washington busca é o apoio de Chávez ao Plano Colômbia, financiado pelos Estados Unidos, agora em sua fase abertamente militar com o nome de Plano Patriota, que levará a ofensiva antiguerrilha até as regiões fronteiriças. O presidente venezuelano não só recusa a apoiar esse plano como também insiste em ser neutro a respeito do conflito interno colombiano e afirma que somente apoiará iniciativas de paz e não as de guerra. Embora estivessem se enfrentando, Chávez e Uribe nunca deixaram de lamentar o incidente e fizeram constantes votos para que uma solução fosse encontrada, pressionados por empresários colombianos, os mais afetados com a interrupção de um comércio bilateral que no ano passado foi de US$ 2,5 bilhões.

Também na zona colombiana de fronteira agravaram-se os problemas cotidianos pela escassez de combustível que chega da Venezuela e pelas restrições da passagem de pessoas e caminhões que necessitavam ir à Venezuela. "A maneira positiva como o problema foi resolvido demonstra que temos capacidade de solucionar questões difíceis da melhor maneira", afirmou Rangel. O resultado "deixa em situação ruim os Estados Unidos, que com suas reiteradas intervenções ficou como um intrometido".

Para solucionar a controvérsia, a Casa de Nariño (presidência da Colômbia) produziu um comunicado na noite de sexta-feira no qual, sem pedir desculpas, expressa "sua maior disposição em revisar os fatos" relacionados com a detenção de Granda para que os inconvenientes do ponto de vista da Venezuela não se repitam". O chanceler Rodríguez disse em Caracas que "recebemos com agrado o comunicado. Abre caminhos para relações muito positivas. O governo venezuelano dará uma resposta na mesma tônica". Entretanto, a movimentação da chancelaria em Caracas devido a visita do vice-presidente chinês, Zeng Qinghong, atrasou a resposta venezuelana.

Os dois governos acertaram que Uribe visitará a Venezuela na próxima quinta-feira "com o ânimo de ouvir o presidente Chávez e, uma vez que o escute, expressar-lhe algumas reflexões", segundo disse o mandatário colombiano. "Comemoro a possibilidade de que todos os dias haja melhor coordenação com a irmã República Bolivariana da Venezuela, com o governo e com o presidente Hugo Chávez para que, conjuntamente, com trabalho harmonioso, de acordo com a Constituição e as leis de nossas pátrias, fechemos o caminho ao terrorismo", acrescentou Uribe em Arauca. As Farc, que com uma denúncia em sua página na Internet sobre o seqüestro de Granda dispararam o conflito diplomático, se gabaram em um novo texto de terem "desmascarado o perfil cínico e falso" do presidente colombiano.

Correspondentes da IPS

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