Mundo: Refugiados tibetanos sem ajuda no Nepal

Katmandú, 01/02/2005 – Centenas de refugiados tibetanos ficaram em péssima situação quando o governo do Nepal fechou, aparentemente por pressão da China, uma instituição de assistência dirigida por seguidores de seu líder espiritual no exílio, Dalai Lama. A maioria dos que passam pelo bairro de Lazimpat, em Katmandú, talvez não saiba que uma organização bastante discreta ali instalada tem ajudado milhares de refugiados tibetanos nos últimos 45 anos. A maioria deles fugiu da polícia e do exército chineses, bem como das forças de segurança nepalesas. O terreno montanhoso e o intenso frio impedem o controle da passagem de quem tenta cruzar as montanhas do Himalaia escapando do Tibet, a pátria do budismo lamaísta controlada pela China desde 1959, com destino ao Nepal, o único reino hindu do mundo.
No dia 21 de janeiro, o governo nepalês ordenou ao município de Katmandú que fechasse o Escritório do Representante do Dalai Lama – líder espiritual do Tibet – e o Escritório de Bem-estar de Refugiados Tibetanos (OBRT). Assim, foi quebrada a tranqüilidade em Lazimpat, que se colocou no centro da atenção da imprensa nacional e internacional. A chancelaria nelapesa argumentou que não devia permitir a nenhuma dessas organizações desenvolver "atividades políticas". "Não estamos contra as atividades sócio-culturais e de bem-estar dirigidas aos refugiados, mas não podemos admitir nenhuma atividade política", argumentou o ministro das Relações Exteriores do Nepal, Prakash Sharan Mahat, que admitiu que os tibetanos passariam dificuldades depois do fechamento das entidades.
O representante do Dalai Lama no Nepal, Wangchuk Tsering, negou que essas organizações, ambas dirigidas pelo ele próprio, desenvolvam operações políticas. Mas o Ministério do Interior o advertiu que não poderá mais invocar o nome de Dalai Lama em suas atividades. A simples menção do líder espiritual do lamaísmo é, segundo essas autoridades, contrária à diplomacia do Nepal, que apóia a política de "uma China" defendida por Pequim. Segundo essa política, Tibet e Taiwan são parte da China. As organizações funcionaram durante 45 anos em Katmandú, apesar das demonstrações de desagrado do governo chinês, que pressionou por seu fechamento. Muitos tibetanos acreditam que a decisão foi uma resposta a essa pressão.
No Nepal vivem mais de 20 mil refugiados tibetanos que deixaram seu país depois da fuga do Dalai Lama em 1959, após uma falida rebelião contra o regime chinês. O líder espiritual tibetano vive na Índia e deixou de visitar o Nepal há muito tempo. A organização Human Rights Watch informou que até três mil tibetanos arriscam suas vidas todos os anos para cruzar as montanhas do Himalaia rumo ao Nepal. Aqueles que conseguem chegar à OBRT sofrem congelamentos e outros problemas de saúde causados pela travessia da cordilheira. A OBRT "tem sido uma rede de segurança para dezenas de milhares de tibetanos perseguidos", e seu fechamento "deixa milhares de refugiados sem um apoio crucial", disse o diretor da HRW para a Ásia, Brad Adams.
O governo chinês restringe a liberdade de culto e expressão no Tibet, e procura limitar com fortes medidas repressivas a influência política e religiosa do Dalai Lama em todo o território. O Exército Popular da China invadiu o Tibet em 1951. Na época, Pequim reprimiu o sistema religioso e a cultura tradicionais. Também aboliu o sistema feudal de exploração agrícola e criou as primeiras comunas. Em 1959, a seita tibetana Chapéu Amarelo iniciou uma sublevação sem sucesso, e nesse mesmo ano Dalai Lama e seus seguidores fugiram para a Índia.
Da cidade indiana de Dharmsala, o líder espiritual trava sua luta pela independência do Tibet e a restauração de suas tradições. Para isso, propôs a realização de um plebiscito sobre a autodeterminação, iniciativa rejeitada por Pequim. Premiado com o Nobel da Paz, Dalai Lama é reverenciado dentro e fora do Tibet com "deus vivo". Nos últimos 20 anos, suas demandas de independência se diluíram em uma reclamação de tolerância e autonomia regional, semelhante à que gozam outros territórios da China, como Hong Kong, Cantão e Xangai. No dia 26 de janeiro, o governo chinês comutou a condenação à morte de Tenzin Delek, um monge lamaísta que ficou conhecido por suas campanhas em defesa da cultura e da religião do Tibet.
Delek foi detido em 2002, acusado de "atentados com explosivos" e de "incitar a separação do Estado". Lobsang Dondrup, que – segundo Pequim – o acompanhou em sua conspiração, foi executado há dois anos. A Secretaria do Interior do Nepal e ouros funcionários solicitaram a Tsering que tentasse registrar a OBRT e a representação do Dalai Lama em Katmandú "de algum modo que não prejudique a política do Nepal" em relação ao Tibet, segundo afirmou o próprio dirigente à IPS. As autoridades nepalesas também pediram que ele não tentasse manter contato com os tibetanos que procuravam refúgio. A maioria deles não fala outro idioma além do tibetano e chinês.
A única esperança de Tsering é que a comunidade internacional exerça uma pressão que se contraponha à do governo chinês e lhe permita reiniciar as atividades das organizações. O dirigente tibetano já contatou as embaixadas dos Estados Unidos e dos países da União Européia no Nepal, bem como os escritórios em Katmandú dos altos comissariados das Nações Unidas para os Refugiados e para os Direitos Humanos. A porta-voz da embaixada norte-americana, Constance C. Jones, disse à IPS que o Departamento de Estado acompanha em Washington com atenção as conseqüências do fechamento das organizações.
"Trabalhamos com o governo do Nepal para garantirmos que não seja afetado o bem-estar dos refugiados tibetanos nesse país", afirmou Jones. Porém, descartou a possibilidade do governo norte-americano reclamar junto ao nepalês a reabertura."É um assunto interno do governo do Nepal. Não pediremos isso", afirmou. Por outro lado, o funcionário do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos no Nepal, David Johnson, negou-se a tocar no assunto. "Estou sabendo do problema, mas não posso fazer comentários agora", disse. O fechamento das organizações não afetará a ajuda que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados dá aos tibetanos no Nepal, afirmou à IPS um funcionário dessa agência. (IPS/Envolverde)

Damakant Jayshi

Damakant Jayshi is a reporter and editor for print, online and news agencies. He is the IPS correspondent for Nepal and is based in Kathmandu. He writes about politics, human rights and social issues. He is one of the founding editors of Republica, Nepal's leading national English daily. Damakant was also a 2007 Nieman Fellow at Harvard.

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