Grã-Bretanha-EUA: Questionada a valentia de fuzileiros britânicos

Washington, 12/04/2007 – Os militares prisioneiros estão obrigados a fornecer apenas seu nome, patente, número de identificação e regimento, ao serem interrogados. Mas, pouco depois de libertados, os fuzileiros britânicos capturados pelo Irã faziam fila para vender suas historias à imprensa. Os 15 soldados da Marinha Real da Grã-Bretanha foram imediatamente acusados por neoconservadores e outros direitistas dos Estados Unidos de “agirem como estrelas da televisão” e de “comportamento humilhante”. A resposta de Londres à detenção foi uma afronta ao mundo anglo-saxão ocidental e aos seus interesses no Oriente Médio, segundo estas visões.

“Se houve na história um caso mais rápido e humilhante de Síndrome de Estocolmo não sabemos”, diz um editorial do jornal neoconservador The New York Post, propriedade do consórcio de origem australiano Rupert Murdoch’s News Corporation. Por sua vez, o colunista neoconservador Mark Steyn, do jornal Chicago Sun-Times, escreveu: “A nave Queen’s Navee ficou fora de serviço. A moça emblemática estava vestida ao estilo islâmico os 14 homens usavam roupa informal ao estilo” do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

As instruções aos soldados britânicos em caso de captura são secretas, segundo o Ministério da Defesa. Porém, elas não serviram muito com as técnicas que, segundo dizem, os iranianos aplicam nestes casos. Teerã usou os fuzileiros, capturados por membros da Guarda Revolucionária do Irã quando patrulhavam o estreito de Shatt al-Arab, como um instrumento de propaganda. Os militares foram obrigados a confessar diante das câmaras e microfones de meios de comunicação controlados pelo Estado.

O governo britânico foi, talvez, mais hábil do que o aparato publicitário iraniano, ao permitir aos fuzileiros – com o argumento de que se trata de “circunstâncias excepcionais” – que vendam suas versões dos fatos à imprensa do país. Mas, o negócio não durou muito. Na segunda-feira o Ministero da Defesa proibiu os soldados de continuarem lucrando com sua experiência em cativeiro. A única mulher capturada, a fuzileira Faye Turney, de 26 anos, chegou a tempo para cobrar por suas declarações à rede de televisão britânica ITV1 mais de cem mil libras (US$ 197.152).

O mais jovem dos prisioneiros, Arthur Batchelor, de 20 anos, disse ao jornal Daily Mirror que na prisão “chorou como um bebê”. “Um guarda batia em meu pescoço. Pensei o pior. Todos viram os vídeos”, disse Batchelor na entrevista. Talvez se referisse às decapitações gravadas pela rede terrorista Al Qaeda ou ao movimento afegão Talibã, como as dos norte-americanos Nicholas Berg, empresário, Daniel Pearl, jornalista. O regime xiita iraniano não foi implicado na realização ou distribuição desse tipo de vídeos.

Em resposta à vigorosa defesa britânica dos militares que “agiram com imensa coragem e dignidade”, o editorial do The New York Post destacou que “isto não é nada mais do que o creme sobre a torta da capitulação, o que se soma a humilhações que terão conseqüências a longo prazo”. Esse é o resultado da posição “branda” da Grã-Bretanha em relação ao Irã, que enfurece os colunistas neoconservadores como Charles Krauthammer, do The Washington Post. A “humilhação” sofrida pela Grã-Bretanha é, segundo ele, evidência de que a comunidade internacional e “suas grandes instituições” são uma farsa, e que o multilateralismo está morto.

“Quer seu pessoal de volta? Vá à União Européia e fique tenso. Dirija-se ao Conselho de Segurança (da ONU) e obtenha uma declaração que rechaça, e inclusive deplora, este ato de pirataria”, escreveu Krauthammer. “Depois, procure os desprezados norte-americanos, que trocarão cartões de visita e logo se despedirão”. O governo britânico anunciou em fevereiro, quando já havia morrido 136 de seus soldados, um novo cronograma para a retirada de sete mil soldados desse país. O primiro-ministro, Tony Blair, disse ao parlamento que três mil desses militares serão retirados este ano. Enquanto acontecia o anúncio britânico, o governo de George W. Bush propunha enviar mais 21 mil soldados para o Iraque.

A crise entre Teerã e Londres por causa dos fuzileiros capturados trouxe uma nova complicação para Blair, que quer sair rapidamente da cidade iraquiana de Basra, hoje sob custódia britânica, antes que a situação esteja completamente fora de controle.

Outro falcão neoconservador aproveitou a diplomática resposta britânica como argumento para uma ação unilateral e como advertência para as futuras conversações com a comunidade internacional sobre as aspirações nucleares do Irã. Por sua vez, o ex-embaixador dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas John Bolton escreveu em uma coluna para o jornal Financial Times que desconhece na Grã-Bretanha autoridade no manejo de suas relações exteriores. Bolton qualificou o enfoque da diplomacia britânica de “passivo, vacilante e quase aprobatório” para a ação do Irã.

O canal de notícias Fox News dedicou sua cobertura sobre este fato para promover o debate sobre o suposto heroísmo ou covardia dos fuzileiros britânicos feitos prisioneiros.”Não há forma de ver isto. Os gestos afetusosos com Ahmadinejad e a bolsa com presentes… Isto foi um verdadeiro fracasso de liderança”, disse o coronel Ralph Peters ao jornalista Neil Cavuto, da Fox News. “Um servidor dos Estados Unidos não aceitaria esse tipo de presente, e menos ainda os mostraria diante das câmeras agradecendo ao presidente iraniano”, acrescentou o militar.

O coronel Bob Maginnis, outro especialista da Fox News e colaborador do programa de rádio do clérigo cristão Jimmy DeYoung, chamou os fuzileiros de “covardes”. Parece que era dia de festa em Teerã… Estavam diante de Ahmadinejad e lhe agradeceram pelo tratamento amável, por deixá-los partir…. E ele lhes dava presentes persas e todo tipo de lembrança para levarem para casa”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Khody Akhavi

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