Clima: Novo relatório do IPCC aponta riscos mais urgentes

Berlim, 09/04/2007 – Centenas de milhões de pessoas podem ter de encarar imediatamente as conseqüências do aquecimento global, segundo o relatório do Grupo Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgado nesta sexta-feira. A versão final do informe “Mudanças Climáticas 2007: Impactos, adaptação e Vulnerabilidade”, apresentado em Buxelas, também adverte que o aquecimento dizimará a flora e a fauna se não forem reduzidas drasticamente as emissões humanas de gases de efeito estufa.

Os riscos para a população humana e para as espécies animais e vegetais são particularmente severos nas regiões tropicais da África e nos deltas dos Sudeste Asiático, na Amazônia e nas ilhas mais baixas, além de áreas próximas aos oceanos. Para 2020 até 250 milhões de habitantes da África subsahariana enfrentarão a escassez de água e, em alguns países a produção de alimentos poderá ser reduzida pela metade, segundo o novo relatório do IPCC.

Algumas regiões da Ásia ficarão em perigo por causa do degelo dos glaciares em regiões montanhosas como o Himalaia. O mesmo deverá acontecer no Sul da Europa, por conta dos derretimento nos Alpes.

O Estudo indica que as mudanças climáticas deverão afetar especialmente as regiões mediterrâneas da Europa, que enfrentará verões mais quentes e desequilíbrios no inverno. Mas todo o hemisfério Norte sofrerá com invernos com temperaturas muito baixas. “No Sul da Europa é muito provável que que as mudanças climáticas tenham impactos negativos, com riscos para a saúde provocados pelas crescentes ondas de calor e incêndios florestais, a redução da disponibilidade de água e de energia”, diz o informe. “No hemisfério Norte as mudanças climáticas trarão alguns benefícios como a redução dos períodos frios e o aumento das colheitas, o reflorestamento e a produtividade pesqueira maior nas águas do Atlântico e do potencial hidrelétrico”, indica o novo relatório.

Porém, as mudanças climáticas, causada segundo a maioria dos cientistas pelo aquecimento planetário provocado pela queima de combustíveis fósseis, também terá impactos negativos na Europa e na América do Norte. O informe indica que um aumento de dois graus na temperatura global teria conseqüências climáticas e ambientais em todo o mundo. Um aumento na temperatura entre um e seis graus nos próximos 100 anos conduziria à extinção de um quinto a um terço de todas as espécies de flora e fauna do mundo, e provocaria a inundação de litorais e ilhas habitadas por centenas de milhões de pessoas.

A nova avaliação do IPCC é resultado da revisão das pesquisas e o debate de 2.500 cientistas, entre eles os 450 principais autores que contribuíram com a redação do informe. A versão final foi acertada em Bruxelas por alguns deles e delegados de 130 governos.

A presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, qualificou o informe, ao apresentá-lo à imprensa nesta sexta-feira, como “um documento muito bom”, mas disse que as discussões que levaram à versão final foram muito difíceis. “Acabamos de terminar uma maratona de discussões”, iniciada dia 2 de abril, “mas a aprovação do informe foi um exercício muito produtivo, mas tenso e complexo. Não foi um documento fácil de produzir”, disse Pachauri. Pessoas presentes às reuniões disseram que representantes dos governos dos estados Unidos e China se opuseram a alguns aspectos que acentuavam o alarme sobre a gravidade das mudanças climáticas em comparação com a versão anterior do IPCC. As duas delegações aliviaram a linguagem utilizada no informe e procuraram remover prognósticos específicos sobre a situação de seus países.

Estados Unidos e China são os principais emissores de gases de efeito estufa provicados pela queima de combustíveis fósseis. Juntos são responsáveis por 45% das emissões totais do planeta. O governo George Bush se recusa a qualquer obrigação de redução de suas emissões, como as metas estabelecidas pelo Protocolo do Kioto, firmado durante a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, de 1997 e vigentes desde fevereiro de 2005.

A China, considerada pelo Protocolo de Kioto como um país e desenvolvimento, não está obrigada a reduzir suas emissões. Apenas 35 países considerados desenvolvidos, entre eles os estados Unidos, responsável por 25% das emissões, estariam obrigados a reduzir suas emissões em 5,2% sobre os valores de 1990 entre 2008 e 2012. No entanto, os Estados Unidos retiraram sua assinatura do tratado tão logo Bush foi eleito para o primeiro mandato em 2001. Os dois países estão no centro de uma grande pressão internacional para a aprovação de um novo convênio que suceda o Protocolo de Kioto em 2013.

O novo alerta do IPCC é menos contundente do que o esperado pelas organizações ambientalistas, mas mesmo assim apresenta uma “visão pessimista” do futuro. Ativistas pedem urgência aos países industrializados para que promovam uma revolução na área de energia, de forma a criar uma economia livre de carbono, para conseguir a redução das emissões de gases estufa e manter o aquecimento global abaixo dos níveis apontados pelo IPCC. “Esta é uma espiada em um futuro apocalíptico”, disse em Bruxelas Stephanie Tunmore, especialista em mudanças climáticas e energia da organização Greenpeace Internacional. “Este relatório indica que estamos ficando sem tempo. A Terra se transformará num lugar pior a manos que se tomem ações muito rápidas”, disse.

Catherine Pearce da Amigos da Terra Internacional, disse que “se nãoo forem tomadas medidas para a redução das emissões imediatamente estaremos condenando milhões de habitantes das regiões mais pobres do planeta a perdas de vidas, de colheitas e de suas casas”. Hans Verolme, diretor do programa de mudanças climáticas do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), disse que “não fazer nada não é uma opção. Pelo contrário, terá conseqüências desastrosas. Os países industrializados devem simplesmente aceitar sua responsabilidade e começar a implementar soluções”.

O comissário de meio ambiente da União Européia, Stavros Dimas, disse que o informe consolida a determinação do bloco em reduzir ainda mais suas emissões. “O mundo precisa atuar rapidamente para estabilizar as mudanças climáticas e impedir a piora de seus impactos”.

Este informe é o segundo do IPCC publicado este ano. No dia 2 de fevereiro este panel da ONU afirmou que os setores da indústria, dos transportes e a produção de eletricidade eram os principais responsáveis pelas emissões de gases estufa. Nesta quarta avaliação dos impactos das mudanças climáticas, intitulada “A base científica” fica reafirmada que as emissões de gases de efeito estufa pela atividade humana, especialmente a queima de combustíveis fósseis, são as principais causas do aquecimento Global.

O IPCC advertiu que o aumento das emissões de gases estufa e das temperaturas médias mundiais vão incrementar as catástrofes climáticas, como verões mais quentes e invernos mais brandos, secas, inundações, derretimento de glaciares, elevação do nível do mar e furacões mais fortes e mais freqüentes.

O IPCC foi criado em 1998 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela Organização Meteorológica Mundial. Seu objetivo é “avaliar sobre uma base exaustiva, objetiva, aberta e transparente a informação cientifica, técnica e socioeconômica relevante para compreender (…) o risco de mudanças climáticas induzidas pelo homem, seus potenciais impactos e opções para adaptação e mitigação”.

O próximo relatório, que será divulgado ainda este mês, vai propor mecanismos para a redução das emissões. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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