Energia: Cúpula sul-americana em busca de complementação

Ilha de Magarita, Venezuela, 17/04/2007 – A reunião de mandatários sul-americanos que começou nesta segunda-feira marca um ponto de convergência entre a certeza de que a região possui suficientes recursos energéticos para seu desenvolvimento e a vontade política para traduzi-los em projetos sociais e economicamente viáveis. “Vários países são exportadores de energia e há um grupo de importadores com grandes necessidades. É isso que precisa ser complementado”, resumiu o ministro de Energia da Venezuela, Rafael Ramírez, ao abrir as sessões de trabalho da Cúpula Energética Sul-americana na Ilha de Margarita.

O conjunto latino-americano e caribenho “mostra um saudável balanço energético, e o que é necessário é estender redes de complementaridade”, afirmou à IPS Álvaro Ríos, secretário-geral da Organização Latino-americana de Energia (Olade), com sede em Quito e integrada pelos ministérios da área da região. Dados da Olade indicam que a área da América Latina e do Caribe tinham ao final de 2005 uma oferta anual de 5,171 bilhões de barris equivalentes de petróleo em energia primária (petróleo cru, gás, carvão, hidroeletricidade, geotermia, biomassa), enquanto seu consumo final ficava em 4,062 bilhões de unidades.

O barril equivalente é uma unidade de medida que equipara a energia gerada de outras fontes com os 159 litros do barril de petróleo. A maior parte do que é consumido diretamente na região, cerca de 3,110 bilhões equivalentes, chega ao usuário final em forma de eletricidade, gás liquefeito e derivados do petróleo, como os combustíveis. Esta região, que tem 11% das reservas mundiais declaradas de petróleo, produz ao ano cerca de 3,5 bilhões de barris de petróleo e consome 2,1 bilhões. Produz, ainda, cerca de 240 bilhões de metros cúbicos de gás natural e consome aproximadamente 220 bilhões.

A geração de eletricidade, que é de uns 1.116 terawatts (Twh, bilhões de watts) por hora, pode chegar dentro de uma década a 1.800 Twh em um cenário de integração baixa, e a 2.300 Twh em um cenário de alta integração, estimou a Olade. Os países da região, segundo Ramírez, “estão dando uma virada nos critérios de seu planejamento energético para atender prioritariamente nossas próprias necessidades”.

Esta cúpula é a primeira que os mandatários realizam dedicada exclusivamente ao setor em busca de seu objetivo estratégico de uma Comunidade Sul-americana de nações, e adotará uma declaração que fará de marco para os acordos de integração e negócios conjuntos em toda a área de energia. “Como tendência, caminhamos para um trabalho de integração e coordenação mais forte nas sub-regiões do que como grande conjunto regional”, observou Ríos, por razões que vão “desde o intercâmbio de eletricidade através das fronteiras até o novo papel, de protagonista, que o gás natural adquiriu”, acrescentou.

Para esse produto, por iniciativa da Venezuela, foi criada uma Organização de Países Produtores e Exportadores de Gás Sul-americanos, com Argentina, Bolívia e Venezuela, com um insistente convite para que o Peru também faça parte. Essa proposta se afina com a estratégia global que a Venezuela realiza junto ao Irã, para que seja constituída uma grande organização mundial de exportadores de gás semelhante à dos exportadores de petróleo. Mas ainda tropeça no desdém da Rússia.

Os chefes de Estado passarão em revista os gasodutos projetados ou em construção, como o de oito mil quilômetros previsto para levar gás desde o Caribe venezuelano até o Rio da Prata, com conexões desde Bolívia e Peru e com o que liga o norte da Colômbia e a Venezuela, e vários projetos de prospecção e produção de gás.

Em matéria de petróleo existe uma multiplicidade de acordos e projetos de cooperação, como Petroandina e Petrosur, baseados no fornecimento desde a Venezuela com termos brandos de pagamento mediante acordos entre governos, a construção de refinarias como a Abreu e Lima, que está sendo construída em Pernambuco pela Petrobras e a Petróleos de Venezuela SA (Pdvsa). Também há desenvolvimentos “águas abaixo”, como uma petroquímica cuja pedra fundamental foi lançada nesta segunda-feira em Barcelona, na costa firme diante de Margarita, pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o anfitrião Hugo Chávez.

As deliberações desta segunda-feira dos ministros de Energia e dos chanceleres serão seguidas hoje da reunião de presidentes, que formalmente chamará a conquistar a “soberania energética” para a América do Sul, segundo as primeiras informações. Basicamente se trataria de desenvolver a infra-estrutura e o mercado necessários para que os recursos energéticos de que dispõe a América do Sul se voltem para a região, para impulsionar seu desenvolvimento e a redução da pobreza.

Deste encontro participam todos os mandatários sul-americanos, menos o uruguaio Tabaré Vázquez, representado pelo seu vice, Rodolfo Nin Novoa. Os chefes de Estado manterão numerosas reuniões bilaterais durante as poucas horas que permanecerão na ilha. Um tema que marcou o preâmbulo da cúpula foi o debate sobre o etanol, depois que em março os Presidentes Lula e George W. Bush, cujos países produzem três quartas partes do etanol do mundo, acertaram impulsionar esse biocombustível entre as alternativas e complementos aos combustíveis de origem fóssil.

Chávez, assim como seu colega de Cuba, Fidel Castro, colocou-se após esse acordo Brasil-EUA como um severo crítico da agricultura para o etanol, que é obtido de produtos como o milho e a cana-de-açúcar, invocando razões ambientais e éticas, pois “se deve produzir alimentos para as pessoas, não para os automóveis dos ricos”. O assessor do presidente Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio García, disse que seu país exporia durante o encontro, com uma linguagem de “paz e amor”, que os planos para multiplicar por 12 sua atual produção de 17,3 bilhões de litros anuais de etanol de cana “não implicam derrubar uma única árvore” da selva amazônica. (IPS/Envolverde)

(*) Humberto Márquez, enviado especial.

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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